Ttulo original: The Dressmaker of Khair Khana

Copyright  2011 Gayle Tzemach Lemmon

Copyright da edio brasileira  2013 Editora Pensamento-Cultrix Ltda.

Texto de acordo com as novas regras ortogrficas da lngua portuguesa.

1 edio 2013.

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida ou usada de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrnico ou mecnico, inclusive fotocpias, gravaes ou sistema de armazenamento em banco de dados, sem permisso por escrito, exceto nos casos de trechos curtos citados em resenhas crticas ou artigos de revistas.

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Coordenao editorial: Manoel Lauand

Capa: Gabrielle Bordwin

Foto da capa:  Susan Fox / Arcangel Images

Foto da autora:  Jack Guy

Editorao eletrnica: Estdio Sambaqui

Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)
 (Cmara Brasileira do Livro, sp, Brasil)

Lemmon, Gayle Tzemach

A costureira de Khair Khana / Gayle Tzemach Lemmon ; traduo Carmen Fischer. -- So Paulo : Seoman, 2013.

Ttulo original: The dressmaker of Khair Khana.

ISBN 978-85-98903-66-8

1. Cabul (Afeganisto) - Biografia 2. Cabul (Afeganisto) - Condies econmicas 3. Cabul

(Afeganisto) - Usos e constumes 4. Costureiras - Cabul (Afeganisto) - Biografia 5. Irms - Cabul

(Afeganisto) - Biografia 6. Khair Khana (Cabul, Afeganisto) - Biografia 7. Mulheres de negcios -

Cabul (Afeganisto) - Biografia 8. Sedigi, Kamela, 1977- 9. Sedigi, Kamela, 1977- - Famlia

10. Vida comunitria - Cabul (Afeganisto) - Histria - Sculo 21 I. Ttulo.

13-04889 CDD-958.1


ndices para catlogo sistemtico:

1. Mulheres : Afeganisto : Histria social

958.1


1 edio digital - 2013
 ISBN Digital: 978-85-98-903-75-0

Seoman  um selo editorial da Pensamento-Cultrix.


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que se reserva a propriedade literria desta traduo.

Foi feito o depsito legal.



Para

TODAS AS MULHERES

cujas histrias jamais sero contadas;

e para

RHODA TZEMACH

e

FRANCES SPIELMAN



Nota da Autora

As histrias contadas neste livro so o resultado de trs anos de entrevistas e pesquisas de campo em Cabul, Londres e Washington, D.C. A segurana no Afeganisto s piorou nesses ltimos anos. Eu alterei os nomes de muitas pessoas que aparecem nas pginas deste livro como medida de proteo ou por respeito ao desejo de privacidade delas. Atendendo ao pedido de algumas, eu tambm omiti certos detalhes de menor importncia, mas que tornariam as personagens deste livro facilmente identificveis. Eu me esforcei, arduamente, para manter a preciso das datas e perodos relacionados a suas histrias, mas admito que, s vezes, eu possa ter escorregado em meio a tudo que se passou no Afeganisto nas ltimas trs dcadas e nos anos que se passaram desde o comeo deste relato.



ndice

Capa 

Folha de rosto 

Crditos 

Nota da Autora 

ndice 

Introduo 

1 - A chegada da notcia que mudou tudo 

2 - Tempo de despedidas 

3 - Costurando um novo futuro 

4 - O plano conquista o mercado 

5 - Surge uma nova ideia... mas ser que vai dar certo? 

6 - Uma escola em pleno funcionamento 

7 - Uma inesperada cerimnia de casamento 

8 - Uma nova oportunidade bate  porta 

9 - Ameaa na escurido da noite 

Eplogo - Kabul Jan, Kaweyan e a f de Kamila na boa sorte 

Agradecimentos 

Bibliografia 

Referncias 

Conhea outros ttulos



Introduo

Aterrissei pela primeira vez no Afeganisto numa fria manh de inverno em 2005 depois de dois dias de viagem de Boston a Dubai, via Londres. Meus olhos ardiam e minha cabea girava. Demasiadamente ansiosa para conseguir dormir, eu havia passado toda a noite em p no Terminal II do aeroporto de Dubai  espera do voo da companhia area Ariana que me levaria para Cabul, marcado para decolar s seis e meia da manh. A companhia area afeg exigia que os passageiros estivessem no aeroporto com trs horas de antecedncia, o que tornava a procura por um hotel um problema fora de cogitao. Os destinos dos voos anunciados para antes do amanhecer no grande painel preto pareciam levar aos lugares mais exticos do mundo: Karachi, Bagd, Kandahar, Luanda. Percebi que eu era a nica mulher no aeroporto e, acomodada sobre o parapeito de uma janela situada num canto do saguo do Terminal II pouco mobiliado, esperando carregar meu celular, fiz de tudo para me tornar invisvel. Mas podia sentir os olhares intrigados dos homens que passavam por mim usando suas shalwar kameez soltas, empurrando seus carrinhos de bagagem com pilhas altas de malas, estourando de to abarrotadas, amarradas com fortes cordes marrons. Imaginei que eles estivessem se perguntando que raios aquela mulher jovem estava fazendo ali, sozinha, s trs horas da madrugada.

Para ser sincera, eu tambm estava me perguntando a mesma coisa. Entrei no banheiro feminino, totalmente desocupado, cuja limpeza tinha acabado de ser feita, para trocar minha vestimenta de Boston - um bluso de gola olmpica, um par de jeans da marca Kasil e botas inglesas de couro marrom - por um par de calas pretas, uma camiseta preta de mangas compridas, um par de sapatos pretos Aerosoles e meias tambm pretas. A nica cor que eu fiz concesso em usar era uma malha de l solta de cor ferrugem que eu havia comprado numa loja New Age em Cambridge, Massachusetts. Minha amiga Aliya havia me emprestado um xale de l preta para cobrir a cabea, que procurei jog-lo casualmente sobre a cabea e os ombros, como ela havia me ensinado quando estvamos sentadas juntas num div forrado de pelcia a milhares de milhas - e mundos - de distncia em seu quarto no alojamento para estudantes da Harvard Business School. Agora, vinte e quatro horas depois, sozinha num esterilizado banheiro do aeroporto de Dubai, eu coloquei e recoloquei umas doze vezes o xale at achar que minha aparncia estava passvel. Olhei-me no espelho e no me reconheci. Oh, est timo, eu disse em voz alta para meu reflexo com ar de preocupao. A viagem vai ser tima. Uma confiana fingida. Calcei meus sapatos de sola de borracha e deixei o banheiro feminino.

Oito horas mais tarde eu desci a escada de metal para pisar no solo calcetado com macadame do Aeroporto Internacional de Cabul. O sol brilhava intensamente e a fragrncia de um ar carbonizado de inverno - frio, porm misturado com fumaa - penetrou diretamente em meu nariz. Eu segui me arrastando e tentando no deixar o xale de Aliya cair, enquanto arrastava atrs de mim o carrinho com a bagagem. Eu tinha que parar a todo instante para prender o vu. Ningum havia me avisado sobre as dificuldades de mant-lo preso enquanto andava e mais ainda quando tinha que arrastar uma pesada bagagem. Como  que as mulheres a minha volta conseguiam andar com tanta desenvoltura e graa? Eu queria ser como elas, mas, em vez disso, eu parecia ridcula, uma estrangeira desajeitada parecendo uma patinha feia se atrapalhando entre os cisnes locais.

Eu esperei por uma hora naquele aeroporto, estilo dcada de 1960, impressionada com as carcaas dos tanques russos ainda continuarem ali ao lado das pistas de pouso e decolagem, dcadas depois de os soviticos terem deixado o Afeganisto. Entrei na fila para mostrar o passaporte e tudo correu de maneira rpida e sem incidentes. At ali, estava indo tudo bem, eu pensei. Mas ento, depois da passagem pela alfndega, as pessoas ao meu redor comearam logo a se dispersar para todos os lados, demonstrando um senso de propsito que eu absolutamente no tinha. Senti uma forte pontada de ansiedade atravessar meu estmago ao constatar que eu no tinha ideia do que fazer nem para onde ir. Os jornalistas que viajam para lugares distantes e arriscados normalmente contam com a colaborao de ajudantes - homens ou mulheres locais que providenciam seus deslocamentos, entrevistas e hospedagem. O meu era um jovem chamado Mohamad, que no dava as caras. Revirei minha carteira  procura do nmero de seu telefone, me sentindo desamparada e assustada, mas tentando manter a aparncia de algum com firmeza de propsito. Onde  que ele poderia estar, eu me perguntava. Ser que ele havia esquecido da americana, ex-produtora da ABC News, a quem ele havia prometido, por e-mail, buscar no aeroporto?

Finalmente encontrei o nmero de seu celular anotado num pedao de papel amassado no fundo de minha bolsa. Mas no estava conseguindo ligar para ele; eu havia feito a minha parte, carregando devidamente o meu telefone celular do Reino Unido, mas meu carto SIM [chip] de Londres no estava funcionando ali em Cabul. Tanta trabalheira para nada.

Passaram-se dez minutos, depois vinte e nada de Mohamad aparecer. Eu me imaginei ainda parada ali no aeroporto de Cabul cinco dias depois. Vendo as famlias afegs atravessar correndo as portas de vidro, eu me senti ainda mais sozinha do que havia me sentido no Terminal II do aeroporto de Dubai s trs horas da madrugada. Apenas os sisudos soldados britnicos andando em volta de imponentes tanques da OTAN em frente ao aeroporto me proporcionavam um pouco de alvio. Se o pior acontecesse, pensei, eu poderia procurar os britnicos e pedir ajuda a eles. Nunca antes, a presena de um tanque militar num aeroporto me havia sido to tranquilizadora.

Finalmente, eu vi um sujeito barbudo de vinte e poucos anos vendendo cartes telefnicos, balas e sucos numa pequena banca num canto da porta de entrada do aeroporto. Com uma nota de cinco dlares na mo e um grande sorriso na cara eu lhe perguntei em ingls se podia usar seu celular. Sorrindo, ele estendeu-o para mim.

Mohamad, eu disse berrando para ter a certeza de que ele estava me ouvindo. Al, al, aqui  Gayle, a jornalista americana. Estou aqui no aeroporto. Onde voc est?

Ol, Gayle, ele disse, calmamente. Estou aqui no estacionamento; h duas horas que estou aqui. Ns no temos permisso para chegar mais perto, por questes de segurana. Simplesmente siga as pessoas; estou esperando por voc.

 claro, restries por questo de segurana. Como  que eu no havia pensado nisso?

Tive de empurrar meu prprio carrinho prateado sobrecarregado de malas por uma distncia de dois campos de futebol at o estacionamento a quilmetros dos tanques da OTAN e seus soldados britnicos. L, como ele havia dito, estava Mohamad, sorrindo calorosamente.

Bem-vinda a Cabul, ele me saudou, pegando meu saco verde Eddie Bauer cheio de lanternas, roupas de neoprene e cobertores de l que eu havia comprado especialmente para aquela viagem. Eu fiquei me perguntando quantos estrangeiros ingnuos Mohamad j havia recebido daquela mesma maneira acolhedora. Ele, que tambm era jornalista, havia trabalhado por muitos anos com jornalistas estrangeiros. Uma amiga da CBS News de Londres havia insistido para que eu contratasse seus servios, porque sabia que ele era um profissional experiente e confivel - exatamente o que eu necessitava em Cabul, no inverno de 2005, poca em que os ocasionais ataques com foguetes e bombas haviam assumido o carter de plena insurgncia. Naquele momento, eu me senti grata por ela ter insistido.

Nas ruas da capital afeg, a liberdade que imperava para todos resultava numa cacofonia de amputados andando de muletas, carros colados com fita adesiva, burros de carga, bicicletas movidas a combustvel e veculos utilitrios das Naes Unidas - todos competindo pelo direito preferencial de passagem, sem faris para gui-los, com apenas alguns policiais para controlar o trnsito. A sujeira pegajosa do ar escuro de Cabul se agarrava a tudo - pulmes, suteres, lenos de cabea e janelas. Era uma recordao perniciosa de dcadas de guerra nas quais tudo, desde rvores at o sistema de esgoto, havia sido destrudo.

Eu jamais havia visto uma cidade que funcionava como uma Terra sem Lei. Os motoristas avanavam a dianteira de seus veculos at chegar a duas polegadas de nosso Corolla Toyota azul, para ento, subitamente, disparar de volta para sua prpria pista. Msica afeg era tocada em alto volume nos veculos Toyota, Honda e Mercedes presos como ns no trnsito congestionado. Reinava na cidade um barulho ensurdecedor de buzinas. Velhos de cabelos brancos com cobertores de l jogados sobre os ombros avanavam para frente dos carros, fazendo parar o trnsito e no estando nem a para os veculos em movimento. Evidentemente que eles - como todo mundo - estavam acostumados a tal selvageria do caos incontrolvel que reinava em Cabul.

Mas eu no estava. Eu era uma marinheira de primeira viagem.

Eu estava em frias de inverno de meu segundo ano de MBA na Harvard Business School. O jornalismo sempre havia sido meu primeiro amor, mas um ano atrs eu havia largado meu emprego como responsvel pela cobertura das campanhas presidenciais para a editoria poltica da ABC News, onde havia passado grande parte de minha vida adulta. Com trinta anos, eu dei o salto e decidi seguir minha paixo por desenvolvimento internacional, certa de que se eu no fosse naquele momento no seria nunca mais. De maneira que eu havia trocado o ninho acolhedor de meu mundo de Washington, D.C. por uma carreira universitria. A primeira coisa que eu fiz foi comear a procurar um tema rico em histrias que ningum mais estava cobrindo. Histrias que tinham importncia para o mundo.

O assunto que me atraiu foi o que dizia respeito s mulheres que trabalhavam em zonas de guerra: uma forma de empreendedorismo particularmente intrpida e inspiradora que ocorre regularmente bem no centro dos conflitos mais perigosos do mundo - e seus resultados.

Eu comecei minha pesquisa em Ruanda. Eu fui para l com o propsito de ver com meus prprios olhos como as mulheres desempenharam um papel na reconstruo de seu pas, criando oportunidades de negcios para elas mesmas e para outros. As mulheres representavam trs quartos da populao de Ruanda, imediatamente aps o genocdio de 1994; uma dcada depois, elas continuavam sendo maioria. As autoridades internacionais - todas masculinas -, de sua capital Kigali, me disseram que no havia nenhuma histria para contar: que as mulheres de Ruanda no eram donas de pequenos negcios, que elas trabalhavam apenas no setor muito menos lucrativo da informalidade, vendendo frutas e peas de artesanato em pequenas barracas montadas nas caladas. Minha pesquisa me mostrou que eles estavam errados: eu encontrei mulheres que eram donas de postos de gasolina e que dirigiam hotis. E as vendedoras de frutas que eu entrevistei estavam exportando abacates e bananas para a Europa, duas vezes por semana. Logo depois, escrevi para o Financial Times perfis de algumas das mais bem-sucedidas empreendedoras que eu havia encontrado - inclusive uma empresria que vendia cestos para a Macys, a mais famosa rede de lojas de departamentos de Nova York.

Agora, apenas alguns meses mais tarde, eu estava em Cabul, novamente a servio do Financial Times, para fazer uma reportagem sobre um fenmeno surpreendente: uma nova gerao de empresrias afegs que havia surgido na esteira da tomada do poder pelo Talib. Eu havia tambm me prontificado a encontrar uma protagonista para um estudo de caso que faria parte de um curso oferecido pela Harvard Business School no ano seguinte. Meus antigos colegas de rede de notcias haviam tentado ajudar a me preparar para a estadia em Cabul e abriram o caminho fornecendo seus contatos, mas, assim que cheguei l, percebi quo pouco eu sabia de fato sobre aquele pas.

Tudo que eu tinha era o desejo apaixonado de encontrar uma histria.

A maioria das histrias de guerra e suas consequncias eram inevitavelmente focadas nos homens: nos soldados, nos veteranos que regressavam e nos estadistas. Eu queria saber o que era a guerra para aquelas que eram deixadas para trs: as mulheres que se viravam para continuar vivendo mesmo quando seu mundo se partia em dois. A guerra obriga as mulheres a reorganizarem suas vidas e muitas vezes as coloca  fora, inesperadamente e despreparadas, no papel de provedoras da famlia. Tendo que responder pela sobrevivncia da famlia, elas inventam formas de sustentar seus filhos e ajudar suas comunidades. Mas suas histrias raramente so contadas. Estamos muito mais acostumados - e nos sentimos muito mais  vontade - a ver as mulheres sendo retratadas como vtimas de guerra que merecem nossa compaixo, do que guerreiras sobreviventes que nos impem respeito. Eu estava decidida a mudar esse quadro.

Cheguei, portanto, a Cabul em busca de tal histria. A situao das mulheres afegs havia atrado a ateno de todo o mundo depois da retirada do poder do Talib pelas foras americanas e afegs que se seguiu aos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Eu estava curiosa por saber que espcie de empresas as mulheres estavam criando num pas em que poucos anos atrs elas havia sido proibidas de estudar e trabalhar. Eu trazia comigo, de Boston, quatro pginas grampeadas escritas em espao simples contendo nomes e endereos de e-mail de possveis fontes, resultado de semanas de conversa com reprteres de televiso e jornais, contatos de Harvard e voluntrios que estavam trabalhando na regio.

Discuti com Mohamad as ideias que eu tinha sobre provveis pessoas que poderiam ser entrevistadas. Enquanto tomvamos xcaras de ch no salo vazio de um hotel frequentado por jornalistas, eu perguntei se ele conhecia alguma mulher que estava dirigindo seu prprio negcio. Ele riu. Voc sabe que no Afeganisto os homens no se metem no trabalho das mulheres. Mas depois de pensar por um momento, olhando para mim, ele admitiu que sim, que havia ouvido falar de algumas mulheres de Cabul que haviam criado suas prprias empresas. Eu desejei que ele estivesse certo.

Eu passava os dias ocupada em procurar contatar as possveis pessoas a serem entrevistadas da lista que tinha comigo, mas sem resultados. Muitas das mulheres cujos nomes me haviam sido fornecidos estavam dirigindo organizaes no governamentais (ONGs), que no tinham nada a ver com negcios. Na verdade, fui informada que, quando a comunidade internacional aterrissou em massa no Afeganisto em 2002, era mais fcil fundar uma ONG do que uma empresa. Os incentivos haviam sido criados anteriormente. Funcionrias americanas em Washington e Cabul podiam estar favorecendo mulheres de negcios afegs, promovendo eventos pblicos e gastando com eles milhes de dlares do governo, mas ali estava eu lutando por encontrar uma nica empresria com um plano vivel de negcios. Com certeza, ela existia, mas eu estava procurando no lugar certo?

Meu prazo estava se esgotando e eu estava comeando a temer que teria de voltar para casa de mos vazias, decepcionando tanto o Financial Times quanto o meu professor de Harvard. Foi ento que, finalmente, uma mulher que trabalhava com a organizao sem fins lucrativos de Nova York, a Bpeace, me falou de Kamila Sidiqi, uma jovem costureira que havia se tornado uma empresria do ramo de confeco de roupas. Ela no apenas dirigia seu prprio negcio, eu fui informada, mas tambm havia conseguido, ainda na adolescncia, iniciar seu improvvel negcio durante a era Talib.

Finalmente, eu estava sentindo a excitao que anima a vida de todo reprter, o surto empolgante de adrenalina causado por uma notcia que d sentido  sua vida profissional. A ideia de uma mulher vestida de burca iniciando um negcio bem diante do nariz do Talib era algo, com certeza, admirvel. Como a maioria dos estrangeiros, eu havia imaginado que as mulheres afegs tivessem sido durante todo o domnio do Talib prisioneiras silenciosas - e passivas -  espera que sua prolongada priso domiciliar chegasse ao fim. Eu estava fascinada, e curiosa, por saber mais sobre elas.

Quanto mais eu escavava ao meu redor, mais eu percebia que Kamila era apenas uma entre muitas jovens mulheres que haviam trabalhado durante todos os anos do regime Talib. Movidas pela necessidade de ganhar dinheiro para sustentar suas famlias e pessoas queridas quando a economia de Cabul foi esmagada pelo peso da guerra e da m administrao, elas transformaram pequenas brechas em grandes oportunidades e inventaram maneiras de burlar as regras. Como as mulheres de todo o mundo sempre haviam feito, elas abriram um caminho para seguirem em frente em prol de suas famlias. Elas aprenderam a manipular o sistema e at mesmo a prosperar dentro dele,

Algumas se tornaram funcionrias de ONGs estrangeiras, em geral na rea de sade da mulher, cujas organizaes tiveram permisso do Talib para continuar atuando. As mdicas puderam continuar trabalhando. E tambm as mulheres que ensinavam a outras noes bsicas de higiene e prticas sanitrias. Algumas ensinavam em escolas clandestinas, davam cursos para meninas e mulheres que cobriam tudo, desde operar o Microsoft Windows at matemtica e dari [lngua iraniana falada no Afeganisto], bem como o Livro Sagrado do Alcoro. Esses cursos eram realizados por toda a cidade de Cabul em casas particulares ou, ainda melhor, nos hospitais de mulheres, a nica zona segura permitida pelo Talib. Mas as mulheres jamais podiam abandonar totalmente a guarda; as classes eram dissolvidas no mesmo instante em que algum vinha correndo avisar que o Talib estava se aproximando. Outras ainda, como Kamila, criavam empresas em suas prprias casas e arriscavam sua segurana em busca de compradores para as mercadorias que produziam. Com vocaes diferentes, todas essas mulheres tinham uma coisa em comum: seu trabalho significava para suas famlias a diferena entre sobreviver e morrer de fome. E elas fizeram isso por iniciativa prpria.

Ningum havia contado detalhadamente as histrias dessas heronas. Havia dirios comoventes que relatavam a brutalidade e o desespero das vidas das mulheres sob o domnio do Talib, alm de livros inspiradores sobre mulheres que criaram novas oportunidades depois do recuo forado dos talibs. Mas essa histria era diferente: ela era sobre mulheres afegs que se apoiavam mutuamente quando o mundo ao redor as havia esquecido. Elas se apoiavam e apoiavam suas comunidades sem nenhuma ajuda exterior ao seu pobre pas alquebrado e, nesse processo, refizeram seu prprio futuro.

Kamila  uma dessas jovens mulheres e, a julgar pelo impacto duradouro que seu trabalho teve sobre o Afeganisto dos dias de hoje,  justo dizer que ela  uma das mais visionrias. Sua histria nos diz muito sobre o pas para o qual ns continuamos enviando tropas quase uma dcada depois de os soldados de infantaria do Talib terem deixado de patrulhar as ruas do lado de fora da porta de sua casa; e nos oferece um rumo, enquanto observamos para ver se a dcada passada de progresso modesto se revelar um novo comeo para as mulheres afegs ou uma aberrao que desaparecer quando os estrangeiros forem embora.

Decidir escrever sobre Kamila foi fcil. Mas escrever sobre ela na realidade no foi nada fcil. A segurana foi para o espao durante os anos em que passei entrevistando os familiares, amigas e colegas de Kamila. Homens-bomba e ataques areos aterrorizavam a cidade com cada vez mais frequncia - e potncia. s vezes, eles chegavam a ter um nvel tal de sofisticao e coordenao que obrigava os cidados de Cabul a permanecerem em suas casas ou locais de trabalho por horas a fio. At mesmo Mohamad, que costumava ser um sujeito estoico, chegava a se mostrar nervoso e trazia-me um leno preto de estilo iraniano de sua mulher para que eu ficasse parecendo mais com as mulheres locais. Depois de cada incidente, eu ligava para meu marido para lhe assegurar que estava tudo bem e implorar que ele no desse muita importncia a todas as ms notcias dos alertas que ele recebia do Google, sobre o Afeganisto. Enquanto isso, por toda a Cabul os muros de cimento ganhavam mais altura e as cercas de arame farpado em volta deles ganhavam mais espessura. Como todo mundo em Cabul, eu aprendi a conviver com guardas fortemente armados e sucessivas revistas como medida de segurana, toda vez que entrava num prdio. Ladres e insurgentes comearam a sequestrar jornalistas e voluntrios estrangeiros de suas casas e carros, s vezes para extorquir dinheiro e outras por motivos polticos. Meus amigos jornalistas e eu passvamos horas trocando informaes que havamos ouvido sobre ataques e possveis ataques, passando torpedos, uns para os outros, quando os alarmes de segurana nos advertiam sobre quais reas da cidade ns deveramos evitar naquele dia. Numa tarde, depois de um dia intenso de entrevistas, recebi um telefonema preocupado de uma pessoa da Embaixada dos Estados Unidos, querendo saber se era eu a escritora americana que havia sido raptada no dia anterior. Assegurei-lhe que no era eu.

Essa piora da situao, a cada dia, dificultava o meu trabalho. As garotas afegs que haviam trabalhado com Kamila durante o regime Talib tinham cada vez mais medo de me encontrar, j que suas famlias ou chefes queriam evitar a ateno que uma visita de estrangeiro costumava atrair. Outras, por medo de serem espionadas por seus colegas, recusavam-se totalmente a falar comigo. Voc no sabe que o Talib est voltando ao poder? - uma jovem me perguntou, num sussurro nervoso. Ela trabalhava na poca para as Naes Unidas, mas havia acabado de me informar que trabalhara para uma ONG durante o regime Talib. Eles so informados de tudo que acontece, ela disse, e se meu marido souber que andei falando com voc, ele me abandonar.

Eu no sabia o que dizer em tais situaes, mas fazia tudo que podia para proteger tanto as minhas entrevistadas como a mim mesma: eu passei a me vestir de maneira ainda mais conservadora do que as mulheres afegs a minha volta; andava com a cabea coberta com os lenos que havia comprado numa loja de roupas islmicas de Anaheim, na Califrnia; e me esforava para falar dari, a lngua local. Quando chegava s lojas ou escritrios para fazer entrevistas, eu permanecia em silncio pelo mximo de tempo possvel e deixava que Mohamad falasse por mim com os guardas de segurana e recepcionistas. Eu sabia que quanto mais eu fosse confundida com uma mulher local, mais protegidos estaramos.

Uma de minhas sadas para fazer entrevista coincidiu com um audacioso ataque matutino a uma hospedaria da ONU que matou cinco de seus funcionrios. Por muitas noites aps aquele ataque, eu saltava da cama e me apressava a calar os chinelos toda vez que ouvia as pisadas do gato do vizinho sobre a cobertura de plstico que protegia nosso telhado - achando que os passos eram de algum tentando arrombar a casa. Um amigo sugeriu, meio que de brincadeira, que eu tivesse uma arma automtica AK-47 no quarto para defender nossa casa contra possveis agresses. Eu concordei, imediatamente, mas minhas companheiras de quarto temeram que, dada a minha pouca experincia com armas de fogo, tal medida criaria mais perigo do que preveno.

Kamila e suas irms tambm se preocupavam com minha segurana.

Voc no tem medo? O que dizem seus familiares? - Malika, a irm mais velha de Kamila, me perguntou certa vez. A situao atual  extremamente perigosa para os estrangeiros - concluiu.

Eu tratei de lembrar a todas que elas haviam passado por coisas muito piores e nunca haviam parado de trabalhar. Por que eu deveria parar? Elas tentavam protestar, mas sabiam que eu estava certa: apesar dos riscos, elas haviam persistido durante os anos de domnio Talib, no apenas porque tinham de faz-lo, mas tambm porque acreditavam no que faziam. E o mesmo se dava comigo.

Pelo fato de continuar em Cabul - e continuar voltando para l ano aps ano - eu conquistei o respeito delas e isso fortaleceu a nossa amizade. E quanto mais eu sabia sobre a famlia de Kamila - seu compromisso com a prestao de solidariedade e com a educao, seu desejo de fazer a diferena em prol de seu pas - maior era o meu apreo por ela. Eu me esforava para ser digna de seu exemplo.

Com o tempo, a famlia de Kamila se tornou parte da minha. Uma de suas irms me ajudava a aprender a lngua dari, enquanto outra se esmerava em preparar deliciosos pratos tradicionais do Afeganisto feitos de arroz, couve-flor e batata para sua hspede vegetariana vinda dos Estados Unidos. Quando eu tinha que sair  noite, elas sempre tratavam de verificar se meu carro estava do lado de fora antes de me deixar calar os sapatos. Passvamos tardes sentadas na sala de estar com os ps calados apenas com meias tomando ch e devorando petiscos feitos de frutas secas do norte. Quando no estvamos trabalhando contvamos piadas sobre maridos, poltica e sobre a situao - eufemismo usado por todos em Cabul para se referir  segurana. Ns cantvamos e danvamos com as lindas menininhas que eram sobrinhas de Kamila. E nos preocupvamos umas com as outras.

O que eu encontrei em Cabul foi uma amizade entre mulheres, como eu jamais havia visto antes, marcada por sentimentos de empatia, risadas, coragem e curiosidade diante do mundo e, acima de tudo, uma paixo pelo trabalho. Eu percebi isso na primeira vez que encontrei Kamila: ali estava uma jovem mulher que acreditava do fundo de seu corao que, ao criar seu prprio negcio e ajudar outras mulheres a fazerem o mesmo, ela poderia ajudar seu pas a superar a situao difcil em que vinha se arrastando por tanto tempo. A jornalista em mim precisava saber: de onde vinha a fora daquela paixo ou daquele chamado? E o que a histria de Kamila tinha a nos dizer sobre o futuro do Afeganisto e o envolvimento dos Estados Unidos nele?

Esta  a histria que eu procurei contar. E estas so as perguntas que eu procurei responder.



A chegada da notcia
 que mudou tudo

Kamila Jan, eu tenho a honra de lhe entregar seu diploma.

O homenzinho de cabelos brancos e rugas profundamente marcadas disse com orgulho ao entregar  jovem mulher aquele documento de carter oficial. Kamila pegou o documento e leu:


Este documento  um certificado de que Kamila Sidiqi concluiu com xito seus estudos no Instituto de Formao de Professores Sayed Jamaluddin.


Cabul, Afeganisto

Setembro de 1996




Muito obrigada, Agha, Kamila disse. Um sorriso de orelha a orelha irradiou em sua face. Ela era a segunda mulher de sua famlia a concluir o curso de dois anos no Instituto Sayed Jamaluddin; sua irm mais velha, Malika, havia se formado alguns anos antes e j estava trabalhando como professora de uma escola secundria de Cabul. Malika, no entanto, no havia tido que enfrentar os constantes bombardeios e fogos disparados por foguetes da guerra civil quando ia e voltava da escola.

Kamila apertou em suas mos o documento precioso. O leno pendia de forma casual de sua cabea e ocasionalmente desviava-se para trs, revelando alguns fios de seu cabelo castanho ondulado, que resvalavam nos ombros. Calas pretas de pernas largas e sapatos escuros de bico fino e salto baixo transpareciam por baixo da barra de seu casaco comprido at os ps. As mulheres de Cabul eram conhecidas por estender os limites rgidos da tradio de seu pas e Kamila no era exceo. At a derrubada do poder do governo do Dr. Najibullah, que era apoiado por Moscou, em 1992, pelos Mujahideen (santos guerreiros) que opunham resistncia  presena sovitica, muitas mulheres de Cabul andavam pelas ruas vestidas  maneira ocidental e com as cabeas descobertas. Mas naquele momento, apenas quatro anos depois, os Mujahideen definiam o espao pblico e a vestimenta das mulheres com muito mais rigor, ordenando que trabalhassem em espaos separados dos homens, que andassem com a cabea encoberta e usassem roupas largas e recatadas. As mulheres de Cabul, jovens e velhas, se vestiam de acordo com tais regras, embora muitas - como Kamila - acrescentassem um pouco de vida a elas, usando um belo par de sapatos sob aqueles casacos pretos disformes.

Estava muito longe de ser como nas dcadas de 1950 e 1960, quando as mulheres elegantes de Cabul deslizavam pela capital do pas em trajes de estilo europeu combinando com finos lenos de cabea. Durante a dcada de 1970, as estudantes da Universidade de Cabul chocavam seus compatriotas mais conservadores das reas rurais, usando minissaias que mostravam os joelhos e sandlias sofisticadas. Aqueles anos de mudanas foram marcados por protestos e tumultos polticos no campus da Universidade. Mas tudo isso aconteceu bem antes da juventude de Kamila: ela havia nascido apenas dois anos antes da invaso do Afeganisto pelos soviticos em 1979, ocupao essa que deu origem a uma guerra de resistncia afeg que durou uma dcada e, sob o comando dos Mujahideen, acabaram dessangrando os russos. Quase duas dcadas depois de o primeiro tanque sovitico ter entrado no Afeganisto, Kamila e seus amigos ainda no sabiam o que era viver em paz. Aps os soviticos derrotados terem retirado sua ltima ajuda ao pas, em 1992, os comandantes Mujahideen vitoriosos comearam a lutar entre si pelo controle de Cabul. A brutalidade da guerra civil chocou os habitantes daquela cidade. De um dia para o outro, as ruas dos bairros foram transformadas pelas faces adversrias em linhas de frente, atirando uma na outra  queima-roupa.

Apesar da guerra, a famlia de Kamila, como dezenas de milhares de outras famlias de Cabul, continuou indo  escola e ao trabalho sempre que possvel, enquanto a maioria das famlias de seus amigos fugiu em busca de segurana nos vizinhos Paquisto e Ir. Com seu recente diploma de professora, Kamila logo iniciaria seus estudos no Instituto Pedaggico de Cabul, uma universidade aberta a ambos os gneros, fundada no incio da dcada de 1980 durante os anos de ocupao sovitica, que promoveram uma ampla reforma educacional com a expanso das instituies estatais. Dentro de dois anos, ela receberia seu bacharelado e poderia iniciar sua carreira de professora em Cabul. Ela pretendia se tornar professora de dari e, quem sabe, algum dia ensinar literatura.

Mas apesar dos anos de trabalho rduo e de seus planos otimistas para o futuro, no haveria nenhum comeo alegre para celebrar a grande conquista de Kamila. A guerra civil havia destrudo a imponente arquitetura da capital e os bairros de classe mdia, transformando as ruas da cidade num monte de runas, encanamentos e prdios destrudos. Foguetes lanados por comandos blicos atravessavam regularmente o horizonte de Cabul, caindo sobre as ruas da capital e matando indiscriminadamente seus habitantes. Eventos corriqueiros como uma formatura haviam se tornado arriscados demais at mesmo para serem levados em considerao e muito menos para se comparecer.

Kamila guardou seu diploma impresso com esmero numa robusta pasta marrom e deixou o escritrio administrativo, deixando para trs uma srie de jovens  espera de receber seus diplomas. Ao percorrer um estreito corredor com janelas at o teto que ia dar na entrada principal do Instituto Sayed Jamaluddin, ela passou por duas mulheres que teciam uma conversa em meio a uma grande aglomerao.

Ouvi dizer que eles esto chegando hoje, uma mulher disse para a outra.

Meu primo me disse que eles esto na entrada de Cabul, a outra respondeu sussurrando.

Kamila soube imediatamente quem eram eles: eram os talibs, cuja chegada era considerada, naquele momento, como inevitvel. As notcias percorriam a capital numa velocidade estrondosa por meio de uma rede abrangente de famlias que inclua toda a parentela e que ligava todas as provncias do Afeganisto. As notcias sobre o iminente regime eram devastadoras e diziam que as mulheres estariam enrascadas. As regies rurais mais afastadas e mais difceis de serem controladas podiam, s vezes, estabelecer excees para suas mulheres jovens, mas o Talib andava a passos largos no sentido de consolidar seu poder nas reas urbanas. At ali, eles haviam vencido todas as batalhas.

Kamila ficou parada, em silncio, no corredor da escola em que ela havia lutado tanto para estudar, apesar de todos os riscos e ficou ouvindo o que suas colegas estavam conversando com uma crescente sensao de inquietude. Ela aproximou-se para ouvir melhor a conversa das garotas.

Voc sabe que eles fecharam as escolas para mulheres de Herat, disse a morena de nariz agudo. Sua voz soava carregada de preocupao. O Talib havia tomado aquela cidade do oeste um ano antes. Minha irm ouviu dizer que as mulheres no podem nem mesmo sair de casa quando eles tomam o poder. E ns aqui que pensvamos j ter passado pelo pior.

Convenhamos, disse a outra, segurando a mo da amiga, pode no ser to ruim assim. Talvez eles at tragam consigo um pouco de paz, se Deus quiser.

Apertando sua pasta entre as mos, Kamila desceu correndo as escadas para tomar o nibus que a levaria por uma longa viagem at a casa de sua famlia no distrito de Khair Khana, ao norte de Cabul. Apenas alguns meses antes, ela havia percorrido a p os onze quilmetros depois de um foguete ter cado na estrada de Karteh Char, o bairro em que ficava sua escola, danificando o telhado de um hospital das foras de segurana do governo e interrompendo o servio de transporte pelo resto daquele dia.

Todo mundo em Cabul j havia se acostumado a buscar abrigo nas ombreiras das portas ou nos pores das casas assim que ouviam o j familiar zumbido dos foguetes se aproximando. Um ano antes, o instituto de formao de professores havia transferido as aulas de Karteh Char, por ser um bairro castigado regularmente pelos ataques areos e pelo fogo de morteiros, para o local no centro que um dia fora uma escola francesa e que o diretor acreditava ser mais seguro. Pouco tempo depois, outro foguete, cujo alvo era o Ministrio do Interior, que ficava nas proximidades, foi parar diretamente em frente  nova sede da escola.

Todas essas lembranas se atropelavam, rapidamente, na mente de Kamila quando ela embarcou no nibus Millie azul-claro enferrujado, que um dia fizera parte do servio de transporte pblico, e tomou seu assento. Ela se debruou sobre a janela com grandes manchas de barro e ficou ouvindo o que diziam as mulheres  sua volta enquanto o nibus chacoalhava pelas ruas esburacadas de Karteh Char. Cada uma tinha sua prpria verso de como seria o novo regime para os habitantes de Cabul.

Talvez eles tragam segurana, disse uma garota sentada algumas fileiras atrs de Kamila.

Eu no acho isso, respondeu sua amiga. Eu ouvi pelo rdio que, uma vez no poder, eles no permitem a existncia de escolas. Tampouco de trabalho. Ns no podemos nem sair de casa sem a permisso deles. Talvez, eles s fiquem aqui por alguns meses...

Kamila olhava pela janela e tentava ignorar as conversas ao seu redor. Ela sabia que provavelmente aquela garota estava certa, mas no queria nem pensar no que seria dela e de suas irms menores que ainda viviam em casa. Ela ficou olhando para os donos de lojas naquelas ruas empoeiradas da cidade, envolvidos em seus afazeres dirios de fechar suas mercearias, estdios fotogrficos e padarias. Nos ltimos quatro anos, as entradas das lojas de Cabul haviam se tornado um barmetro da violncia do dia: quando suas portas estavam totalmente abertas era porque a vida estava seguindo em frente, mesmo que fosse ocasionalmente marcada pelo zumbido de um foguete disparado ao longe. Mas quando elas estavam fechadas em plena luz do dia, os moradores dali sabiam que o perigo estava por perto e que tambm eles fariam melhor se ficassem em casa.

O velho nibus seguia em frente sacolejando entre um e outro ronco da descarga de seu escapamento e finalmente chegou ao ponto em que Kamila desceu. Khair Khana, um bairro de periferia ao norte de Cabul, era onde morava uma grande comunidade de tajiques, o segundo maior grupo tnico do Afeganisto. Como a maioria das famlias tajiques, os pais de Kamila vinham do norte do pas. O sul era, tradicionalmente, terreno dos pashtuns. O pai de Kamila havia transferido sua famlia para Khair Khana durante sua ltima viagem em servio militar como oficial do exrcito afego, ao qual havia servido por mais de trs dcadas. Cabul, ele pensava na poca, ofereceria s suas nove filhas melhores chances de uma boa educao. E educao, ele acreditava, era de suma importncia para suas filhas, sua famlia e o futuro de seu pas.

Kamila desceu correndo sua rua empoeirada, segurando o leno por cima da boca para no inalar a grossa fuligem da cidade. Ela passou pelas caladas estreitas diante da mercearia onde caixotes de madeira com verduras, cenouras e batatas eram vendidas. Trocou olhares com noivos e noivas sorridentes, carregados de flores, em uma srie de fotografias de casamento penduradas na parede de um estdio fotogrfico. Da padaria vinha o cheiro delicioso do po naan saindo do forno, seguido do aougue onde apareciam pendurados nos ganchos de ao grandes pedaos de carne vermelha. Enquanto andava, Kamila ouviu dois comerciantes trocando suas experincias do dia. Como todos os habitantes de Cabul que haviam permanecido na cidade, aqueles dois homens estavam acostumados a assistir a ascenses e quedas de novos regimes e eram capazes de perceber rapidamente o colapso iminente. O primeiro, um homem baixinho careca e enrugado, estava dizendo que seu primo havia lhe dito que as tropas de Massoud estavam carregando seus caminhes e fugindo da capital. O outro balanava a cabea em sinal de descrena.

Vamos ver o que vai acontecer, ele disse. Quem sabe as coisas no acabem melhorando. Inshallah [se Deus quiser]. Mas eu duvido.

O comandante Ahmad Shah Massoud era o ministro da defesa do pas e um heri militar tajique do Vale de Panjshir, perto de Parwan, de onde vinha a famlia de Kamila. Durante os anos de resistncia contra os russos, as foras do Dr. Najibullah haviam aprisionado o pai de Kamila por suspeita de apoiar Massoud, que era conhecido como o Leo do Vale de Panjshir e era um dos mais famosos combatentes Mujahideen. Aps a retirada dos russos em 1992, o Sr. Sidiqi foi libertado pelas foras leais a Massoud, que trabalhavam ento para o novo governo do presidente Burhanuddin Rabbani. O Sr. Sidiqi passou a colaborar por um tempo com os soldados de Massoud, mas acabou decidindo se aposentar e viver em Parwan, lugar onde havia passado sua infncia e amava acima de qualquer outro no mundo.

Durante todo o vero do ano anterior a 1996, Massoud havia jurado acabar com a ofensiva dos talibs, mesmo com a continuidade do bombardeio incessante da capital e com a tomada pelas foras talibs de uma cidade aps outra. Se as tropas do governo estavam realmente desistindo de lutar e se retirando de Cabul, Kamila pensou, os talibs no podiam estar longe. Ela apressou o passo com os olhos fixos no cho. No havia porque se preocupar. Ao se aproximar do porto verde de metal de sua casa, na esquina da movimentada rua principal de Khair Khana, ela soltou um suspiro de alvio. Ela nunca havia sido to agradecida por morar to perto da parada de nibus.

O grande porto verde se fechou com uma batida atrs de Kamila e sua me, Ruhasva, correu at o ptio para abraar sua filha. Ela era uma mulher muito pequena, com tufos de cabelos brancos que emolduravam seu rosto redondo, e de expresso respeitosa. Ela deu um beijo em ambas as faces de Kamila e abraou-a com fora. A Sra. Sidiqi havia ouvido as notcias da chegada dos talibs durante toda a manh e havia ficando andando por duas horas, de um lado para outro de sua sala, preocupada com a segurana de sua filha.

Finalmente em casa, junto de sua famlia e com a noite caindo, Kamila se acomodou sobre uma almofada de veludo na sala de sua casa. Ela pegou um de seus livros preferidos - uma coletnea de poemas cujas pginas estavam gastas pelo uso -, e acendeu um lampio de vidro com um palito de fsforo que tirou de uma das caixas pequenas, em vermelho e branco, que a famlia mantinha espalhadas pela casa justamente para tais ocasies. A eletricidade era um luxo; ela chegava de maneira imprevisvel e funcionava apenas por uma ou duas horas por dia, isso quando funcionava, e todos haviam se acostumado a viver no escuro. Tinham uma longa noite pela frente e esperavam ansiosamente para ver o que aconteceria a seguir. O Sr. Sidiqi no falou muito ao se juntar  filha no cho, ao lado do rdio, para ouvir as notcias da BBC de Londres.

A apenas seis quilmetros dali, Malika, a irm mais velha de Kamila, estava finalmente terminando um dia ainda muito mais atribulado.




Mame, eu no estou me sentindo bem, disse Hossein.

O menino de quatro anos de idade era o segundo filho de Malika e o preferido de sua tia Kamila. Ela brincava com ele no quintal de terra ressecada da famlia, em Khair Khana, e juntos contavam as cabras e ovelhas que s vezes passavam por ali. Naquele dia, dores de barriga e diarreia afligiam seu pequeno corpo e foram piorando com o passar da tarde. Ele estava deitado sobre a pilha de almofadas que Malika havia arranjado no centro do grande tapete vermelho da sala. Hossein respirava com dificuldade ao entrar e sair de um sono agitado.

Malika observava Hossein e se perguntava se estava em condies de tomar conta dele. Estava grvida de vrios meses, pela terceira vez, e havia passado o dia dentro de casa seguindo a advertncia que uma vizinha lhe fizera cedo pela manh para que no fosse trabalhar, porque os talibs estavam chegando. Distraidamente, ela costurou as partes de um terno de rayon que estava fazendo para um vizinho enquanto assistia com crescente preocupao a piora do estado de sade de Hossein. Havia agora gotas de suor cobrindo sua testa e seus braos e pernas estavam frios e midos. Ela precisava chamar um mdico.

De seu guarda-roupa, Malika pegou o maior xale ou leno de cabea que possua. Ela procurou cobrir no apenas sua cabea, mas tambm a parte inferior de seu rosto. Como a maioria das mulheres cultas de Cabul, ela costumava usar o xale de maneira casual sobre a cabea e os ombros. Mas naquele dia teria que us-lo de maneira diferente; se os talibs estavam realmente a caminho de Cabul, eles exigiriam que as mulheres andassem com uma burca que, em dari, se chamava chadri e que encobria no apenas a cabea, mas todo o rosto. Essa j era a lei imposta por eles em Herat e Jalalabad, que haviam cado em seu poder apenas algumas semanas antes. Como ela no tinha nenhuma burca, o vu enorme era a pea mais prxima das exigncias dos talibs que Malika conseguiu encontrar. Ele teria que servir.

Quando sua cunhada, que morava no apartamento acima do seu, chegou para cuidar de seu filho mais velho, Malika pegou Hossein no colo e aninhou-o por baixo de seu largo casaco preto. Com ele apertado contra sua barriga de grvida, ela saiu apressada pela porta para encarar a caminhada de dez minutos at o consultrio mdico.

O silncio que reinava na rua deixou Malika assustada. Naquela hora de incio de tarde, em seu bairro, costumava haver uma confuso de txis, bicicletas, burros e caminhes, mas naquele dia as ruas estavam vazias. Os boatos sobre a aproximao dos talibs tinham levado a vizinhana a se esconder em suas casas, atrs de portes trancados e cortinas fechadas. Aquele era agora um jogo de espera e ningum sabia o que aconteceria nos prximos dias.

Malika estremeceu ao som produzido por seus prprios saltos na calada. Mantinha os olhos fixos no cho ao passo que se esforava para manter firmes as dobras de seu xale; mas o tecido pesado insistia em escorregar de sua cabea, forando-a a mudar o menino de lado, enquanto arranjava a veste e caminhava o mais rpido possvel. Uma sombra da tarde comeou a cair sobre as fileiras desiguais de casas e lojas do bairro de Karteh Parwan.

Finalmente, Malika virou  direita da rua principal e chegou ao consultrio que ocupava o andar trreo de uma fileira desordenada de lojas, todas com o mesmo piso de cimento e tetos baixos. Muitas fileiras de pedra amarronzada separavam as lojas dos apartamentos com sacadas acima. Aliviada por se encontrar num espao protegido e por poder descansar por um instante, Malika falou com o mdico que havia sado de seu consultrio ao ouvir as batidas  porta.

Meu filho est com febre; acho que ele deve estar muito mal, ela disse. Eu o trouxe aqui o mais cedo que pude.

O mdico, um senhor de idade que havia tratado a famlia de seu marido por muitos anos, ofereceu-lhe um sorriso amvel.

Sem problema,  s tomar seu assento e aguardar. No vou demorar.

Malika acomodou Hossein numa cadeira de madeira na sala de espera vazia e s escuras. Ela ficou andando, de um lado para outro, tentando se acalmar; em seguida, passou a mo em sua barriga e inspirou profundamente. O pequeno Hossein estava plido e seus olhos pareciam vtreos e sem expresso. Ela envolveu-o com seus braos e apertou-o contra o prprio corpo.

De repente, um barulho vindo l de fora a assustou. Malika saltou da cadeira em que estava sentada e dirigiu-se  janela. Nuvens cinzentas pairavam sobre a rua e havia ficado escuro l fora. A primeira coisa que ela conseguiu vislumbrar foi um caminho lustroso de cor escura. Ele parecia novo, certamente mais novo do que a maioria dos carros de Cabul. Em seguida, ela viu trs homens parados ao lado do caminho. Eles usavam turbantes grossos enrolados no alto de suas cabeas e tinham nas mos varas que pareciam bastes. Eles estavam batendo em algum - isso ela pde perceber.

Para comear, Malika notou que a figura abatida diante deles era uma mulher. Ela estava estirada no meio da rua, com o corpo enroscado formando uma bola e tentava aparar os golpes. Mas os homens no paravam de golpe-la. Malika podia ouvir o som dos golpes incessantes dos bastes de madeira batendo na mulher desamparada - em suas costas e pernas.

Onde est seu chadri? um dos homens gritou para a sua vtima, erguendo os braos para o alto para golpe-la de novo. Por que voc no est encoberta? Que espcie de mulher  voc para sair assim descoberta?

Pare! a mulher suplicou. Por favor, tenha misericrdia. Eu estou usando um xale. No tenho nenhum chadri. Nunca antes fomos obrigadas a us-lo.

Ela comeou a chorar. Lgrimas comearam a escorrer dos olhos de Malika ao assistir quela cena. Seus instintos a instigavam a correr at a rua para salvar a pobre mulher de seus agressores. Mas sua mente racional sabia que aquilo era impossvel. Se sasse do consultrio mdico, ela tambm seria espancada. Aqueles homens no teriam nenhum escrpulo para bater tambm numa mulher grvida, ela pensou. E ademais, ela tinha que proteger seu filho doente. Ento ela continuou parada junto  janela, ouvindo a mulher chorar, sem poder fazer nada, e tratou de secar suas prprias lgrimas.

Voc acha que este  o antigo regime? um dos homens jovens gritou. Seus olhos estavam pintados com o cosmtico negro usado pelos soldados do Talib. Este no  o regime do Dr. Najibullah nem dos Mujahideen, ele disse, golpeando de novo a mulher com seu basto. Ns acreditamos no charia, o cdigo de conduta do Isl, e  esta a lei que agora rege este pas. As mulheres tm que andar encobertas. Que isto lhe sirva de lio.

Finalmente, os homens voltaram para seu caminho e foram embora. A mulher se curvou insegura para pegar sua bolsa do cho e saiu mancando lentamente.

Malika voltou para junto de Hossein, que estava enroscado em sua cadeira soltando gemidos fracos. As mos dela tremeram ao pegar os dedinhos das mos dele. Como a mulher l na rua, ela pertencia a uma gerao de mulheres de Cabul que no sabia o que era usar o chadri. Elas haviam crescido na capital muito tempo depois de o primeiro-ministro Mohammad
 Daoud Khan ter institudo o uso voluntrio de vu pelas mulheres, na dcada de 1950. O rei Amanullah Khan havia tentado, sem sucesso, promover essa reforma trinta anos antes, mas foi apenas em 1959, quando a mulher do prprio primeiro-ministro apareceu no ato de comemorao do dia da independncia nacional usando um leno na cabea em vez de cobri-la totalmente com o chadri, que a mudana finalmente entrou em vigor. A atitude dela chocou as massas e marcou uma virada cultural na capital. As mulheres da gerao seguinte de Cabul passaram a trabalhar como professoras, operrias, mdicas e funcionrias pblicas; elas iam trabalhar apenas com a cabea encoberta e o rosto exposto. At aquele dia muitas mulheres nunca haviam tido motivo para usar e nem mesmo possuam os vus que haviam encoberto totalmente as cabeas de suas avs.

De repente, os tempos haviam novamente mudado. As mulheres seriam, dali em diante, obrigadas a se vestir de uma maneira - e adotar um estilo de vida - que jamais haviam conhecido, por governantes que no haviam conhecido outra coisa. Seria isso que a esperava l fora quando sasse do consultrio mdico? Malika sentiu as batidas aceleradas do corao em seu peito ao se perguntar como iria para casa em segurana com Hossein. Como o da mulher que vira l fora, o leno de Malika era grande, mas no o suficiente para cobrir toda a sua face e convencer os soldados de que era devota. Ela abraou Hossein com fora, tentando tanto proteger a ele como a si mesma.

Foi justamente naquele momento que o mdico voltou.

Depois de um exame rpido, porm completo, ele assegurou a Malika que no era nada grave. Ele recomendou que ela desse a ele muito lquido e passou-lhe a receita a ser aviada; em seguida, conduziu Malika e Hossein at a sala de espera. Quando chegaram  porta de sada, Malika parou.

Doutor, eu gostaria de lhe pedir para ficar aqui por mais alguns minutos. Ela apontou o queixo na direo do menino em seus braos. Preciso descansar por um instante antes de carreg-lo de volta para casa.

Malika no queria falar sobre o que tinha acabado de ver, mas o fato continuava atormentando-a. Ela precisava pensar numa maneira de sair em segurana daquela situao.

 claro, o mdico respondeu. Fique o tempo que quiser.

Malika ficou andando de um lado para outro da sala de espera, suplicando por ajuda. Ela no poderia voltar para a rua sem um chadri, daquilo ela tinha certeza. Mas no fazia ideia de como conseguir um.

De repente, seu corao disparou. Pela janela, ela viu Soraya, a professora de seu filho mais velho, descendo a rua em direo ao consultrio mdico. Malika reconheceu de longe seu passo determinado e, em seguida, entreviu o rosto da professora transparecendo por trs do vu escuro. Levava uma pequena sacola de compras pendurada em cada brao. Malika correu at a porta. Depois de averiguar a calada para se certificar de que os talibs no estavam mais  vista, ela deu um passo furtivo para fora do consultrio mdico.

Soraya Jan, ela chamou da soleira da porta.  Malika, a me de Saeed.

Surpresa, a professora se aproximou s pressas e Malika lhe contou o que havia acabado de ver ali na rua.

Sem poder acreditar, Soraya balanou a cabea. Ela havia passado uma hora comprando todas as verduras e legumes que conseguiu para o pilau, o arroz aromtico afego do jantar da famlia, e po naan, mas estava muito difcil encontrar comida. Um bloqueio do Talib estava obstruindo a cidade, impedindo que os caminhes que transportavam alimentos chegassem aos habitantes - cerca de 1,2 milho -, da capital. Soraya havia conseguido, com dificuldade, comprar apenas algumas batatas e cebolas. No mercado corriam boatos sobre a chegada dos talibs, mas Malika era a primeira pessoa conhecida que havia visto de perto os novos invasores da capital.

Minha casa fica bem ali na esquina, Soraya disse para Malika, segurando a sua mo. Voc e Hossein vm comigo. Ns vamos arranjar um chadri para voc voltar para casa. No se preocupe, vamos dar um jeito.

Malika sorriu pela primeira vez naquele dia.

Muito obrigada, Soraya Jan, ela disse. Fico enormemente agradecida.

As duas mulheres percorreram rapidamente o quarteiro at a casa de Soraya, que ficava atrs de um porto amarelo vivo. Elas no pronunciaram uma nica palavra durante o rpido percurso e Malika ficou se perguntando se Soraya estava rezando como ela para que no fossem paradas. Ela no conseguia tirar de sua mente a imagem da mulher a cujo espancamento assistira ali, naquela mesma rua.

Alguns minutos depois, elas j estavam sentadas na pequena cozinha de Soraya. Malika segurava com fora um copo de ch verde quente e pela primeira vez, em muitas horas, conseguiu relaxar. Ela estava profundamente agradecida pelo aconchego da casa de sua amiga e pelo fato de Hossein, a quem ela havia dado um comprimido ainda no consultrio mdico, j estar um pouco melhor.

Eu tenho um plano, Malika, Soraya anunciou. Ela chamou seu filho, Muhammad, que estava em outro cmodo da casa. Quando o menino apareceu, ela encarregou-o de uma misso. Eu preciso que voc v at a casa de sua tia Orzala. Diga a ela que precisamos que ela empreste um chadri para a tia Malika; diga que o devolveremos dentro de alguns poucos dias. Isto  muito importante. Entendeu?

O menino de oito anos assentiu.

Depois de apenas meia hora, o pequeno Muhammad entrou correndo na sala e entregou, solenemente, a Malika uma sacola de plstico branco com as alas cuidadosamente amarradas. Dentro dela havia um chadri azul. Minha tia disse que a senhora pode ficar com o chadri pelo tempo que for necessrio, Muhammad falou, sorrindo.

Malika desdobrou a pea que, na verdade, era feita de muitas camadas de tecido costuradas  mo, umas s outras. A parte da frente, com aproximadamente um metro de comprimento, era feita de polister claro com uma barra finamente bordada na parte mais baixa e uma touca no alto. O lado mais comprido do chadri e as camadas da parte de trs formavam um ondeado ininterrupto de pregas sanfonadas que iam quase at o cho. Para usar aquilo era preciso entrar embaixo daquelas dobras onduladas e verificar se a touca estava no lugar certo para proporcionar o mximo de visibilidade possvel, atravs da fenda entranada para os olhos, que tornava o mundo levemente azulado.

A famlia convidou Malika para ficar para o jantar e, depois de comer com eles um prato de arroz e batatas  luz de velas no piso da sala, ela levantou-se e vestiu o chadri. A barra de seu elegante par de calas marrom ficou transparecendo por baixo do vu. At ento, Malika havia usado aquele tipo de pea de vesturio apenas algumas vezes, quando tinha visitado os parentes nas provncias e, por isso, achou difcil andar com todas aquelas camadas e pregas escorregadias. Ela esforou-se para enxergar atravs da pequena abertura para os olhos que tinha apenas uns cinco centmetros de altura por oito centmetros de largura. Ela pisou no tecido enquanto se despedia, pela ltima vez, da famlia de Soraya.

Um de meus filhos em breve lhe trar o chadri de volta, Malika disse, abraando a amiga que havia salvado a sua pele.

Ela pegou Hossein pela mo e comeou a caminhar para casa sob o cu de uma noite estrelada, andando devagar e com cuidado para no pisar de novo no vu. Ela ia rezando para que o disparo de foguetes esperasse at que pelo menos ela chegasse em casa em segurana.

Muitos dias transcorreriam antes de ela poder ver seus familiares de Khair Khana e contar a eles a aflio que havia passado. Malika fora uma das primeiras a passar pela experincia que agora estava defronte de todas as mulheres. O futuro seria exatamente como a jovem estudante do Instituto Sayed Jamaluddin havia previsto.



Tempo de despedidas

O rdio empoleirado na prateleira da sala continuava emitindo seus zumbidos. O pai de Kamila, Woja Abdul Sidiqi, pregou os ouvidos nos alto-falantes pretos daquele velho aparelho chins para tentar decifrar as palavras do reprter da BBC. Um homem imponente, com suas mechas de cabelos brancos e rosto angular que lhe davam um ar de realeza, o Sr. Sidiqi revelava suas razes militares em sua postura altiva e conduta sria. Os filhos mantinham-se em silncio; ningum jamais ousava interromper seu melanclico ritual noturno. Ele moveu, cuidadosamente, o boto do velho rdio para sintoniz-lo, e logo a sala se encheu com as vozes do noticirio persa da BBC transmitido ao vivo de Londres. O noticirio da noite, que j fazia parte da hora do jantar do Sr. Sidiqi, havia se tornado o elo mais importante da famlia com o mundo exterior.

Boletins informativos dramticos haviam chegado pelo rdio no decorrer do ms que havia transcorrido desde que as tropas de jovens talibs barbudos, usando turbantes, haviam entrado em Cabul montados sobre tanques pesados e reluzentes caminhes japoneses, eufricos com o que eles proclamavam ser seu triunfo divino. Na manh do primeiro dia, eles enforcaram o ex-presidente comunista, o Dr. Najibullah, no poste de um semforo da Praa Ariana, bem no centro de Cabul. Como ele era detestado por suas ligaes estreitas com os ateus soviticos e sua severa sano s figuras islmicas durante a dcada de 1980, os talibs fizeram de seu assassinato um espetculo ttrico para o mundo assistir. Eles penduraram cigarros na boca inerte do ex-presidente e encheram de dinheiro os bolsos de suas calas para simbolizar sua decadncia moral. Seu cadver espancado e inchado ficou se decompondo por trs dias na ponta de uma corda.

O Sr. Sidiqi havia sido recrutado para o exrcito quando adolescente, nos anos 1960, por um representante do governo que estava em visita a Parwan, sua provncia natal. Em sua carreira militar de artilheiro, e depois atuando como topgrafo e consultor, ele assistiu a distrbios polticos, inclusive a derrubada do poder do rei Mohammed Zahir Shah por seu antigo primeiro-ministro Mohammad Daoud Khan. Daoud dissolveu a monarquia e declarou seu pas uma repblica, mas, cinco anos depois, foi assassinado por um grupo de comunistas de linha dura que transformou em rotina atos como priso, tortura e morte dos adversrios. A Unio Sovitica ficou convencida de que os revolucionrios que um dia ela havia apoiado no eram mais confiveis e, em 1979, o Exrcito Vermelho invadiu o Afeganisto que, desde ento, viveu em guerra.

Cada um dos governos ao qual o Sr. Sidiqi servira havia enfrentado uma ameaa quase constante de derrubada por adversrios, tanto de dentro como de fora do pas, e todos eles haviam contado com o exrcito para manter a estabilidade. Mas, atualmente, uma fora militar imensamente diferente estava no controle e suas tticas eram totalmente novas e notrias. Multides de meninos e homens se amontoaram no cruzamento movimentado da Praa Ariana para assistir ao enforcamento do Dr. Najibullah e relataram para suas esposas, irms e mes, em casa, a cena extraordinria que haviam testemunhado. A mensagem era inequvoca: um novo regime havia assumido o comando.

O pai de Kamila estava preocupado com o que poderia acontecer com sua prpria famlia, j que ele podia prever como os talibs tratariam seus inimigos. Afinal, ele havia servido ao governo do Dr. Najibullah e trabalhado com Massoud, o combatente de Panjshir que havia se tornado o maior inimigo dos talibs e continuava comandando foras suficientes para impedir que eles controlassem todo o pas. Mas o Sr. Sidiqi instou suas filhas para que no se preocupassem. Eu sou apenas um velho aposentado; no tenho absolutamente nada a ver com poltica, ele tentou tranquiliz-las. Com o passar dos dias, no entanto, Kamila foi ficando cada vez mais apreensiva. Os talibs comearam a perseguir os jovens tajiques, capturando-os em mesquitas e lojas sob suspeita de prover armas e informaes s foras de Massoud, que estavam no momento opondo resistncia ao norte de Cabul. Os soldados do Talib com suas metralhadoras Kalashnikov penduradas nos ombros patrulhavam a cidade montados em seus tanques e caminhes, procurando erradicar qualquer confuso e esmagar qualquer iniciativa de oposio.

O Sr. Sidiqi, um homem culto que havia percorrido o pas no tempo em que servira ao exrcito e acreditava que as diferenas tnicas no deveriam importar aos afegos, empenhou-se em explicar a suas filhas por que aqueles homens tinham motivos de sobra para temer o mundo fora de seus campos de refugiados. Muitos deles eram rfos cujos pais haviam sido mortos quando os bombardeios soviticos haviam devastado suas aldeias no sul. Os invasores russos, ele disse, haviam tirado as famlias e casas daqueles soldados. Eles nunca haviam chegado a conhecer seu pas nem sua capital. Acho que essa foi a primeira coisa que muitos daqueles garotos viram de Cabul, ele disse para suas filhas, e provavelmente a primeira vez que eles viram tantas pessoas de tantas origens diferentes. A maioria deles havia sido criada em campos de refugiados nas regies sul e leste do Paquisto. O pouco conhecimento que eles tinham de sua prpria histria eles haviam adquirido atravs do filtro de professores profundamente religiosos, mas que mal haviam frequentado as escolas muulmanas e passavam a eles interpretaes singulares e ressentidas do Isl - muito diferentes da tradio afeg. Nos campos onde haviam crescido, em muitas famlias de refugiados as esposas e filhas eram mantidas presas dentro de casa quase o tempo todo para garantir a manuteno de sua segurana e honra. Aqueles rapazes que seguem a bandeira branca dos talibs passam a vida inteira sem ter quase nenhum contato com mulheres, o Sr. Sidiqi disse a suas filhas. Na realidade, eles eram instrudos a evitar se expor  tentao amoral do sexo oposto, cujo lugar legtimo era dentro de casa atrs de portas fechadas. Isso fazia a vida e a cultura da capital parecer ainda mais estranha e desconcertante para os jovens soldados que estavam agora no controle de suas ruas. Aos seus olhos, Cabul parecia uma Sodoma e Gomorra dos tempos modernos, onde as mulheres andavam livres e desacompanhadas, usando maquiagem sedutora e roupas de estilo ocidental; onde os comerciantes no seguiam religiosamente suas obrigaes religiosas; onde os excessos prosperavam e abundavam as bebidas alcolicas. Para aqueles jovens fanticos, Cabul era uma cidade depravada onde imperava o crime e a libertinagem e, portanto, urgentemente necessitada de uma purificao espiritual.

Os moradores de Cabul assistiram desamparados s mudanas que os talibs comearam a impor sobre sua capital cosmopolita de acordo com sua viso utpica do Isl do sculo VII. Quase imediatamente eles instituram um sistema brutal - e eficiente - de lei e ordem. Os acusados de roubo tinham uma mo e um p decepados e os membros cortados eram pendurados em postes nas esquinas das ruas para servir de exemplo aos outros. Da noite para o dia, a criminalidade naquela cidade monumentalmente sem lei caiu para quase zero. Em seguida, eles proibiram tudo que consideravam desvio da obrigao de prestar culto religioso: msica, que fazia parte de uma longa tradio cultural do Afeganisto, cinema, televiso, jogos de cartas, de xadrez e at mesmo a brincadeira de soltar pipas, o passatempo popular das tardes de sexta-feira. E eles no pararam por a; criar representaes da figura humana logo passou a ser proibido, como tambm usar roupas ou penteados de estilo europeu. Depois de um curto perodo de tempo necessrio para deix-la crescer, o comprimento da barba dos homens no podia ser menor do que a de punho cerrado. Fazer a barba era proibido. A modernidade, e qualquer coisa ligada a ela, foram totalmente banidas.

Mas de todas as mudanas impostas pelo Talib, as mais dolorosas e desmoralizantes foram aquelas que iriam transformar radicalmente a vida de Kamila, de suas irms e de todas as mulheres de sua cidade. Os decretos promulgados recentemente obrigavam:


Que as mulheres ficassem em casa.

Que as mulheres no tinham permisso para trabalhar.

Que as mulheres eram obrigadas a usar o chadri em pblico.


As mulheres foram oficialmente banidas das escolas e dos escritrios, embora muitas professoras, inclusive Malika, a irm mais velha de Kamila, iam todas as semanas ao trabalho buscar seus salrios por servios que no podiam mais realizar. As escolas para meninas foram rapidamente fechadas; em vinte e quatro horas a populao de estudantes masculinos do [Instituto] Sayed Jamaluddin saltou de 20 para 100%. E o uso do chadri tornou-se obrigatrio, nenhuma exceo era permitida. Para muitas mulheres, no entanto, inclusive para Kamila e suas quatro irms, as restries com respeito s vestimentas constituam o menor de seus problemas. O pior de tudo era elas no terem para onde ir; estavam condenadas a permanecer em suas salas de estar. Da noite para o dia, as mulheres desapareceram das ruas de uma cidade onde apenas alguns dias antes elas representavam quase 40% do funcionalismo pblico e mais da metade de todo o professorado. O impacto foi imediato e devastador, particularmente para as trinta mil famlias de Cabul que eram declaradas oficialmente chefiadas por vivas. Muitas daquelas mulheres haviam perdido seus maridos durante os interminveis anos de guerra, primeiro com os soviticos e, em seguida, com seus prprios conterrneos. Agora, elas no podiam nem mesmo trabalhar para sustentar seus filhos.

Para o Sr. Sidiqi, patriota e servidor pblico leal por quase toda a sua vida, a situao era especialmente preocupante. Quando jovem, ele havia trabalhado numa fbrica sua de tecidos altamente desenvolvida e que valia 25 milhes de dlares em sua cidade natal de Gulbahar. Ele havia visto as mulheres europeias trabalhando ao lado de seus maridos e de seus colegas afegos. Tudo que diferenciava aquelas mulheres que tinham trabalho e renda das mulheres de sua prpria famlia era a educao, uma realidade que ele jamais esqueceria. Por todas as guerras e revoltas que ele havia testemunhado no decorrer de sua carreira militar, o Sr. Sidiqi estava determinado a dar aos seus filhos - nove meninas e dois meninos - o privilgio de estudar. Ele no faria distino entre seus filhos homens e suas filhas mulheres com respeito aos deveres de escola. Como ele costumava dizer com frequncia aos onze filhos: Eu vejo vocs todos com o mesmo olhar. Para ele, sua principal obrigao e dever religioso era dar a seus filhos uma educao para que eles pudessem servir  comunidade com os conhecimentos adquiridos. Agora, era com o corao apertado que ele via o Talib fechar as escolas para meninas e obrigar as mulheres a ficarem em casa,

Reunida em volta do rdio, a famlia Sidiqi ouvia as declaraes do Talib pela Rdio Afeganisto - que recentemente havia passado a ser chamada Rdio Sharia pelos novos mandantes da cidade - e foi ficando ainda mais desanimada. A cada noite, eles tomavam conhecimento de novas leis atravs do aparelho radiofnico. No sobra mais muita coisa para nos tirarem, Kamila pensou consigo mesma uma noite antes de abandonar todas as suas preocupaes para entregar-se ao conforto do sono. Quantas leis eles ainda podem criar?

Nenhuma das meninas havia sado de casa desde que o Talib havia tomado Cabul e todas elas estavam convencidas de que no suportariam aquele confinamento por muito mais tempo. Durante sete dias seguidos, as meninas ficaram zanzando de uma pea a outra da casa, lendo primeiro seus livros preferidos e depois tambm os menos preferidos, sintonizando o rdio nas estaes de notcias, em volume baixo para que ningum de fora ouvisse, contando histrias umas para as outras e ouvindo seus pais discutirem o prximo passo a ser dado pela famlia. Nunca antes nenhuma das irms havia passado tanto tempo confinada aos limites do ptio de sua casa. Elas sabiam que muitas famlias conservadoras das regies rurais do pas, particularmente do sul, praticavam o purdah, a recluso das mulheres de maneira que elas no tivessem nenhum contato com homens, a no ser seus familiares diretos - mas tais prticas eram totalmente alheias a sua famlia. O Sr. Sidiqi e sua esposa haviam incentivado cada uma de suas nove filhas a ter uma profisso e, at ali, as trs mais velhas haviam se formado professoras. As mais jovens, que tinham de seis a dezessete anos, continuavam estudando e se preparando para entrar na universidade. A caneta  mais poderosa do que a espada, o Sr. Sidiqi costumava dizer a seus filhos quando  noite eles se debruavam sobre os livros. Continuem estudando!

E agora, um dia montono aps outro, aquelas meninas cheias de vida e vontade de estudar ficavam de ps descalos sentadas sobre as almofadas da sala de estar ouvindo pela BBC as notcias de como as coisas estavam se desdobrando e se perguntando por quanto tempo ainda a vida poderia continuar daquele jeito. Todos os planos que elas tinham para o futuro haviam simplesmente evaporado com a rapidez de um batimento cardaco.

Kamila tentava ser otimista. Tenho certeza de que isto no vai durar mais de alguns meses, ela dizia a suas irms quando as via impacientes e arreliando-se umas com as outras. Mas em seu ntimo, ela estava doente de preocupao. Sentia muita falta de sua antiga vida, que a preenchia com escola e amigas. E achava doloroso imaginar o mundo l fora seguindo em frente sem ela e sem nenhuma das mulheres de Cabul. Com certeza, aquilo no podia durar para sempre. Sim, ela podia usar o chadri, mas no podia ficar dentro de casa sem nada para fazer por muito mais tempo; tinha que haver alguma maneira de ela poder estudar ou trabalhar, mesmo com a universidade fora do alcance. Elas eram cinco garotas em casa, ali no bairro suburbano de Khair Khana, e Kamila sabia que seu pai e seu irmo no poderiam sustent-las para sempre. Se aquela situao se prolongasse por muito mais tempo, ela teria que encontrar uma maneira de ajudar.

Mas as notcias sobre como andava a vida nas ruas de Cabul continuavam desanimadoras. O irmo de Kamila, Najeeb, descrevia em detalhes para suas irms uma cidade que havia sido transformada. Era verdade que a maioria das lojas havia sido reaberta e mais alimentos podiam ser encontrados nos mercados, agora que o bloqueio do Talib havia sido suspenso. Os preos tinham at cado um pouco depois que as estradas para Cabul haviam sido reabertas. Agora se podia sentir um clima de certo alvio no ar depois que os combates haviam finalmente cessado e foguetes no eram mais disparados diariamente sobre a cidade. A segurana tinha, instantaneamente, melhorado. Mas na cidade reinava um silncio sinistro. O trfego havia deixado de congestionar as ruas da cidade. E quase nenhuma mulher era vista nas ruas. As duas que Najeeb havia visto numa tarde andavam a passos largos totalmente encobertas pelo chadri e de cabea baixa.

E havia uma novidade nas ruas de Cabul: as rondas do Amr bil-Maroof wa Nahi al Munkir, o Ministrio da Promoo da Virtude e Supresso dos Vcios, que seguia o estilo de um ministrio similar na Arbia Saudita, um dos poucos pases que apoiavam o Talib. Desfilando pela cidade, as patrulhas do Amr bil-Maroof assumiam o papel de principais foras que faziam valer a pureza moral. O mero nome Amr bil-Maroof bastava agora para causar pavor tanto em homens como em mulheres. Aqueles fanticos soldados de infantaria faziam cumprir a interpretao prpria que o Talib fazia do cdigo de leis Pashtunwali ou da lei islmica. Eles se empenhavam em suas tarefas com tal fervor e seriedade que chegavam, s vezes, a apavorar at mesmo seus chefes de Kandahar.

Muitos deles mal tinham idade para ter barba e no usavam uniforme, apenas um turbante branco ou preto e um shalwar kameez - um camisolo largo e surrado que ia at os joelhos -, s vezes com um colete por cima, e calas largas. Eles andavam com seus shaloqs - bastes de madeira -, que tanto haviam aterrorizado Malika naquele dia em que estivera no consultrio mdico, e tambm com suas antenas de metal e seus chicotes de couro. Na hora das preces, os homens do Amr bil-Maroof colocavam seus chicotes para funcionar, cercando os compradores e berrando para seus irmos que fechassem suas lojas e fossem para a mesquita. Eles patrulhavam as ruas dia e noite  procura de algum que estivesse violando as leis, especialmente as mulheres. Se alguma mulher ousasse afastar o chadri para dar uma olhada em algo que queria comprar no mercado, ou se um punho se mostrasse acidentalmente descoberto enquanto ela atravessava uma esquina, um membro do Amr bil-Maroof surgia do nada para fazer valer a justia de forma rpida e brutal, bem ali, diante dos olhos de todos. Raramente um homem se dispunha a intervir em favor de uma mulher que estivesse sendo espancada; ele sabia que seria o prximo a ser espancado se tentasse ajudar. Os talibs arrastavam seus piores transgressores, inclusive as mulheres acusadas de infidelidade, para a priso, um buraco escuro de onde muito raramente e por delitos menores, apenas as famlias com dinheiro podiam - ocasionalmente - pagar para tir-los.

Os vizinhos de Kamila comearam a deixar Cabul  medida que as sanes foram se tornando ainda mais severas. Mas no era apenas a situao poltica que estava forando-os a deixar o pas, mas o rpido colapso da economia. As fontes de renda secaram e as famlias se viram foradas a viver de quase nada. O governo passou a pagar o salrio de suas dezenas de milhares de funcionrios pblicos apenas ocasionalmente, isso quando pagava, e as famlias em que as esposas, irms e filhas trabalhavam perderam, pelo menos, uma fonte de renda. Muito antes da chegada do Talib, vrios moradores de Khair Khana haviam fugido da matana e violncia da guerra civil. Os que haviam permanecido venderam tudo que possuam para sobreviverem  guerra, inclusive as portas e janelas de suas casas para serem transformadas em lenha. Agora, a maior parte da minguada classe mdia que continuava morando em Khair Khana e tinha como ir embora decidiu fazer suas trouxas e empreender a arriscada viagem para o Paquisto ou o Ir.

Portanto, no foi nenhuma surpresa quando Najeeb voltou do mercado uma noite anunciando que seus primos e suas famlias estavam se preparando para ir embora. Sendo um rapaz formoso e com a confiana de um jovem, Najeeb falou num tom que mal escondia sua afobao.

Acabei de ir ver o tio Shahid e ele disse que no podem mais continuar aqui. As meninas no podem estudar e eles esto preocupados com o que vai acontecer com os rapazes. Kamila nunca tinha visto seu tranquilo irmo to alterado. Seus primos tambm eram garotos adolescentes que, como Najeeb, enfrentavam cada vez mais riscos nas ruas de Cabul simplesmente por serem tajiques do norte. A cada semana os riscos s pioravam e no desapareciam, como suas famlias haviam acreditado no incio.

Em diferentes ocasies, os parentes foram pessoalmente contar seus planos ao pai de Kamila, diante de muitos copos da bebida chai feita em casa e de uma bandeja de prata cheia de amndoas, sementes de pistache e toots, as iguarias de frutas secas. Mas agora as famlias estavam deixando a cidade rapidamente e em silncio enquanto era possvel. Eles no tinham tempo para comunicar sua partida at mesmo s pessoas que mais amavam e nas quais mais confiavam.

Kamila tinha ouvido, alguns dias antes, uma conversa de seus pais em que eles discutiam suas opes e sabia que seu pai, provavelmente, no iria se juntar  famlia de sua me no Paquisto ou no Iraque. Era simplesmente perigoso demais arriscar uma empreitada daquelas com cinco garotas a reboque. Para chegar ao Paquisto, eles teriam que viajar de Cabul a Jalalabad e dali para a cidade fronteiria de Torkham e, ento, se fossem barrados na travessia da fronteira, contratar um homem para conduzi-los clandestinamente atravs das montanhas. Depois disso, eles teriam que encontrar um txi ou nibus que os levasse para uma das cidades, mais provavelmente Peshawar, onde dezenas de milhares de afegos j haviam se instalado, muitos deles em campos de refugiados. Bandoleiros margeavam os estreitos caminhos de uma regio acidentada e contava-se muitas histrias de garotas raptadas ao longo daqueles caminhos. Alm disso, o que aconteceria se abandonasse a casa em Khair Khana que havia sido to difcil para o Sr. Sidiqi construir? Todo mundo sabia que era impossvel reaver uma propriedade que fora abandonada. Em poucas semanas, alguma famlia desesperadamente necessitada de abrigo a ocuparia e ficaria tanto com a casa quanto com o terreno, e quando a famlia voltasse para Cabul, o Sr. Sidiqi teria que entrar na justia e esperar anos para reaver sua casa. A possibilidade de ser obrigado a ir embora existia, mas por mais que se falasse mal do Talib, uma coisa eles tinham conseguido: a cidade estava mais segura. Pela primeira vez em anos, os moradores de Cabul podiam dormir com as portas de suas casas abertas se quisessem. Desde que suas cinco filhas seguissem as regras do novo regime, tudo estaria bem. E eles estariam em seu prprio pas.

Mas para os homens da famlia de Kamila, o perigo aumentou de tal maneira que era difcil ignorar. De nada adiantava ficar repetindo que o Sr. Sidiqi no era mais do exrcito ou que no se metia em poltica ou ainda que ele era demasiadamente velho para lutar na oposio. Os talibs haviam comeado a vasculhar as vizinhanas, indo de casa em casa para descobrir possveis focos de resistncia que restassem na capital rebelde, mas que em geral havia sido dominada. Os jovens soldados andavam  procura de velhos combatentes, termo to genrico que podia incluir qualquer um do sexo masculino capaz de representar uma ameaa ao regime Talib, a comear pelos adolescentes. O Talib acusava os homens pertencentes s minorias tnicas dos usbeques, hazaras e tajiques de apoiarem seus opositores, inclusive Massoud, cujas foras haviam se reagrupado no Vale do Panjshir com a esperana de empurrar os talibs para o norte, onde poderiam continuar a luta em terreno mais favorvel. Com dezessete anos, Najeeb e seus primos haviam se tornado os alvos preferidos das prises em massa. Uma vez tendo-os nas mos, o Talib podia recrut-los  fora e envi-los para os campos de batalha. Filhos dos vizinhos haviam sido interrogados na rua pelos talibs e obrigados a mostrar seus documentos de identidade. Se os jovens eram provenientes do norte, eles enfrentavam a ameaa de imediata deteno nas prises do Talib que haviam surgido por toda a Cabul.

Toda vez que Najeeb saa de casa, a me de Kamila tinha medo de que ele no voltasse. Todos os dias ele voltava para casa com a notcia de que algum amigo ou vizinho estava indo embora do pas em busca de trabalho, com promessas de mandar dinheiro para a famlia assim que pudesse. Como os homens fisicamente saudveis estavam em massa indo embora, Cabul estava cada vez mais se tornando uma cidade de mulheres e crianas deixadas para trs sem ningum para sustent-las e sem meios de sustentarem a si mesmas.

Foi apenas uma questo de tempo at que os medos e inseguranas obrigaram os membros masculinos da famlia Sidiqi a seguir seus amigos e vizinhos para fora de Cabul. Eles tinham planos incertos de partirem no Eid ul-Fitr, a celebrao do fim do ms sagrado do Ramad, mas por volta do final da sexta semana do regime Talib, a deciso no pde mais ser adiada: a famlia teria que se separar. Do contrrio, os homens acabariam na priso ou nas linhas de frente.

Sentados na sala  luz de lampio, o Sr. Sidiqi comunicou seu plano a seus sete filhos, que moravam com ele. Ele partiria imediatamente para Gulbahar, sua cidade natal que ficava a aproximadamente setenta quilmetros ao norte na provncia de Parwan. Quando pequenos, os filhos mais velhos faziam regularmente a viagem de duas horas para ver os parentes e participar dos piqueniques em famlia s margens do Rio Panjshir, cujas guas geladas passavam bem atrs da casa da famlia Sidiqi, nas terras frteis que o av de Kamila havia cultivado. Eles haviam passado muitas frias de vero brincando na gua e correndo pelos vastos campos que eram maiores e mais verdes do que os de Cabul. Aqueles passeios idlicos da famlia acabaram quando o Afeganisto foi invadido pelos russos e a batalha de resistncia, travada no norte, comeou. Em oito ofensivas sucessivas os tanques soviticos haviam destrudo grande parte da agricultura da regio, como tambm seu estilo de vida, mas eles jamais conseguiram vitrias duradouras ali na fortaleza de Massoud. As foras de Massoud tinham muito mais determinao para defender sua ptria do que os russos jamais tiveram para conquist-la, e seus combatentes usaram tticas de guerrilha e o terreno traioeiro de Parwan para assegurar sua primazia. Com a retirada dos soviticos e a tomada do poder por Mujahideen, em 1992, os membros mais jovens da famlia Sidiqi puderam conhecer as choupanas de barro, os rios de guas cristalinas e os campos verdejantes de Gulbahar. Embora muita coisa tivesse sido destruda nos combates, todas as crianas tinham passado a amar a frondosa tranquilidade da aldeia e as paisagens estonteantes das distantes montanhas de Hindu Kush. Agora, com mais outra guerra em andamento, Kamila se perguntava por quanto tempo ainda Gulbahar teria que resistir.

Embora os combates tivessem avanado para o norte de Cabul, para a provncia de Parwan, o Sr. Sidiqi acreditava que estaria mais seguro l do que na capital. Ele mandaria buscar a me de Kamila depois que tivesse se instalado l e avaliado a situao. Enquanto isso, Najeeb cuidaria das mulheres at que a famlia estivesse em condies de decidir o prximo passo do rapaz. Kamila e suas irms no tiveram que perguntar por que no podiam acompanhar seu pai para o norte, pois j sabiam o motivo de sua recusa: era perigoso demais viajar com cinco meninas, primeiro atravs das foras do Talib e depois pelo territrio controlado pela Aliana do Norte. Mas o Sr. Sidiqi tinha uma outra razo, essa no mencionada: ele temia que no norte suas filhas seriam assediadas com pedidos de casamento, os quais seria complicado recusar repetidamente. O pai de Kamila no tinha a inteno de ser inospitaleiro para com os possveis pretendentes e de maneira alguma era contra o casamento de suas filhas, mas queria que antes elas tivessem a chance de completar seus estudos e depois trabalhar, se quisessem. Para isso, elas estariam muito melhor em Cabul. As garotas tinham agora que estudar e aprender o mximo que pudessem e estarem preparadas para voltar  escola quando o Talib abrandasse suas leis.

Na noite anterior  partida de seu pai, as meninas ajudaram sua me a preparar comida para ele levar na viagem, enchendo sacolas de plstico com grossas fatias de po naan e frutas secas. Quando terminaram os preparativos, e suas irms haviam se acomodado para ler  luz do lampio, Kamila sentou-se junto de seu pai num canto da sala. Sua figura esbelta elevou-se acima dela quando a instou, em voz baixa, porm solene, para que fosse forte e ajudasse sua me. Todos precisam de voc, especialmente as meninas, e eu conto com voc para orient-las e servir de exemplo. Kamila reprimiu suas lgrimas. Eu no acho que isso tudo vai acabar logo; pode at levar anos. Mas tenho certeza de que voc ser um bom exemplo para suas irms. E sei que continuar me dando orgulho, como sempre tive de voc.

Kamila passou a noite toda pensando nas palavras dele. Ele estava contando com ela. E suas irms tambm. Ela teria que encontrar uma maneira de tomar conta de sua famlia.

Kamila no chorou quando se despediu de seu pai na manh seguinte. Tampouco sua me, que havia passado a maior parte da noite arrumando as coisas que ele levaria. A famlia j havia assistido a muitas lutas e guerras na ltima dcada; at mesmo os menores sabiam que de nada adiantava querer que as coisas fossem diferentes. O Talib est se instalando no poder para ficar, instituindo um governo, dando entrevistas coletivas  imprensa e exigindo o direito de representar o pas nas Naes Unidas. Tudo que Kamila e suas irms podiam fazer, naquele momento, era aprender a abrir um novo caminho sob aquela nova ordem.



Costurando um novo futuro

O que voc est lendo? Kamila perguntou, olhando por cima do ombro para sua irm Saaman, que estava estirada sobre o fofo tapete vermelho entranado da sala de estar. Khair Khana estava sem eletricidade havia muitos dias e a luz do lampio refletia suas sombras trmulas nas paredes nuas da sala.

Saaman estava absorta em seus prprios pensamentos. Seu livro de poesias continuava aberto  sua frente, mas h muito tempo largado; ela estava distrada demais para poder se concentrar em sua leitura. O som da voz de Kamila a despertou e a fez voltar para a tranquilidade da noite. Uma bela adolescente com traos delicados e um rosto perfeitamente simtrico, Saaman era mais sria e mais reservada do que sua gregria irm mais velha. Ela era dotada de uma graa discreta que se manifestava como timidez quando encontrava algum pela primeira vez.

Um de seus livros de Maulana Jalalludin, Saaman respondeu. Passado um outro instante, ela suspirou: De novo.

Ela rolou o corpo para o outro lado da almofada, ajeitou seu rabo-de-cavalo e tentou voltar a se concentrar no livro de poesias.

Apenas alguns meses antes, Saaman havia sido aprovada nos exames de vestibular para ingresso na universidade que era extremamente concorrido, mais conhecido no Afeganisto por seu nome francs, concours, e havia conquistado uma cobiada vaga na Universidade de Cabul. Seus pais haviam ficado imensamente orgulhosos de sua sexta filha, que seria a primeira da famlia a ingressar na universidade mais antiga e respeitada do pas. Ela havia acabado de comear seu primeiro semestre de estudos no departamento de cincias, curtindo a vida universitria. E ento, o Talib passou a mandar em tudo. Saaman estava tentando suportar o fim repentino de seus estudos com compostura, mas estava difcil aceitar a imposio de trocar sua vida universitria pela sala de estar de sua casa, com suas irms irrequietas.

Mas ela no era a nica jovem de Cabul que estava tentando preencher as horas de seus dias. Por toda a capital, mulheres de todas as idades e classes sociais estavam aprendendo a sobreviver numa cidade governada por homens que queriam faz-las desaparecer. O Talib havia se entrincheirado para enfrentar o inverno e talvez muito mais alm dele; ningum se atrevia a adivinhar. Enquanto isso, a guerra continuava entre o novo regime e as foras de Massoud, com as Naes Unidas martelando para chegar a uma paz que carecia de energia at mesmo para se firmar em p.

Haviam se passado meses desde a chegada do Talib e as meninas da casa de Kamila nem falavam mais na possibilidade de um fim abrupto para sua priso domiciliar. Em vez disso, elas assistiam desamparadas  Suprema Corte dos nove homens do Talib instituir decretos que endureciam as regras para o banimento das mulheres e regulavam at mesmo os detalhes de suas vidas cotidianas. Andar no meio da rua era agora proibido, como tambm usar sapatos de salto alto. As roupas tinham de ser largas e soltas para impedir que os membros sediciosos sejam vistos e o chadri no podia ser de nenhum tecido leve atravs do qual os braos e as pernas pudessem se insinuar. Misturar-se com estrangeiros e sair sem a companhia de um mahram, ou parente do sexo masculino, eram atos proibidos.

Kamila e suas irms se uniram em busca de consolo para o desespero horripilante que ameaava sufoc-las. E elas comearam a pensar em solues possveis. Devamos pedir a Habiba Jan para nos trazer alguns de seus livros, Kamila disse a Saaman em uma manh, quando terminavam de arrumar a cozinha aps o desjejum feito de chai quente e naan torrado. A famlia de Habiba morava apenas duas casas abaixo, na mesma rua, o que possibilitava que se visitassem com relativa segurana, mesmo nas circunstncias vigentes.

Estou to cheia de ficar lendo sempre as mesmas coisas. Talvez pudssemos trocar alguns livros com nossas amigas, ela disse animada.

Sim, isso mesmo, que tima ideia! Saaman respondeu secando as mos com um pano de pratos. Devamos tambm falar com Razia. Ela costuma ler muito, mas no sei ao certo de que tipo de livros ela gosta. Temos tudo que existe de livros de poesias; talvez ela possa nos emprestar alguns daqueles grandes romances policiais persas - acho que ela  viciada neles. Saaman se animou pela primeira vez em semanas.

Com essa conversa teve incio a troca regular de livros entre a vizinhana. A cada tantos dias um punhado de garotas da parte nordeste de Khair Khana dava uma passada na casa dos Sidiqi para deixar os livros que elas haviam acabado de ler e pegar outros. Todas estavam entusiasmadas com a busca de novos volumes para compartilhar com o grupo e quando reviravam em suas prprias pequenas bibliotecas, elas faziam de tudo para emprest-los das colees de suas famlias. A sala de estar da casa de Kamila virou um centro de troca informal, com livros alinhados por toda a parede, com as lombadas  vista e organizados em ordem alfabtica por autor e em fileiras bem arranjadas para facilitar o manejo. As garotas da vizinhana passavam por ali todos os dias e se reuniam num crculo, tomando chai e comendo pistaches, enquanto falavam da paixo pelos autores de sua preferncia, incentivando, umas as outras, a lerem seus autores preferidos.

Kamila e Saaman adoravam os famosos poetas persas. Um exemplar do clssico Divani Shamsi Tabrizi, um poema pico de quarenta e cinco mil versos em dari de Maulana Jalalludin Mohammad Balkhi Rumi, circulava constantemente pelo corredor entre a sala de estar e os quartos de dormir das garotas. O poeta do sculo XIII, nascido na provncia nordeste do Balkh e conhecido pela maioria dos ocidentais apenas como Rumi, definiu a tradio mstica sufi do Isl, segundo a qual meditar sobre msica e poesia leva o homem para mais perto de Deus e a presena do divino. Outro escritor que emocionou profundamente as garotas foi o poeta lrico Hafez, nascido em 1315 na cidade de Shiraz, ao sul do Ir. Hafez escreveu ghazals, ou odes, que descreviam o sentimento de perda dos humanos e para o qual buscavam consolo na imensa beleza do amor divino e criao de Deus. As garotas se revezavam na leitura de suas estrofes em voz alta:


POEMAS EXTRADOS DE O DIV DE HAFEZ

Traduzidos [para o ingls] por Gertrude Lowthian Bell


O vento do alvorecer soprar espalhando odor de almscar,

O velho mundo voltar a ser jovem,

E outros vinhos jorraro do clice da primavera;

A olaia colocar uma taa transbordante de vinho tinto

Diante do jasmim imaculadamente branco,

E as anmonas erguero seu clice escarlate

Para brindar o narciso de palidez estelar.


A prolongada tirania da dor esvair,

A despedida acabar em encontro, o lamento

Do pssaro triste que entoava Ai de mim, ai de mim!

Chegar at a rosa em sua tenda de cortinas vermelhas...


Bem-amada  a rosa - ora, ora seus doces perfumes proclamam,

Enquanto suas ptalas ainda prpuras enrubescem e voam;

Aqui ela chegou seguindo o curso da primavera,

E daqui ela ir seguindo o curso do outono.

Agora, enquanto te ouvimos, Menestrel, afine tua melodia!

Tu mesmo disseste: O presente nos escapa sem que percebamos;

O futuro chega, trazendo - o qu? Quem sabe?


Os versos de sua muito estimada herana literria persa levavam as garotas para longe da ideia rgida que o Talib fazia do Isl, ideia essa originria de outra corrente do islamismo, a Deobandi, que se opunha ardorosamente ao misticismo e rejeitava a msica e a dana como influncias perniciosas. A tradio Deobandi surgiu no norte da ndia em reao s injustias do regime colonial e com o tempo evoluiu de maneira a abarcar apenas as interpretaes puritanas do Isl.

Aquele intercmbio de livros ocupou as meninas por muitas semanas, mas, por mais que gostasse de ler e trocar livros com suas amigas, Kamila estava se sentindo cada vez mais inquieta. At mesmo o novo suprimento de livros estava se tornando uma prtica enfadonha: devorar cada um deles e voltar a l-los. Por quanto tempo posso ficar aqui, simplesmente sentada? Ela se perguntava. Ela sabia de mulheres que haviam encontrado maneiras de trabalhar; ela tinha ouvido falar que algumas professoras estavam dando aulas em suas casas, por exemplo, mas a situao poltica continuava to imprevisvel que a maioria das mulheres achava mais sensato continuar dentro de casa at que ocorresse alguma mudana.

E as coisas tinham que mudar. Havia um nmero excessivo de vivas com necessidade de sustentar a si mesmas e suas famlias, como tambm um nmero excessivo de garotas com fome de estudar. A frustrao aumentava  medida que a economia implodia sob o jugo da m administrao, da guerra e da negligncia. A ajuda estrangeira, na forma de distribuio subsidiada de trigo, havia se tornado crucial para ajudar a alimentar os moradores de Cabul. Toda a cidade era classificada naquele momento como vulnervel no vernculo da prestao de ajuda. A situao caminhava rapidamente para um estado insustentvel.

A famlia de Kamila era privilegiada. O Sr. Sidiqi havia guardado algumas economias do salrio que recebia do exrcito e a cada ms recebia o aluguel de um apartamento que possua nas redondezas. O dinheiro no daria para sustentar indefinidamente toda a sua numerosa famlia sem trabalhar, mas estava dando para mant-los at que o Sr. Sidiqi encontrasse outra sada.

Se a me de Kamila estava preocupada com a situao da famlia, ela no deixava transparecer; nem falava de suas preocupaes com sua filha mais velha. Mas Kamila via com muita ansiedade os recursos da grande famlia se esvaindo. Seus irmos, Rahim e Najeeb, iam s compras com menos frequncia e a cada vez voltavam para casa com menos suprimentos. Comer carne havia se tornado um luxo ainda maior e Kamila se perguntava por quanto tempo o dinheiro que restava poderia ainda durar, uma vez que eram muitas bocas a serem alimentadas.

Para piorar ainda mais as coisas, a famlia no havia recebido nenhuma notcia do Sr. Sidiqi desde sua partida de Cabul, semanas antes. Poucas casas tinham telefone. No havia nenhum servio nacional de correio - o analfabetismo predominava em geral nas reas rurais do pas - e a guerra que estava sendo travada havia prejudicado enormemente o funcionamento dos servios de comunicao que tinham conseguido sobreviver  invaso sovitica. Uma bem-sucedida rede formada por parentes e amigos passou a preencher esse vcuo: muitas pessoas que viajavam regularmente de Cabul para o norte, e vice-versa, serviam de carteiros improvisados, transmitindo mensagens entre pessoas que se amavam e levando notcias para aqueles que haviam sido deixados para trs. A me de Kamila tentava no se preocupar e consolava-se em saber que seu marido j havia sobrevivido a duas guerras em seu pas. Mas ela se sentia apreensiva por ele estar to longe numa situao to instvel como aquela. Eles haviam vivido juntos por trs dcadas, haviam tido onze filhos e o nico desejo dela era que ele chegasse a Parwan so e salvo. Ela pretendia ir ao encontro dele l, assim que ele desse notcia de que a situao era segura o bastante para ela ir.

Enquanto isso, o Talib havia transferido a guerra para o norte. Eles foram atrs da fortaleza de Massoud no Vale do Panjshir e atacaram as tropas do General Abdul Rashid Dostum na cidade de Mazar-e-Sharif, ao norte, famosa por sua Mesquita Azul. Eles estavam decididos a acabar com os adversrios que restavam e consolidar o controle sobre todo o pas. Ento, o mundo no teria outra escolha seno reconhecer o Talib como governo do Afeganisto por direito legtimo e conferir aos homens de Kandahar todos os benefcios de uma nao, inclusive a ajuda estrangeira e o lugar na ONU que eles tanto cobiavam.

Enquanto lutavam contra seus prprios conterrneos, os talibs estavam tambm lutando pelo controle dos recursos econmicos do norte, com suas terras frteis e ricas em minerais, que lhe provia a base industrial da qual o sul carecia. Quase duas dcadas antes, os soviticos haviam despendido milhes de dlares no desenvolvimento dos vastos recursos energticos da regio em benefcio prprio. Reservas de petrleo bruto, ferro e carvo eram encontradas em abundncia nos territrios do norte, que vinham recebendo h anos dlares de ajuda de Cabul em recompensa por serem mais fceis de governar do que os territrios do sul rebelde.

Enquanto isso, a situao econmica se agravava em Cabul e as famlias passavam da condio de pobreza para a de penria. O Talib rechaava a ajuda da comunidade internacional ao que os homens de Kandahar chamavam de os dois por cento de mulheres que trabalhavam nos escritrios de Cabul. Eles promulgaram novos decretos, disfarados na linguagem da diplomacia:

Ns solicitamos, gentilmente, a todas as nossas irms afegs que no se candidatem a nenhum emprego em agncias estrangeiras e que tampouco as procurem. Do contrrio, se elas forem perseguidas, ameaadas e investigadas por ns, a responsabilidade recair sobre elas. Ns determinamos a todas as agncias estrangeiras que respeitem rigorosamente as leis decretadas pelo Estado Islmico do Afeganisto e evitem empregar mulheres afegs.

Eles continuaram a espancar as mulheres que saam s ruas, inclusive as pedintes que estendiam suas mos macilentas e rachadas aos passantes na esperana de ganharem uma esmola. Os soldados do Talib as espancavam com seus bastes de madeira e as repreendiam severamente por estarem na rua desacompanhadas de um mahram. Eles ignoravam que a falta de homens em casa era a razo que obrigava a maioria daquelas mulheres a ir parar nas ruas. Abundavam histrias sobre aquelas que haviam recorrido  prostituio como meio de sustentar seus filhos, situao essa que acarretava muita vergonha e perigo tanto para as prprias mulheres como para suas famlias. Mas para muitas delas, no havia outra alternativa. Se presas, elas eram submetidas  execuo em praa pblica.

Kamila sabia de tudo que estava acontecendo nas ruas atravs de seus irmos, que cumpriam fidedignamente a funo de ser seus olhos e ouvidos, pois ela mesma via muito pouco. Ela se aventurava a sair apenas muito raramente e quando deixava a segurana da casa, se restringia estritamente aos limites de Khair Khana. Os lugares mais distantes que ela havia ousado ir eram as lojas em torno do centro comercial do Liceu Myriam - assim chamado por sua proximidade com a escola secundria que levava esse nome - onde podia encontrar tudo, de comida a tecidos, inclusive o obrigatrio e agora onipresente chadri. Nenhuma das mulheres que Kamila via andando pelo estreito labirinto de estandes e lojas do Liceu Myriam esmolava; elas simplesmente estavam comprando as coisas de que necessitavam o mais rpido possvel enquanto evitavam as patrulhas do Amr bil-Maroof, que as puniriam simplesmente por falarem alto demais ou vestirem roupas feitas com tecidos que farfalhavam. Mesmo que elas no estivessem se sentindo muito nervosas ou com medo de serem pilhadas pelos sempre presentes soldados do Talib, elas no tinham por que se demorar por ali, uma vez que no podiam ver muita coisa atravs do retngulo entranado de seu chadri. Rir em pblico era tambm proibido, mas havia pouco risco de violar tal proibio naqueles dias. Em Cabul, todo prazer de fazer compras tambm havia desaparecido.

A interao entre os vendedores do sexo masculino e as compradoras do sexo feminino era monitorada de perto. As mulheres falavam o mnimo possvel enquanto escolhiam e pagavam suas compras. At mesmo perguntar sobre como ia sua famlia, o que era uma regra de boa educao na sociedade afeg, podia despertar suspeita e atrair a ateno dos talibs. Os costureiros homens no podiam mais tirar as medidas das mulheres para confeccionar seus vestidos, uma vez que isso poderia lev-los a ter pensamentos imorais e era uma violao da total segregao que o Talib impunha entre homens e mulheres que no fossem casados ou membros da mesma famlia.

Andando pelo centro comercial Liceu Myriam, Kamila notou outras mudanas nas lojas de sua preferncia. No se tocava mais msica animada e as fotos das estrelas do cinema indiano haviam desaparecido. At mesmo as fotografias de mulheres sorridentes exibindo caros vestidos paquistaneses haviam desaparecido das paredes das lojas de costura. E poucos eram os vestidos de luxo que restavam nas butiques; com a economia implodindo, as mulheres em geral trancadas em suas casas e as mulheres ricas de Cabul aproveitando a oportunidade para fugir, o mercado de roupas finas e caras simplesmente evaporou.

Cabul era agora uma outra cidade. A situao no perodo Mujahideen havia sido grave, mas a cidade nunca havia estado to abandonada e despojada de toda a esperana.

Com a chegada do inverno, a situao da cidade piorou. Os preos de gneros alimentcios como farinha e leo subiam a cada ms, e para a maioria das famlias que conseguia apenas sobreviver, eles estavam cada vez mais fora de seu alcance. A me de Kamila se esforava para que seus sete filhos tivessem supridas suas necessidades bsicas de comida e vesturio, mas como todos ao seu redor, a manuteno da casa mal estava dando para o gasto. Kamila sentia a enorme presso que pesava sobre sua famlia e todos os dias passava horas tentando encontrar maneiras de poder ajudar. Ela tinha certeza de que as coisas no podiam continuar como estavam, com oito pessoas dependendo da pequena renda vinda do apartamento alugado e de suas minguadas economias. Alm de comida, eles precisavam de livros e material escolar para Rahim, o nico da famlia que podia continuar indo  escola. Eles tambm precisavam comprar lenha para a lareira bukhari que aquecia a sala de estar e leo para os lampies. Najeeb, o mais velho dos dois garotos, estava em melhores condies de ajudar a famlia, mas com as coisas piorando, sua segurana estava cada vez mais em risco. E, alm do mais, no havia como encontrar emprego em Cabul.

Pouco tempo depois, Najeeb e sua me decidiram que ele teria que ir para o Paquisto juntamente com muitos outros rapazes de famlias conhecidas dos Sidiqi. Se no conseguisse encontrar trabalho no Paquisto, ele iria para o Ir e mandaria seu salrio para casa assim que pudesse. Mas era impossvel saber quando isso ocorreria. Dezenas de milhares de refugiados j haviam atravessado a fronteira. Kamila e suas irms ouviam incontveis relatos sobre as dificuldades que eles enfrentavam para encontrar trabalho e lugar para morar. A maioria deles se amontoava em campos de refugiados onde famlias competiam por ajuda de uma organizao j sobrecarregada que lutava com dificuldades para manter seus programas que ofereciam assistncia mdica, escola e trabalho.

A famlia Sidiqi estava precisando de ajuda imediata. Se ela conseguisse elaborar um plano que lhe possibilitasse ganhar dinheiro enquanto, seguindo as ordens do Talib, continuasse entre as quatro paredes de sua casa - Kamila pensava -, ela aliviaria a presso sobre Najeeb e seu pai. Ela sentia o quanto sua famlia precisava de sua ajuda e ela teria de encontrar uma maneira de fazer a sua parte. A Dra. Maryam, que alugava o apartamento dos Sidiqi e o usava como consultrio, havia conseguido fazer isso; como mdica, apesar das restries impostas, ela ainda podia exercer a medicina. Desde que no entrasse nenhum homem em seu consultrio e que todos seus pacientes fossem mulheres, o Talib no fazia nenhuma objeo a ela continuar com sua clnica.

 algo assim que eu tenho de encontrar, Kamila pensava consigo mesma. Eu preciso descobrir algo que possa fazer em casa, atrs de portas fechadas. Preciso achar alguma coisa que as pessoas necessitem, algo til que elas queiram comprar. Ela sabia que tinha poucas opes. Apenas as necessidades bsicas importavam naquele momento; ningum tinha dinheiro para comprar qualquer outra coisa. Dar aulas poderia ser uma opo, mas com pouca probabilidade de lhe render dinheiro suficiente, uma vez que a maioria das famlias mantinha suas filhas encerradas em casa por medo de arriscar a segurana delas. E ela, certamente, no queria uma renda que dependesse do agravamento de sua situao de insegurana.

Kamila passou longas horas, de muitos dias, considerando suas opes, avaliando quais habilidades ela poderia aprender rapidamente e que tambm pudessem render dinheiro suficiente para fazer uma diferena em sua famlia. E ento lhe ocorreu a ideia, inspirada em Malika, sua irm mais velha, que, alm de ser uma tima professora, havia se tornado, depois de muitos anos de empenho, uma talentosa - e cobiada - costureira. As mulheres, suas vizinhas no bairro de Karteh Parwan, adoravam seu servio de tal maneira que a renda obtida com os trabalhos de costura era quase a mesma que seu salrio de professora.  isso a, Kamila decidiu. Eu vou ser costureira.

Havia muitos aspectos positivos: ela poderia fazer o trabalho na sala de sua casa, suas irms poderiam ajudar e, o mais importante de tudo, ela havia visto com os prprios olhos, no Liceu Myriam, que o mercado de roupas continuava fortemente ativo. Mesmo com o Talib no poder e a situao econmica se agravando, as mulheres continuavam necessitando de roupas simples. Desde que ela trabalhasse em surdina para no atrair atenes desnecessrias, os riscos poderiam ser administrados.

Havia apenas um grande obstculo no caminho de Kamila: ela no fazia a mnima ideia de como se costurava. At ali, ela havia se concentrado em seus livros e estudos e jamais havia demonstrado qualquer interesse em costura - mesmo sua me sendo uma exmia costureira, arte que havia aprendido quando jovem, com sua prpria me, l no norte. Quando adolescente, a Sra. Sidiqi confeccionava todas as roupas que ela mesma usava e, mais tarde, havia ensinado Malika, quando a jovem, em seu tempo de colgio, havia se defrontado com sua primeira tarefa de costura. Agora que o Talib havia banido as mulheres das salas de aulas, Malika estava considerando de novo a possibilidade de dedicar-se  costura por tempo integral, especialmente aps o negcio de transporte de seu marido ter sofrido perdas considerveis sob o novo regime.

Malika, Kamila sussurrou para si mesma: Com certeza, ela pode me ensinar. Ningum  to talentosa quanto ela...

Alguns dias depois, Kamila ps-se a caminho da casa de Malika no bairro de Karteh Parwan. Encoberta com seu prprio chadri, ela dirigiu-se ao ponto de nibus sob o sol da manh. Ela no tinha conseguido avis-la de sua visita, para que a esperasse, mas naqueles dias era difcil que qualquer uma de suas irms no estivesse em casa; a vida tinha passado a ser dentro de casa. Como Rahim estava na escola, Kamila foi sozinha, sem a companhia de um mahram, e foi com o corao acelerado que ela percorreu as poucas centenas de metros at a esquina. A cidade parecia que havia sido evacuada. Kamila seguiu de cabea baixa e rezando para que ningum a percebesse.

Felizmente, ela teve que esperar pouco tempo at que o nibus azul e branco surgisse, se arrastando rua abaixo, e parasse com um forte estremecimento. Kamila percebeu imediatamente que, como tudo mais em Cabul, havia algo de diferente no veculo. No lhe fora permitida a entrada pela porta da frente, como era normal, mas fora obrigada a entrar por uma porta nos fundos que ia dar num compartimento separado para as mulheres. Um velho patoo, cobertor de l que muitas vezes servia para encobrir os homens, estava pendurado de qualquer jeito numa corda, mal escondendo as mulheres nos fundos, separadas dos homens que iam sentados na frente com o motorista. Ao entrar no nibus, um menino pegou o dinheiro da mo de Kamila para pagar sua passagem; meninos de sua idade eram os nicos do sexo masculino que podiam ainda ter contato com mulheres que no fossem de sua prpria famlia.

Enquanto o nibus se arrastava pela rua principal de Khair Khana, Kamila ia olhando pela janela. Quase no havia carros circulando na rua, apenas poucas pessoas, na maioria homens, que se amontoavam no frio para tentar vender o que suas famlias ainda possuam. Seus utenslios estavam sobre cobertores sujos espalhados nas caladas das ruas: cilindros de borracha de velhas bicicletas, bonecas desgrenhadas, sapatos usados sem cadaro, jarros de plstico, panelas e caarolas e montes de roupas usadas. Qualquer coisa que eles tivessem e achassem ter alguma serventia para outros. Os Mujahideen armados no mais guarneciam o posto de controle no anel virio que demarcava a divisa entre seu bairro e o de Khwaja Bughra; em seu lugar, grupos de talibs empunhando suas metralhadoras Kalashnikov guardavam o cruzamento.

Dentro do nibus, as mulheres comentavam aos sussurros o desespero crescente que imperava em Cabul.

A situao nunca foi to ruim para ns, uma mulher disse. Kamila no podia ver nada de seus rostos; tudo que elas tinham eram vozes, que soavam um pouco abafadas encobertas pelo chadri. No sei o que vai ser de ns. Meu marido perdeu o emprego e minhas filhas esto em casa comigo. Talvez a gente v para o Paquisto, mas no  possvel prever se as coisas iro ser melhores l.

Uma mulher, sentada  frente, respondeu em voz baixa, balanando a cabea de um lado para outro enquanto falava. Ela parecia muito cansada.

Vocs sabem, meu marido foi para o Ir e agora eu receio que eles mandem meu filho para as linhas de frente. O que vai acontecer com meus filhos? No sobrou ningum para nos ajudar. Tudo ficou muito difcil.

Kamila ouvia as queixas daquelas mulheres. Finalmente, quinze minutos depois, o nibus chegou a Karteh Parwan.

Depois de desembarcar do nibus, ela desceu a rua principal de Karteh Parwan at a travessa estreita onde morava Malika. Ao chegar ali, ela respirou profundamente, pela primeira vez, depois de sair de Khair Khana. Ela no havia se dado conta do quanto estava nervosa. Depois de passar por uma fileira aps outra de casas de um e dois andares, finalmente ela chegou  frente da casa de Malika, um sobrado branco. Malika e seu marido moravam na parte trrea e a famlia de seu cunhado no andar de cima.

Kamila bateu  porta de madeira e dentro de poucos segundos se sentiu calorosamente acolhida pelo forte abrao de sua irm mais velha. Kamila se sentiu profundamente aliviada ao entrar na sala que lhe era to familiar.

Entre, entre. Estou muito feliz com sua vinda aqui. Que tima surpresa! Malika disse, ao beijar a irm em ambas as faces. Sua barriga estava enorme; Kamila percebeu que o beb chegaria em breve. Voc teve algum problema para vir at aqui? Ouvi dizer que as patrulhas esto atuando com muito rigor. Voc tem que tomar muito cuidado ao sair.

Oh, no, correu tudo bem, Kamila respondeu, colocando de lado os medos que viera sentindo, at apenas um minuto antes. No havia necessidade de deixar Malika ainda mais preocupada do que j estava. Sua irm mais velha havia sido como uma me para as crianas menores da grande famlia Sidiqi; ela havia ajudado a criar todas as sete irms mais novas, alimentando-as e preparando-as diariamente para irem  escola, uma vez que sua me vivia ocupada tendo que tomar conta dos onze filhos, do marido e da casa. O nibus estava lotado de mulheres, todas falando sobre como as coisas esto difceis.

As duas irms sentaram-se diante de seus copos de chai fumegante e uma bandeja de nozes e de biscoitos amanteigados. Kamila contou para Malika tudo que estava acontecendo em sua casa, inclusive sobre a partida iminente de Najeeb e suas preocupaes com a situao financeira da famlia. Ento, depois de um momento em silncio, Kamila falou sobre o motivo de sua visita.

Malika Jan, ela disse, eu preciso de sua ajuda.

Ela contou para sua irm como havia explorado todas as ideias que tinha conseguido imaginar sobre como ganhar dinheiro para ajudar sua famlia, sobre o quanto ela queria encontrar uma maneira de sustent-los e facilitar as coisas para seu pai e sua me.

Malika, acho que se eu soubesse costurar, poderia comear a fazer roupas em casa e talvez vend-las para as lojas do Liceu Myriam.

Malika ouviu atentamente tudo que sua irm tinha para dizer.

Voc poderia me ensinar a costurar? Kamila finalmente perguntou.

Malika continuou em silncio, avaliando a ideia de sua irm. Ela tambm tinha ouvido falar de mulheres que, longe da vista do Amr bil-Maroof e dos vizinhos bisbilhoteiros, costuravam vestidos ou faziam mantas de tric em suas casas para ganhar dinheiro e poder sustentar suas famlias. A necessidade estava transformando aquelas mulheres em empreendedoras. Sem possibilidade de encontrar trabalho e sem nenhum empregador disposto a contrat-las, elas estavam abrindo seus prprios caminhos, criando negcios que as ajudariam a sustentar seus filhos.

Malika ficou preocupada com o fato de sua irm se dispor a enfrentar tais riscos, mas ela sabia que a famlia estava necessitada de uma renda. Era a melhor opo que Kamila tinha.

Sim,  claro que vou ajudar, ela disse. Tenho certeza de que voc vai aprender rapidamente; voc sempre aprendeu tudo com facilidade, desde que era pequena!

Mas sob certas condies.

Voc ter que seguir minhas regras, Kamila. E a primeira delas : nunca sair de casa sozinha, como voc fez hoje. Voc ter que vir acompanhada de Najeeb ou de algum outro homem. E no pode nunca estar na rua nas horas das preces -  quando os soldados patrulham as lojas e  muito perigoso.

Kamila ouviu com ateno e concordou com tudo que sua irm disse.

Nada de falar com estranhos, nunca, nem mesmo com mulheres, porque nunca se sabe quem pode estar escutando. Ou, se por algum motivo, algum queira denunci-la. E, acima de tudo, voc jamais poder ser vista falando com qualquer homem que no seja um de nossos irmos, em especial os donos de lojas. Voc tem que admitir que os talibs esto sempre de olho e que voc nunca  invisvel para eles. Voc ter que estar sempre muito atenta a cada segundo que passar fora de casa, certo?

Com certeza, Kamila disse. Voc est certa. Eu queria que um de nossos irmos viesse comigo hoje, mas ambos estavam muito ocupados. Eu prometo que daqui em diante vou tomar extremo cuidado.

Malika olhou para ela com cara de quem no estava convencida. Ela no tinha certeza de que sua irm voluntariosa era capaz de parar alguma vez para pensar nas consequncias depois que colocava sua mente em algo.

 verdade, eu prometo, Kamila repetiu ao perceber que sua irm estava hesitante. Eu no quero violar as leis nem causar problemas para ningum; eu simplesmente preciso trabalhar para ajudar a nossa famlia. Estou ficando louca de no fazer nada. Eu tenho que voltar a ser til.

Malika percebeu que era intil contrariar sua irm, por mais preocupada que estivesse. Malika percebeu pelo tom de absoluta certeza na voz de Kamila que ela, de qualquer maneira, j havia decidido seguir em frente com seu plano - com ou sem sua ajuda.

Muito bem, Malika disse, removendo o ch e os petiscos da mesa de madeira. Ela se moveu como algum que no tinha tempo a perder. Vamos comear.

Kamila seguiu sua irm at a rea de costura, que ficava bem ao lado da sala de estar. Malika havia arranjado aquele pequeno espao de trabalho alguns anos antes e ele havia se tornado seu prprio refgio particular de tranquilidade em meio ao barulho e risadas de seus dois meninos. Havia um par de calas femininas de cor escura e vestidos quase prontos espalhados, aqui e ali, sobre cadeiras e cantos da mesa. Malika estava fazendo um terninho para uma vizinha, ela explicou para a irm.

Havia trs pequenas mquinas dispostas sobre a mesa de costura. Malika usava uma delas para fazer a bainha das roupas, especialmente das peas que eram feitas de tecido grosso. Outra era para bordar. Mas a que ela usava com mais frequncia era uma maquininha leve de cor bege, movida por um pedal preto que ficava no cho, embaixo da mesa, com a qual ela podia fazer ziguezague e mais de uma dezena de diferentes tipos de ponto.

Pegando uma tira de tecido azul-cobalto que estava encostada contra a parede, Malika comeou a explicar para Kamila como fazer um vestido simples ornado com contas.

Primeiro, voc comea cortando o tecido, ela disse.

Sem parar de falar, Malika pegou um par de tesouras para tecido de uma prateleira prxima que estava repleta de instrumentos de costura: fita mtrica, agulhas e dezenas de carreteis de linhas de diferentes cores. Uma coluna enfumaada de luz solar da tarde entrava na sala vinda do ptio, provocando reflexos na tesoura de metal. Malika manejava a tesoura numa linha perfeitamente reta contra o tecido que estava cortando.

Ela pegou uma chapa de plstico na forma de uma flor que estava sobre sua mesa de trabalho e colocou-a contra a extremidade superior do tecido cortado. Com um marcador de ponta fina, ela contornou a forma das ptalas, inclinando o tecido para mostrar a Kamila o que estava fazendo. Em seguida, ela enfiou a pequena agulha prateada atravs dos furos perfeitamente uniformes da chapa para perfurar o tecido que estava embaixo. Posteriormente, os pequenos furos seriam preenchidos com contas.

Malika era uma professora nata. Enquanto prosseguia, ela explicava em detalhes para sua irm cada passo que dava, demonstrando sua tcnica com movimentos lentos e deliberados. Sua aprendiz acompanhava atentamente a lio e, sempre que podia, realizava ela mesma o procedimento com a esperana de que assim seria mais fcil lembrar de tudo que Malika estava lhe ensinando. Hoje eu me arrependo de no ter prestado mais ateno quando nossa me ensinou voc a costurar, Malika Jan! ela exclamou.

Logo, Kamila estava apta a pregar as contas. Juntas, ela e sua irm, costuraram  mo as minsculas pedrinhas perfuradas sobre a flor at o vestido ter um floreado amarelo com pequenos espaos de azul no centro.

Em seguida, Malika retornou ao acabamento da pea e anunciou que Kamila estava apta a aprender a usar sua preciosa mquina de ziguezague. Malika demonstrou a ela como se colocava linha na mquina e como ela devia se sentar, numa postura confortvel na cadeira. Em poucos minutos, Kamila j estava movendo habilmente o pedal.

Est vendo? Voc  uma aluna muito aplicada, exatamente como eu esperava, Malika disse, enquanto elas trabalhavam no acabamento do terninho. Kamila sorriu e as duas riram juntas; depois de trs horas de total concentrao, ela finalmente relaxou. Era maravilhoso voltar a trabalhar e ela estava to empolgada por estar aprendendo uma nova habilidade que poderia muito bem se tornar a corda de salvao de que ela tanto necessitava. Malika concluiu a primeira aula a sua irm, mostrando como finalizar a costura nas barras da saia e das mangas. Quando a mquina finalmente silenciou, elas tinham diante de si um lindo vestido azul com uma flor feita de contas, junto da linha do decote, que seria suficientemente elegante para qualquer ocasio, inclusive o casamento prximo de uma prima em Cabul. Kamila se sentiu orgulhosa de seu trabalho e - admitiu apenas para si mesma - um pouco maravilhada por ter ajudado a fazer um traje to bonito.

Mas no havia muito tempo para as irms se regozijarem com o sucesso alcanado; a tarde havia passado muito rapidamente e logo anoiteceria. Malika dobrou cuidadosamente o novo traje e colocou-o numa sacola plstica enquanto Kamila segurava seu chadri. Com a vigncia do toque de recolher, elas tinham que se apressar para que Kamila fosse logo para o ponto de nibus de maneira a chegar em casa em Khair Khana antes de escurecer. Sem a companhia de um mahram, Kamila corria mais risco de ser parada. Quanto mais cedo estivesse em casa melhor.

Malika, muito obrigada por toda a sua ajuda, Kamila disse, ao se despedir com um abrao de sua irm mais velha, na porta que ela havia se sentido to grata ao chegar, apenas algumas horas antes. Voc sempre cuida to bem de todos ns!

Malika estendeu a mo atrs de si para pegar uma folha dobrada de papel branco, que deu a Kamila. Dentro dela havia uma pilha de notas coloridas de afeganes.

Este dinheiro deve ser suficiente para ajudar voc a comprar tecidos e materiais para comear, Malika disse.

Kamila deu um abrao apertado em sua irm. O dinheiro era um presente incrivelmente generoso naquela hora.

Vou pag-lo de volta assim que puder. Prometo que no vai demorar muito, ela disse para sua irm.

No nibus de volta para casa, Kamila levava a sacola preta de plstico, apertada contra seu corpo, embaixo do chadri. Dentro dela estava o terno azul dobrado, a primeira pea de roupa que ela havia feito em sua vida. Ela no via a hora de poder mostr-lo a Saaman, e a todos os demais da famlia, quando chegasse em casa.

Ao entrar correndo em casa, agradecida a Al por ter chegado s e salva, Kamila ouviu os sons da conversa animada de suas irms na sala de estar. Sua me estava sentada com elas, sorrindo.

Kamila chegou bem na hora de ouvir a boa notcia.

Finalmente, havia chegado uma carta do Sr. Sidiqi; um primo que havia acabado de voltar de Parwan entregara a carta a Najeeb. A mensagem estava escrita num fino papel usado que j estava ficando amarelado.


Graas a Al, cheguei a Parwan. A guerra continua, mas estou bem. Em breve, e com a graa de Deus, eu verei vocs aqui.


Kamila avistou lgrimas brotando dos olhos de sua me ao ler a carta e viu-a profundamente aliviada das preocupaes que vinha mantendo em silncio por tanto tempo. A Sra. Sidiqi dobrou a carta, formando com ela um quadrado que colocou sobre a mesinha de madeira na sala de estar. Em seguida, ela retornou ao jantar da famlia. Em breve, ela iria para Parwan e logo depois Najeeb partiria em viagem para o Paquisto.



O plano conquista o mercado

Oh, que lindo! Saaman exclamou, segurando o traje azul em suas mos, maravilhada diante do trabalho de Kamila.  maravilhoso, especialmente o bordado de contas. E em seguida: O que voc vai fazer com ele?

Vou vend-lo, Kamila respondeu, com um largo sorriso. Amanh, vou lev-lo ao centro comercial Liceu Myriam e mostrar aos lojistas de l o que ns somos capazes de fazer. Vou ver ser consigo algumas encomendas das lojas.

Por que voc? E por que l? Saaman perguntou. Seus olhos castanhos-escuros aumentaram de tamanho quando, com sua imaginao, ela visualizou os piores cenrios possveis. No d para outra pessoa vend-lo por voc? Voc sabe como andam as coisas no momento; voc pode ser espancada ou ir parar na cadeia simplesmente por estar fora de casa na hora errada. Quem sabe o que pode acontecer sem o papai aqui para ajudar se algo der errado...

A voz de Saaman foi diminuindo enquanto esperava uma resposta de sua irm - mas ela sabia o que estava por vir. Todo mundo na famlia sabia que Kamila no era facilmente demovida de algo; todo o cl dos Sidiqi conhecia bem sua fora de vontade e determinao. Quando enfiava uma ideia na cabea ningum conseguia demov-la, por mais perigo que ela envolvesse. A sua permanncia no [Instituto] Sayed Jamaluddin era um exemplo perfeito. Suas irms mais velhas haviam implorado para que ela no fosse s aulas durante os anos da guerra civil, quando bombas eram despejadas sobre Cabul. Simplesmente era arriscado ir  escola. Mas Kamila havia insistido que era seu dever para com sua famlia concluir seus estudos e que sua f ajudaria a proteg-la. No final, ela havia conseguido o consentimento do pai para continuar frequentando a escola, diferentemente de muitas outras garotas cujos estudos foram interrompidos pela guerra. Afinal, fora ele quem lhe ensinara que estudar era essencial para o futuro - tanto seu prprio como o de seu pas.

Como Saaman esperava, Kamila no tinha nenhuma inteno de desistir de seu plano, mas prometeu tomar todas as precaues que Malika tanto havia insistido: ela ficaria longe do Liceu Myriam durante os horrios das preces e no falaria com ningum que no fosse conhecido. Ela adotaria Rahim como seu mahram. Alm do mais, ela perguntou a suas irms: Quem poderia ir se no fosse ela? Com seu trabalho, ela estaria prestando ajuda  sua famlia, o que, no islamismo, era uma obrigao sagrada. E ela acreditava firmemente que sua proteo e segurana seriam garantidas por sua f.

Com Kamila no havia discusso. Saaman guardou ento suas preocupaes atrs de uma ladainha de perguntas.

Por onde voc vai comear? ela perguntou. Que tal tentar a oficina de costura de Omar, l no centro comercial? Ou, quem sabe, seria melhor comear por aquela loja que costumamos frequentar, na principal fileira de casas comerciais, onde conhecemos as pessoas?

Eu ainda no sei. Vamos ter que esperar para ver. Kamila respondeu, tentando se mostrar destemida diante dos riscos envolvidos na segunda fase de seu novo empreendimento: encontrar donos de lojas que se mostrassem dispostos a fazer negcios com ela. Vou comear com uma ou duas lojas do centro comercial; talvez eles se interessem.  possvel que algum se interesse. Olha s como este traje  lindo!

Kamila colocou o traje diante de si, at os ombros, enquanto falava. Por apenas um instante, ela deixou sua imaginao correr livremente, visualizando a mulher que viesse a us-lo algum dia, numa ocasio especial. Mas, imediatamente, ela se obrigou a voltar para o assunto em questo.

Malika me falou que, se ns conseguirmos encomendas regulares de alguma loja, ela nos ajudar com mais modelos, Kamila disse, voltando a dobrar o traje azul e coloc-lo de volta na sacola de plstico que estava a seu lado, no cho da sala onde todas elas estavam sentadas. Ns podemos construir um imprio de costura, o das Irms Sidiqi!, ela acrescentou, encantada com o som daquelas palavras.

Kamila Jan, eu sei que voc sabe o que est fazendo, mas, por favor... Laila, a mais jovem das garotas na sala, havia escutado em silncio a conversa das irms. Ela as via com uma mistura de admirao e temor; com quinze anos de idade, ela estava acostumada a ouvir as irms mais velhas discutirem seus planos, mas os riscos que elas enfrentavam nunca haviam parecido to grandes - ou to prximos. Os anos de domnio Mujahideen com certeza haviam sido arriscados, mas naquela poca a violncia ocorria ao acaso. Agora, todo mundo sabia dos riscos que os esperava, bem ali do lado de fora da porta de suas casas; o que era difcil de prever eram as consequncias. Se Kamila fosse flagrada conversando com um comerciante, ela poderia simplesmente ser repreendida, levada para a rua e espancada ou, na pior das hipteses, ser presa. Tudo dependia de quem a flagrasse. E ento, como ficariam elas todas? Kamila era a mais velha e, naquele exato momento, a responsvel pelo irmo e pelas quatro irms que continuavam em casa.

Najeeb havia deixado a casa da famlia em Khair Khana, duas semanas antes, numa ensolarada manh de inverno. Ele havia levado consigo apenas uma pequena sacola de vinil com algumas mudas de roupa e alguns artigos de toalete; tudo mais de que precisasse, ele encontraria no Paquisto; e ele no estava a fim de arriscar perder tudo que lhe era importante durante a viagem para l. Ele havia deixado seus livros em seu quarto e pediu a Kamila que fizesse bom uso deles enquanto estivesse fora.

Quando voc voltar, vai encontrar tudo exatamente no mesmo lugar em que deixou, Kamila prometeu a ele, esforando-se para conter suas lgrimas. Ela queria, com todas as suas foras, mostrar-se forte para seu irmo.

Ele prometera escrever assim que se assentasse no Paquisto.

Naquele momento, algum estava batendo  porta. Era hora de partir.

Kamila o havia acompanhado atravs do ptio em que eles haviam brincado juntos por tantos anos. Ele havia parado por um instante antes de abrir o trinco de metal do porto.

Kamila, cuide bem de todos, sim? Najeeb havia pedido. Eu sei que  muita responsabilidade, mas papai no teria encarregado voc se no tivesse a certeza de que voc  capaz. Eu vou mandar ajuda em breve, assim que puder.

Diante da partida de seu irmo, Kamila acabou cedendo ao pranto. Simplesmente no podia suportar a ideia de Najeeb indo para o mundo sem ela. Quantos perigos seu jovem irmo teria que enfrentar antes que ela voltasse a encontr-lo? E quando seria isso? Dentro de meses? Anos?

Ela ficou parada no porto num longo abrao de despedida.

Que Deus o proteja, ela disse em voz baixa, quando finalmente deixou-o partir e deu um passo atrs para que ele atravessasse o porto. Ela passou a mo no rosto para secar as lgrimas e sorriu para tranquiliz-lo. Ns vamos ficar bem. No se preocupe conosco.

Finalmente, o porto se fechou com uma batida e ele partiu. As meninas ficaram todas juntas, abraadas, olhando sem dizer nada para o porto verde.

Kamila compreendeu que a responsabilidade da casa agora era sua e ela teria que estar  altura.

Muito bem, ela disse, dirigindo-se para suas irms e conduzindo-as de volta para dentro da casa, de quem  a vez de preparar o almoo? Naquela tarde, sem Najeeb para anim-las e as palavras encorajadoras de sua me para ajudar a passar as horas, Kamila entendeu quo desesperadamente suas jovens irms precisavam de algo para se dedicar. No era apenas de dinheiro que elas precisavam, mas, antes de tudo, de um propsito. Ela simplesmente teria de fazer seu negcio de roupas dar certo.




A manh do dia seguinte estava nublada e calma quando Kamila e Rahim iniciaram a caminhada de dois quilmetros at o centro comercial Liceu Myriam. Kamila levava o traje azul dobrado de maneira a formar um quadrado no fundo da bolsa preta que apertava junto ao prprio corpo. Por baixo do chadri, Kamila usava um par de calas escuras largas e compridas at os ps e sapatos baixos de sola de borracha. Ela no queria dar aos talibs nenhum motivo para chamar a ateno durante aquela rpida sada. Ia com a pulsao acelerada e o corao batendo contra o chadri, com uma intensidade imperturbvel.

Com a partida de Najeeb, cabia agora a Rahim ser os olhos e os ouvidos de sua irm. Apesar de ter apenas treze anos, de repente ele havia se tornado o homem da casa e o nico membro da famlia Sidiqi que podia andar livremente pela cidade. Naquele dia, ele era o mahram de Kamila, o acompanhante cuja presena ajudaria a mant-la livre de encrencas com o Talib.

Rahim seguia ao lado de sua irm enquanto eles passavam pelas lojas ao longo da rua principal de Khair Khana. Os dois falaram muito pouco enquanto andavam na direo do mercado. Logo, Kamila viu alguns soldados talibs patrulhando a calada diante deles e rapidamente percebeu que era melhor eles passarem para as ruas adjacentes do bairro, que conheciam muito bem. Ela e Rahim conservavam a vantagem de pertencer quele lugar; como a maioria dos talibs provinha do sul, eles continuavam sendo forasteiros ali na capital. No era incomum o trfego de toda a cidade ter seu curso desviado por soldados que dirigiam seus tanques e caminhes na contramo de ruas de mo nica, s vezes em alta velocidade. Apesar de o Talib governar Cabul, seus guardas ainda no a conheciam.

Kamila guiou seu irmo mais novo atravs das tortuosas e empoeiradas ruas secundrias que iam dar no centro Liceu Myriam. Ele se sentia responsvel pela segurana de sua irm, especialmente agora que seu pai e irmo mais velho estavam longe, e tentava andar alguns passos  frente dela para poder ver o que havia mais adiante deles. Ele continuava achando extremamente estranho ver Kamila totalmente encoberta por aquele chadri; e confessou que no podia imaginar como ela conseguia enxergar a rua  sua frente atravs daquele quadradinho minsculo de seu vu. O frio e o medo mantiveram o ritmo de seus passos acelerado e resoluto.

Kamila no se permitiu pensar nas muitas coisas que poderiam dar errado; ela escolheu manter sua mente focada na tarefa que tinha  sua frente enquanto eles passavam pelas fileiras de casas ao longo das ruas apertadas que estavam cobertas de lama e sujeira. Ela no havia contado a seu irmo o motivo daquela andana incomum, para proteg-lo no caso de eles serem parados. Ela havia deixado para contar depois, quando chegassem mais perto de seu destino. Em outros tempos, sua bolsa preta ia repleta de livros escolares, mas hoje ela levava um traje feito  mo que Kamila esperava ser o comeo de seu novo negcio.

Depois de meia hora de caminhada, Kamila e Rahim chegaram aos limites do centro comercial Liceu Myriam. Atravs de seu chadri, Kamila pde perceber a confuso efervescente de carrinhos de verduras, barracas de roupas e as lojas cujo marrom das fachadas estava totalmente desbotado. A maioria dos moradores de Khair Khana sabia que um punhado de lojas que dava para a rua funcionava como comrcio de fotos e vdeo apenas de fachada, mas como essas atividades haviam sido oficialmente proibidas pelo Talib, no havia nem sinal dos negcios clandestinos que se escondiam por trs de mquinas de xrox e pequenas mercearias. O cheiro de carne sendo preparada impregnava o ar quando eles se aproximaram do imenso centro comercial, que se estendia para o norte por quase um quilmetro. Kamila percorreu com os olhos alguns estandes que vendiam calados e malas de viagem antes de revelar seu plano ao irmo.

Rahim, no diga nada, ela advertiu o irmo. Deixe que eu fale. Se os talibs aparecerem e se surgir algum problema, diga simplesmente que est me acompanhando enquanto fao as compras para a famlia e que iremos para casa assim que terminarmos. Rahim aquiesceu. Assumindo o papel de guarda-costas e protetor, o rapaz seguia bem de perto, no encalo de sua irm. Olhava para a direita e para a esquerda a cada tantos passos, atento a qualquer sinal de encrenca. Juntos, os irmos caminharam para a parte encoberta do Liceu Myriam, um gigantesco shopping totalmente ocupado por estandes e pequenas lojas que vendiam todo tipo de coisas que, em geral, estavam expostas em pilhas desarranjadas, largadas ao acaso sobre mesas e prateleiras: roupas para mulheres, shalwar kameez para homens, roupa de cama e mesa para a casa, montes de chadri e at mesmo brinquedos para crianas. Era uma confuso to desconcertante que para os visitantes de primeira viagem se tornava quase impossvel atravessar. Kamila olhou ao redor e notou algumas mulheres entrando e saindo das tendas que vendiam calados e roupas. Ela no sabia se conhecia alguma delas, pois nenhuma podia ser reconhecida a no ser pelos sapatos que usava. Virando  esquerda, ela caminhou em direo a uma pequena loja trrea com vitrine, logo depois da principal passarela do centro comercial; ali, ela encontrou uma das lojas de roupas que ela e suas irms haviam frequentado por muitos anos. Atravs da porta aberta, ela viu um lojista corpulento atrs do balco. Dali ele tinha uma viso ntida do corredor do lado de fora e podia observar tudo que acontecia por toda a passarela, que ligava as outras lojas  sua. Isso seria importante, Kamila pensou, no caso do Amr bil-Maroof, as temveis foras do Vcio e da Virtude, aparecer enquanto ela estivesse dentro da loja.

Parando por um instante, Kamila ficou esperando na porta at a mulher que estava l dentro pagar suas compras e ir embora. Ento, ela entrou na loja com passos firmes e decididos, esperando que seu nervosismo no fosse percebido por trs de sua aparente confiana. Ela se abaixou, fingindo examinar uma pilha de vestidos dobrados em retngulos bem arranjados dispostos atrs de um mostrurio de vidro; juntos, eles formavam um alegre arco-ris de cores.

Posso lhe ajudar, senhorita? o lojista perguntou. Era um homem de ombros largos, cabelo encaracolado e com uma barriga enorme. Kamila notou que os olhos dele estavam focados em dois alvos ao mesmo tempo: a porta da loja e sua cliente.

Muito obrigada, senhor, Kamila disse com voz baixa, porm firme, ao se erguer para lhe responder. Ela conferiu para ter a certeza de que Rahim estava ao seu lado. Na realidade, eu sou costureira e minhas irms e eu confeccionamos roupas. Eu trouxe uma amostra de nosso trabalho para lhe mostrar. Quem sabe o senhor possa se interessar e querer fazer uma encomenda?

Antes que ele pudesse responder, ela tirou de sua bolsa o traje azul e estendeu-o habilmente sobre o balco de vidro. Suas mos tremiam, mas ela prosseguiu atuando com perfeio. Apontando para o bordado de contas, ela disse:  um lindo traje para ser usado em cerimnias de casamento ou do Eid [Eid ul-Fitr, a celebrao muulmana que marca o fim do jejum do Ramadan], ela disse. As batidas de seu corao ressoavam em seus ouvidos e ela se apoiou no balco para se firmar.

O lojista pegou o traje e comeou a examin-lo mais de perto. De repente, pelo canto de seu olho, Kamila viu se aproximar do balco uma grande figura vestida de azul. O lojista largou o traje azul de Kamila num monte sobre o vidro, mas para seu alvio - e tambm de Kamila - a tal figura era apenas outra compradora acompanhada de seu mahram. Kamila empenhou-se em parecer ocupada enquanto aguardava. Ela no se atrevia a olhar para seu irmo; tinha certeza de que ele estava to nervoso quanto ela. Por que eu tive que nos trazer at aqui? Ela pensou consigo mesma. Tenho sempre tantas ideias, mas talvez eu devesse ter refletido um pouco mais sobre esta...

Enfim a mulher foi embora e o lojista voltou sua ateno para ela.

Uma outra costureira como voc esteve aqui no comeo desta semana, ele disse, falando em voz baixa. Ela tambm ofereceu seus servios de costura para minha loja. Eu nunca antes comprei roupas de mulheres daqui, mas acho que vou ter que comear a faz-lo agora. A situao est difcil para todo mundo e ningum tem dinheiro para continuar comprando roupas importadas.

Kamila sentiu uma pequena onda de excitao. Como ela havia constatado em sua ltima ida ao Liceu Myriam, a maioria dos lojistas no considerava mais valer a pena fazer a arriscada viagem at o Paquisto para comprar um punhado de roupas que apenas algumas poucas mulheres de Cabul podiam comprar. Aquela era a sua oportunidade.

Tudo bem, eu fico com ele, ele disse, colocando o traje de Kamila junto de outra pilha de roupas, ao seu lado, no balco. Voc pode fazer outros iguais a este? Na realidade, eu no necessito de muitos trajes; preciso mais de alguns modelos de shalwar kameez para mulheres, peas mais simples que as pessoas possam usar em seu dia a dia.

Sim, claro que posso, no ser nenhum problema, Kamila respondeu. Ela falou em voz baixa, procurando mant-la inalterada para no revelar a onda de entusiasmo que estava sentindo. E se sentiu grata pelo anonimato que o chadri lhe proporcionava. Podemos fazer quantos o senhor quiser.

O lojista retribuiu o sorriso que no dava para ele ver. Muito bem. Ento, eu vou querer cinco terninhos e trs vestidos. Voc consegue entreg-los at a semana que vem?

Kamila assegurou-lhe que podia. O dono da loja pegou ento rolos de tecidos mistos de polister e rayon de diferentes cores de uma prateleira que estava atrs dele. Usando sua tesoura, ele cortou tecido suficiente para os terninhos que ele havia encomendado e colocou-o dentro de uma sacola que entregou a Rahim. Durante todo o tempo da negociao, Kamila notou que ele estava de olho na porta, atento a qualquer sinal do Amr bil-Maroof. Ele no estava a fim de ser flagrado conversando com uma cliente feminina. Mesmo estando ela acompanhada de seu mahram. At ali, as coisas haviam transcorrido tranquilamente.

Muito bem, ento, nos vemos na semana que vem, ele disse. Meu nome  Mehrab. Qual  o seu, para que eu possa saber quando voc voltar? Como agora todo mundo tinha que usar o chadri, todas as suas clientes pareciam iguais.

De onde saiu sua resposta, Kamila no tinha a mnima ideia. Mas assim que o dono da loja perguntou seu nome, Kamila percebeu que era arriscado demais usar o seu nome verdadeiro.

Roya foi a resposta dela. Meu nome  Roya.

Pegando sua sacola preta de cima do balco, Kamila agradeceu a Mehrab e prometeu que voltaria na semana seguinte. Ela e Rahim deixaram a loja e percorreram o caminho de volta para a rua. Apesar de toda a transao ter levado menos de quinze minutos, para Kamila era como se tivessem passado horas.

Caminhando de volta para a manh cinzenta, Kamila estava a ponto de explodir de tanta excitao. Ela sentia que estava comeando algo muito importante, algo que podia mudar para melhor a vida de todos eles. Ela desejou ardentemente que assim fosse, mas tratou de lembrar a si mesma que devia manter o foco. Nada de me precipitar quando tenho muito que fazer. Vamos simplesmente entregar a primeira encomenda dentro do prazo estipulado. Nada de outras grandes ideias por enquanto.

Venha, vamos para casa contar a novidade para as garotas!

Por todo o tempo que durara a visita  loja, Rahim se mantivera to esttico quanto uma rvore, vigiando sua irm de maneira protetora. Mesmo depois de Mehrab ter feito seu pedido, Rahim tomou cuidado para no deixar transparecer sua emoo. Ele no queria que ningum tivesse motivo para dar mais ateno  transao que estava ocorrendo no interior da loja. Agora que j estavam na rua, ele sorriu para sua irm mais velha e parabenizou-a por ter conseguido sua primeira encomenda. Ele estava muito orgulhoso do trabalho dela.

Eu fiquei muito surpreso quando voc disse a ele que seu nome era Roya, ele confessou. Aquela foi a primeira vez em que eu quase deixei escapar uma risada! Voc  uma tima vendedora, Kamila Jan.

Kamila sorriu levemente por trs de seu chadri.

E voc  um timo mahram, ela disse. Mame ficaria orgulhosa de voc.

Ela os obrigou a caminhar com passos firmes, pois tinham de estar longe do Liceu Myriam quando ouvissem tocar a hora das preces.

Kamila estava se sentindo revigorada; pela primeira vez desde a chegada dos talibs, quatro meses antes, ela tinha alguma coisa a que se dedicar. E algo para fazer. Ela estava voltando para casa com passos saltitantes enquanto Rahim manifestava claramente sua surpresa ante a nova denominao de sua irm. Roya, ele disse. Roya Jan, ele ficou repetindo, para se acostumar ao novo nome, da mesma maneira que ele havia se acostumado a ser o nico homem numa casa repleta de mulheres - todas elas, agora, dependentes dele para quase tudo que necessitavam do mundo exterior.

Enquanto caminhavam, Kamila ia pensando na longa lista de materiais necessrios para a confeco dos vestidos e ternos; linha, contas e agulhas, alm de um espao de trabalho suficientemente grande para elas poderem espalhar os tecidos e ver o que estavam fazendo. Elas teriam que liberar uma parte da sala de estar, ela decidiu. Quando Kamila havia ido  sua casa em Karteh Parwan, Malika havia oferecido generosamente emprestar uma de suas preciosas [mquinas de] ziguezague; agora sua irm mais nova estava tentada a aceitar a oferta. Se elas entregassem a encomenda dentro do prazo e conseguissem novos pedidos, talvez elas pudessem at comprar outra mquina para ser usada por todas. Quem sabe, talvez, um dia, elas teriam trabalho para mais outras garotas da vizinhana que estavam em priso domiciliar exatamente como Kamila e suas irms haviam estado at ali. At l, entretanto, havia um longo caminho a ser percorrido. Por enquanto, a comear naquela mesma noite, elas tinham muita costura para fazer e muito para aprender.


Finalmente, eles cruzaram o ptio rido e entraram correndo dentro de casa. Kamila largou sua sacola preta vazia no cho, perto da porta, e entrou na sala de estar, onde Saaman e Laila aguardavam ansiosamente. As garotas despejaram uma avalanche de perguntas assim que seus irmos entraram na sala.

Kamila assegurou-as de que haviam se sado muito bem e descreveu o caminho que ela e Rahim haviam percorrido pelas ruas secundrias de Khair Khana. No, eles no tinham visto nada de ruim e nem qualquer encrenca e, sim, eles tinham estado com um lojista...

Ela fez uma pausa prolongada para deixar aumentar a expectativa.

Eu tenho uma novidade, ela comeou dizendo, com cara e tom srios.

Ns recebemos uma encomenda!

Um sorriso triunfante se espalhou por todo seu rosto e as garotas irromperam numa sucesso de risadas de alvio.

Oh, isto  maravilhoso, Laila gritou, aplaudindo o trabalho de sua irm. Ela tambm estava cheia de entusiasmo por elas agora finalmente terem uma tarefa importante com que se ocupar. Muito bem, Kamila Jan. Portanto, mos  obra! O que devemos fazer?

Kamila arreganhou os dentes ante a impetuosidade da irm. Ela estava contente por ver suas irms to empolgadas quanto ela e dispostas a comear a trabalhar naquele mesmo instante. Pelo menos, temos energia de sobra, ela pensou, para compensar a nossa total falta de experincia.

Kamila descreveu o pedido de Mehrab e disse s irms que elas teriam que aprender a costurar imediatamente. No vai ser fcil, ela assegurou, mas tenho certeza de que vamos dar conta do recado. Se eu sou capaz de aprender, vocs tambm so!

Com certeza, Kamila, disse Saaman, confiante e bem equilibrada como sempre. Se precisarmos de ajuda, pediremos a nossas amigas.

Ento, muito bem, Kamila respondeu, ns vamos comear a nossa primeira aula de costura aps o almoo. Temos agora, oficialmente, um negcio!

E o nome dela , de agora em diante, Roya, Rahim advertiu suas irms. As meninas olharam ansiosas para Kamila aguardando uma explicao.

Kamila contou a elas toda a histria, explicando que adotara um nome falso para proteger tanto a si mesma quanto a Mehrab, o lojista. Assim, ele no poderia revelar seu nome verdadeiro, se algum dia os talibs o molestassem por conversar, ou, pior ainda, fazer negcio com uma mulher, no centro comercial. Ningum no Liceu Myriam jamais veria o rosto de Kamila encoberto pelo chadri, como tampouco ningum na vizinhana jamais havia ouvido falar de Roya. Ela estava segura, pelo menos por enquanto, e instou suas irms para que lembrassem de cham-la de Roya se algum dia fossem com ela ao mercado. Kamila/Roya ficou aliviada ao ver que suas irms entenderam a necessidade de ela usar um nome falso. E gostou do olhar de respeito que elas demonstraram por ela ter encontrado prontamente uma resposta to inteligente.

Malika teria orgulho dela, Kamila pensou, sorrindo consigo mesma.

A ideia de comear a trabalhar empolgou Saaman e Laila, apesar de elas no saberem como aprenderiam a costurar em to pouco tempo para poderem entregar a encomenda no prazo estabelecido. Como Kamila, Saaman havia se dedicado aos estudos e nunca havia feito qualquer trabalho manual. Ela confessou  irm que estava preocupada com a possibilidade de cometer centenas de erros e pr a perder sua primeira encomenda. Laila demonstrou muito menos hesitao; a adolescente atrevida entendeu que a nica maneira de se tornar uma boa costureira era tentando. Assim como Malika havia lhe mostrado em seu cantinho de trabalho em Karteh Parwan, Kamila comeou ensinando suas irms a cortar o tecido. Laila aprendeu logo, cometendo apenas alguns pequenos erros. Saaman, a mais estudiosa de todas, observava imvel e com o olhar fixo na mo firme de Kamila cortando o tecido.

Vamos l, Laila deu um cutuco em Saaman, no  to difcil, basta voc tentar!

Apesar de animada por ter recebido sua primeira encomenda, Kamila tambm estava nervosa. Naquele momento, ela era a nica que sabia alguma coisa sobre costura, mas no podia ser considerada uma costureira experiente. Ela teria que se sair bem se quisesse prosseguir naquele ramo de negcios.

E ento, muito inesperadamente, como se fosse uma resposta a suas preces, chegou a melhor notcia que ela jamais ousaria pedir.

Kamila, Kamila, voc sabia? Rahim entrou na sala gritando atrs de sua irm. Ela estava sentada no cho, absorta em seu trabalho de pregar uma conta rebelde num pedao de tecido.

Malika vai vir morar aqui. Ela vai chegar aqui amanh!

O que? Kamila perguntou. Amanh? Oh, esta  uma notcia maravilhosa!

Ela deps seu trabalho e suspirou aliviada. Malika sempre havia sido a irm mais velha em quem se podia confiar, aquela que sempre mantivera seus irmos menores longe de encrencas. Exatamente naquele momento, eles estavam precisando de sua mo firme. A prpria Kamila ainda era apenas uma adolescente e estava sendo difcil para ela se concentrar no trabalho ao mesmo tempo em que tinha de ficar de olho nas quatro irms menores, ajudar Rahim em suas tarefas escolares e providenciar para que tivessem comida e combustvel suficientes para manter a casa funcionando.

Sim, Rahim confirmou. Najeeb falou com ela sobre isso antes de partir. Ele achou que seria melhor todos ns morarmos juntos. Ela e Farzan precisaram de um tempo para arranjar tudo, especialmente por causa das gmeas, mas a famlia dele concordou que seria melhor eles virem morar aqui.

As gmeas. Kamila estava adorando a ideia de passar mais tempo com suas sobrinhas recm-nascidas e poder estar com sua irm. E tambm se empolgou com a possibilidade de conseguir retribuir o favor que Malika havia lhe prestado, no ensino da costura, ajudando-a a cuidar dos bebs que haviam nascido prematuros, dois meses antes do previsto. Ela deixou seu assento e foi at o antigo quarto de Malika para comear a esvazi-lo das coisas de suas irms menores.

Toda vez que eu penso que as coisas esto indo mal, algo acontece e ns conseguimos seguir em frente, Kamila refletiu consigo mesma. Papai estava certo; temos apenas que continuar fazendo cada um a sua parte e tudo acaba se ajeitando. Deus est sempre olhando por ns.

Alguns dias depois, as garotas se regozijaram ao verem um dos familiares txis amarelo e branco de Cabul entrando pelo porto verde de sua casa. Malika estava de volta.




Desde a chegada dos talibs, muitos meses antes, a vida havia, de uma hora para outra, se transformado numa sucesso de desafios para aquela mulher que, com apenas vinte e quatro anos, era me de quatro filhos. Suas irms podiam consider-la uma fortaleza, mas Malika e seu marido, Farzan, estavam enfrentando grandes dificuldades tanto financeiras como emocionais. Com as mulheres banidas das escolas, ela no podia mais trabalhar e sua famlia tinha que sobreviver sem seu salrio mensal de professora. E agora, com a situao econmica se agravando dia aps dia e menos mercadorias entrando e saindo de Cabul, a demanda pelos servios de transporte de Farzan havia chegado a quase zero. Em poucos meses, a famlia havia passado de ter duas fontes de renda para menos de uma.

O trabalho de costura de Malika juntamente com uma pequena poupana estava mantendo a famlia. Mas ela se preocupava muito com seus filhos. As poucas semanas de vida que as gmeas tinham elas haviam passado lutando contra infeces. Numa cidade de onde tantos mdicos estavam indo embora e onde a infraestrutura e o sistema de sade pblica haviam sido aniquilados por dcadas de guerra, contagiar infeces era quase uma sentena de morte. Os bebs continuavam minsculos e frgeis, apesar de Malika lev-los  clnica e lutar para pagar os caros medicamentos prescritos. Agora, de volta a Khair Khana, ela viu o quanto a situao era frgil na casa de seus pais e o quanto suas irms - e todos que faziam parte de sua vida - necessitavam dela. Ela estava exausta, mas ainda assim determinada a fazer tudo que o momento exigia: ensinar suas irms a costurar e continuar fazendo o seu prprio trabalho, costurando ternos e vestidos para as clientes que valorizavam seu talento e criatividade. Acima de tudo, ela cuidaria de sua famlia lutando contra as dificuldades. Embora tivesse sido difcil abandonar suas amigas e familiares do marido em Karteh Parwan, ela sabia que seu lugar era ali, em Khair Khana, junto de suas irms.

Quando Malika chegou, as meninas j haviam conseguido terminar a maior parte das roupas de sua primeira encomenda. Os dias haviam transcorrido rapidamente e, logo depois de terem comeado sua nova atividade, elas convidaram Razia, uma vizinha e amiga, para trabalhar com elas. Kamila havia lhe falado do trabalho de costura e Razia tinha se mostrado contente por poder ajudar sua prpria famlia. O pai dela era velho demais para trabalhar e seu irmo mais velho, como o de Kamila, havia sido forado a deixar Cabul por problemas de segurana. Sem nenhuma entrada de dinheiro a cada ms, seus pais mal davam conta de suprir as necessidades de comida e roupas de inverno. As garotas, por sua vez, alegraram-se por disporem de outro par de mos e pela companhia de uma velha amiga em quem podiam confiar. Sentada com suas colegas sobre almofadas na sala de estar, costurando o ltimo traje da encomenda, diante de taas de chai j frio, Razia via as horas passarem depressa. Ela estava feliz por ter algo mais em que pensar que no fossem os problemas de sua famlia. Ela disse para Kamila o quanto estava feliz por poder trabalhar e as duas comearam a trocar ideias sobre como expandir o negcio.

Acho que existem outras lojas de roupas que possam se interessar por nosso trabalho, Kamila disse. Ns temos apenas que encontr-las.

Razia estava disposta a fazer qualquer coisa para ajudar a expandir o negcio de Kamila, inclusive encontrar mais mulheres para ajudar. Eu posso perguntar por a, ela se prontificou, mas apenas para pessoas nas quais podemos confiar,  claro. Com os boatos circulando de que vizinhos denunciavam-se uns aos outros ao Amr bil-Maroof, elas tinham que tomar muito cuidado para no trabalhar com ningum que pudesse passar adiante o que elas estavam fazendo. Kamila sabia que as costureiras de sua equipe no estavam produzindo nada de ilegal de acordo com as regras oficiais, que diziam claramente que as mulheres podiam trabalhar em casa, desde que permanecessem em casa e no se misturassem com homens. Mas ningum estava livre dos seguidores mais fanticos do governo Talib. Qualquer coisa que dissesse respeito ao comportamento das mulheres estava sujeito  interpretao - e  punio - dos jovens soldados que passavam os dias e as noites  procura de quem estivesse cometendo alguma transgresso. At mesmo atrs de portas fechadas, as garotas tinham de ser cautelosas.

Apesar de todos os riscos, Kamila continuava animada com seu trabalho e comeou a planejar sua prxima ida ao Liceu Myriam. As garotas haviam lhe provado na ltima semana que estavam preparadas para responder ao desafio de cumprir mais e maiores encomendas. Quase sem esforo, elas haviam estabelecido uma rotina que, com certeza, permitiria a expanso do negcio recm-nascido. Elas se levantavam entre seis e meia e sete horas da manh, se lavavam e faziam suas oraes antes do caf da manh e, em seguida, acabavam as peas que haviam trabalhado na noite anterior. Mais tarde, pela manh, elas comeavam a conferir os itens que haviam acabado no dia anterior e a cortar tecido para o conjunto seguinte de vestidos e ternos.

Kamila exercia a funo de controle de qualidade, conferindo o resultado do trabalho manual de cada uma para ter a certeza de que cada ponto correspondia ao padro que Malika havia estabelecido. Saaman continuava com receio de cortar sem a superviso de Kamila, que continuava lembrando-a de que ela no precisava, na realidade, de nenhuma ajuda - ela estava aprendendo rapidamente e se tornando uma excelente talhadeira, at melhor do que Kamila. Ao meio-dia, elas paravam para fazer as preces e almoar antes de voltarem para seus alfinetes. Aps as preces e o jantar, elas acendiam o fogo  lenha da bukhari e se sentavam juntas ao brilho alaranjado dos lampies, costurando at altas horas da noite. Pela maior parte do tempo, as garotas trabalhavam em silncio, profundamente absortas em seus trabalhos e totalmente focadas no prazo de entrega.

Como os muros altos que circundavam o quintal de sua casa impediam que algum as visse da rua, Kamila tinha pouco receio de que possveis curiosos ou passantes intrometidos viessem fazer perguntas indesejadas. E com a presena de Malika em casa, ela agora tinha algum a quem recorrer em busca de ajuda se algo desse errado. Ela rezava para que isso nunca chegasse a acontecer.




Logo aps a chegada de Malika, Kamila foi at o quarto da irm para ver como ela estava se acomodando. Ela encontrou Malika arranjando as coisas de seu marido e filhos, num pequeno armrio.

E ento, como voc est? Kamila perguntou.

Oh, ns vamos ficar bem, Malika respondeu, desviando a pergunta. Apesar de ser ainda uma mulher muito jovem, Malika sempre tivera um certo ar de sabedoria de mulher mais velha. Kamila achou-a mais plida e um pouco mais magra do que de costume. Mas ainda assim foi a irm mais velha que tomou a iniciativa para tentar tranquilizar sua irm - e talvez a si mesma - que tudo ficaria bem. Vai ser timo para as crianas estar com todos vocs - estou feliz por estar aqui. Como est indo o seu trabalho?

Bastante bem, mas no to bem quanto se fosse feito por voc!, Kamila respondeu. Eu tenho procurado me lembrar de tudo que voc me ensinou, mas, para ser honesta, a coisa  mais difcil do que eu pensava. Contudo acho que estamos dando conta.

Ela prosseguiu: O que voc acha de darmos uma olhada em alguns de nossos vestidos?

Malika gostou da ideia de fazer uma pausa em todo aquele trabalho de desfazer as malas e guardar as roupas. Em poucos instantes, Kamila havia reunido todas as suas irms mais novas no pequeno quarto com os braos cheios de novas peas. Malika virou cada pea pelo avesso para examinar os pontos e as costuras; em seguida, exps cada traje para que as meninas julgassem suas propores e seu caimento. Saaman e Laila aguardaram em silncio enquanto Malika examinava seu trabalho com ateno minuciosa. Passaram-se muitos minutos antes de ela manifestar sua aprovao.

O trabalho est muito bem feito, ela disse, sorrindo para as meninas. Ela continuava com um vestido de cor clara estendido sobre os cotovelos. Tem algumas coisas que vou mostrar a vocs para que o tornem ainda melhor, mas, no geral, vocs fizeram um excelente trabalho! Kamila, voc tem sido uma tima professora, mas precisa de alguma ajuda com este cinto - podemos trabalhar nele esta tarde.

Na noite seguinte, Kamila terminou os vestidos e terninhos - alguns, agora, com cintos particularmente bonitos - para entregar  loja do Sr. Mehrab. Ela dobrou cada pea com muito cuidado, colocando uma ponta sobre a outra num total de quatro vezes para formar um quadrado perfeito, antes de coloc-lo num saco plstico transparente que ento dobrou e lacrou. Terminado este trabalho, Kamila enfiou as peas dentro de duas sacolas brancas de compras, que colocou cuidadosamente alinhadas ao lado da porta.

Eu acho, sinceramente, que este negcio vai dar certo, Kamila disse  sua irm, enquanto as duas tomavam ch sentadas na sala de estar. Trs dos filhos de Malika haviam ido para a cama algumas horas antes e ela podia, finalmente, desfrutar um momento de calma antes de ela prpria cair na cama aps um longo dia de labuta. As meninas esto trabalhando bem. E  to bom para ns ter este negcio para nos entreter, em vez de passarmos o dia nos sentindo aborrecidas e ansiosas por no termos nada para fazer. Agora  s tratar de receber novas encomendas, amanh no Liceu Myriam. Precisamos de mais trabalho!

Kamila Jan, eu fico preocupada com suas idas ao mercado, Malika respondeu. Uma das gmeas estava com febre e dormia um sono agitado em seu colo. Quanto mais encomendas voc receber, mais voc ter que ir ao mercado e, com isso, tambm aumenta a probabilidade de algo dar errado.

Kamila no tinha como discordar de sua irm. Mas agora que havia comeado a ver as possibilidades, ela no tinha nenhuma inteno de parar. O trabalho delas podia fazer muito bem  sua prpria famlia - e at mesmo para algumas outras da vizinhana. Agora, talvez mais do que nunca, elas tinham de seguir em frente.

Eu sei, ela disse. E deu o assunto por encerrado.




s dez horas da manh seguinte, Kamila saiu para ir at o centro comercial Liceu Myriam com Rahim, que havia ido  escola com seu novo turbante branco e permanecido nela apenas pelo tempo suficiente de constatar que no havia professores para todos os alunos ali reunidos em busca de aulas. Mais da metade dos educadores eram mulheres antes da chegada do Talib; agora que elas no podiam mais trabalhar, seus colegas homens se viravam como podiam para dar conta de educar todos os meninos da cidade e, alm disso, implementar o novo currculo mais focado na religio imposto pelo Talib. Por falta de professores, muitas escolas haviam fechado as portas, mas a escola de Rahim, em Khair Khana, havia continuado aberta e agora estava absorvendo os alunos dos bairros vizinhos. Como todos os garotos de sua classe, Rahim tinha que se dividir entre as obrigaes escolares e as de mahram; ele sabia que a famlia vinha em primeiro lugar e que suas irms precisavam dele em casa.

Para sair com Rahim, Kamila vestiu seu casaco comprido at os ps e levou as sacolas pretas firmemente presas pelas alas. Como da outra vez, eles seguiram pelas ruas secundrias, mas, dessa vez, eles andaram mais rapidamente aps chegarem ao centro comercial. Eles passaram por vrias milcias do Amr bil-Maroof vigiando o mercado; Kamila continuou andando de cabea baixa e bem prxima de seu irmo. Enfim, eles chegaram a seu destino. Kamila procurou se assegurar de que a loja estava vazia e de que no havia nenhuma talib do lado de fora, antes de entrar com seu irmo na loja de Mehrab. Com um suspiro de alvio que s ela mesma pde ouvir, depositou a pilha meticulosamente arranjada de vestidos e ternos, feitos  mo, sobre o balco.

Ol, eu sou Roya, ela anunciou. Este  meu irmo e estamos aqui para entregar sua encomenda, conforme conversamos na semana passada.

Mehrab olhou nervoso para alm de Kamila, de maneira a certificar-se ele mesmo de que no havia ningum vigiando; em seguida, ele contou rapidamente as peas de roupas empilhadas diante de si. Ele tirou um vestido e um terno dos sacos plsticos para conferir a qualidade dos produtos.

Estas aqui esto benfeitas, ele disse, depois de ter passado um instante examinando as peas. So boas, mas se voc fizesse esta costura menor nas calas e acrescentasse mais algumas contas no cinto do vestido, elas ficariam ainda melhores.

Muito obrigada, ela disse. Trataremos de fazer estas alteraes na prxima encomenda. Supondo,  claro, que haveria uma prxima encomenda, ela pensou consigo mesma.

Mehrab abriu uma gaveta embaixo do balco e entregou a Kamila um envelope recheado de cdulas de afeganes, o bastante para comprar farinha e outros gneros alimentcios, suficientes para a famlia passar uma semana. O corao de Kamila palpitou de alegria. Finalmente, ela podia ver o resultado concreto e tangvel de todo o trabalho que haviam realizado e de todos os riscos que tinham corrido. Ela tinha vontade de saltar de alegria e de contar o dinheiro, bem ali, naquele instante. Mas, em vez disso, ela pegou calmamente a pilha de notas de cor azul, rosa e verde e colocou-a no fundo de sua sacola.

O senhor deseja fazer mais alguma encomenda? ela perguntou, tentando no parecer ansiosa. Meu irmo e eu podemos voltar na semana que vem se o senhor quiser algo.

Mehrab disse que queria mais trs terninhos no estilo tradicional. Quanto aos vestidos, ele preferia esperar para ver se os primeiros teriam sada. Kamila agradeceu a ele pelo negcio. Em seguida, ela saiu s pressas para a rua, com o propsito de estar longe do Liceu Myriam muito antes do horrio das preces, como havia prometido a suas irms.

Antes de ter dado cem passos, no entanto, uma pequena rua secundria chamou a ateno de Kamila. Diretamente em frente e para a esquerda, logo depois do caminho de pedra muito usado que ia dar na rua, ela viu uma passarela vermelha e branca.

Rahim, voc acha que  nessa rua que fica a loja que Zalbi mencionou?

Eu no sei, Roya, ele disse, sorrindo da tenacidade de sua irm, mas tenho certeza de que j vamos descobrir!

A maioria dos garotos da escola tinha irms trabalhando em casa e o colega de Rahim, Zalbi, havia lhe falado recentemente a respeito de um amigo da famlia que tinha uma loja de roupas nas proximidades. Ele  um homem muito bom; talvez ele queira comprar suas roupas, Zalbi havia dito. Era importante trabalhar com pessoas dignas e merecedoras de confiana e Kamila estava ansiosa por conhecer o tal lojista. Aquela era uma hora to boa quanto qualquer outra, ela pensou, esperanosa. Alm do mais, se aquela era mesmo a rua, seria muito difcil localiz-la a partir da rua principal, e isso facilitaria um pouco as encomendas e as entregas. Olhando de um lado para outro para ver se no havia ningum prestando ateno neles, Kamila desceu com seu irmo a passarela em busca de um novo cliente.



Surge uma nova ideia...
 mas ser que vai dar certo?

Quando entraram naquela larga passagem, Kamila e Rahim deixaram para trs toda a agitao do centro comercial. Kamila reduziu o ritmo de seus passos e deu a si mesma um momento para desfrutar a tranquilidade que reinava ali, naquela travessa, depois da meia hora tensa que havia passado tentando fazer com que ela e o irmo fossem invisveis, bem no corao do centro comercial Liceu Myriam. Ela se sentiu agradecida pelo silncio que reinava ali, na calada daquela pequena rua vazia.

Enquanto andava, Kamila ia olhando para as vitrines de cada lado da rua, descobrindo quais as lojas que vendiam tecidos, utilidades domsticas e calados. Em quase todas, no havia ningum comprando. Quase no final da estreita fileira de lojas de rua, eles finalmente chegaram a uma modesta butique de roupas com vitrines compridas e estreitas que davam para a calada. Uma coleo de vestidos femininos, bem arranjados, um ao lado do outro, formava um arco-ris que cobria as paredes internas da loja. O nome Sadaf estava pintado  mo numa placa marcada pelo tempo, acima da porta de entrada.

Acho que  esta, Rahim disse.

Kamila assentiu.

Deixe que eu fale, ela disse. Se ele no parecer algum digno de confiana, ns simplesmente damos o fora, certo?

Kamila estava nervosa quando eles entraram na pequena loja desgastada. Ela se esforou para distinguir os detalhes da loja entre as sombras do final da manh sobre suas paredes brancas e piso gasto. Como na maioria das casas comerciais de Cabul, na Sadaf tampouco havia luz eltrica, e para sua iluminao ela contava com a luz do sol que se infiltrava para o seu interior durante as horas do dia.

Lutando com seus temores, Kamila ficou parada por um instante na entrada, apertando o trinco da porta, mas logo tratou de lembrar a si mesma que todos em sua casa estavam contando com ela.

Eu no posso ter medo, ela pensou. Estou fazendo isto por minha famlia e Al vai ajudar a nos manter em segurana.

Quando a porta se fechou com uma batida atrs dela, o dono da loja que estava atrs do balco olhou para ver quem era. Ele estava dobrando vestidos longos e calas folgadas de pernas largas como as que Kamila havia visto na vitrine. As roupas dali estavam entre as mais bonitas que ela havia visto, desde o incio da era Talib. O estoque da Sadaf estava plenamente de acordo com a era em vigor. O dono da loja era jovem, talvez da mesma idade de Kamila, com uma barba espessa encobrindo seu queixo afilado. Seus olhos reluzentes revelavam uma pessoa de extrema bondade.

Bom dia! ele disse. Em que posso ajud-la, irm? Quer ver alguma coisa?

Ele se mostrou extremamente bem-educado - muito mais do que Mehrab. Kamila sentiu sua confiana voltar.

No, obrigada, senhor, Kamila comeou. Meu nome  Roya; minhas irms e eu somos costureiras aqui em Khair Khana. Este  meu irmo e ele est nos ajudando. Zalbi, um amigo dele,  amigo de sua famlia e ele sugeriu que procurssemos o senhor. Ns estamos buscando trabalho e ficaramos muito contentes se pudssemos fazer roupas para sua loja, se for de seu interesse.

Meu nome  Ali, ele se apresentou, estendendo a mo para Rahim. Muito prazer em conhec-los. Eu gostaria muito de ver seus trabalhos, se trouxeram algum. Meu irmo e eu estamos procurando costureiras que possam fazer roupas para ns.

A julgar pelo fato de ele ter estabelecido sua loja em Khair Khana, um subrbio amplamente ocupado por tajiques, onde moravam muitas famlias vindas de Parwan e Panjshir, somado a entonao de seu sotaque levemente somali, Kamila concluiu que os pais de Ali, assim como os seus, provinham do norte. O fato de eles estarem conversando em dari, a lngua persa falada nas regies do norte, e no em pashto, a lngua tradicionalmente falada no sul de maioria pashtun, a deixou ainda mais certa disso.

Espero que sua famlia esteja bem, Kamila disse. Meu irmo, minhas irms e eu estamos trabalhando para nos sustentar enquanto nossos pais estiverem no norte. Meu pai est em Parwan e nosso irmo mais velho teve que ir para o Paquisto por questes de segurana. Ns comeamos um negcio de costura em nossa prpria casa e ficaramos muito contentes com o seu apoio.

O jovem homem retribuiu os votos de bem-estar para a famlia de Kamila e acrescentou que seus pais tambm eram de Parwan. Os trs adolescentes conversaram sobre as notcias e os rumores que tinham ouvido a respeito dos ltimos combates no norte. E ento, Ali comeou a contar para Kamila um pouco de sua prpria histria.

Sadaf  minha loja, ele disse. Eu investi quase tudo que tinha nela. Antes da chegada do Talib, eu possua uma carroa ambulante com a qual vendia roupas para cama e mesa e utenslios domsticos. Mas ento, todo mundo parou de comprar. E ficou muito arriscado estar na rua o dia inteiro. De maneira que eu instalei minha loja aqui. Pelo menos eu sei que as pessoas sempre vo precisar de roupas, mesmo que atualmente elas estejam comprando menos.

Ali olhou para o cho como se fosse parar de falar. Kamila percebeu com certa surpresa que ela e o dono da loja tinham muitas coisas em comum. Eram ambos jovens enredados em circunstncias com as quais no tinham nada a ver e se esforando o mximo possvel para tomar conta de suas extensas famlias. Naquele momento, Ali tinha mais de uma dezena de familiares, cuja sobrevivncia dependia totalmente dele.

Um de meus irmos, Mahmood, acabou de fugir de Jabul Saraj, Ali prosseguiu contando, referindo-se  cidade cercada por montanhas, bem ao sul de onde estavam os pais de Kamila, em Parwan. Kamila havia tomado conhecimento por notcias de rdio e conversas de vizinhos que a cidade havia se tornado o principal campo de batalha da guerra entre as foras do Talib e as de Massoud.

Ele estivera trabalhando na mercearia da famlia desde que havia terminado a prestao de servio militar alguns anos atrs. Quando a linha de frente da guerra se transferiu para Jabul Saraj, ele pegou sua mulher e filhos pequenos e foi para o desfiladeiro entre as montanhas Salang esperar o combate terminar. Eles caminharam por trs horas at chegar s montanhas e passaram aquela noite ao relento com muitas outras famlias. No dia seguinte, as pessoas tentaram lhe dizer que era seguro voltar para casa, mas meu irmo sabia que os combates haviam apenas comeado e que estavam muito longe de acabar. De maneira que ele fugiu com sua famlia, atravs de Khinjan e Poli Khumri, at Mazar. Eles ficaram l com alguns de nossos parentes durante alguns meses, mas era muito difcil encontrar trabalho por l e Mahmood tem uma grande famlia para sustentar. Por fim, ele resolveu vir para c tentar ganhar o sustento da famlia. Como existe atualmente apenas uma estrada para chegar a Cabul, por causa de todos os combates, como voc deve saber, a viagem de Mazar a Cabul levou trs dias inteiros. Seja como for, eu o ajudei a abrir sua prpria loja de roupas, logo ali abaixo, nesta mesma rua. No incio, ele andou muito aflito por no entender nada de trajes femininos, mas eu lhe assegurei que entendia muito de vendas por ter tomado conta da loja de nossos pais e que isso era o mais importante. Ns podemos contar com costureiras da vizinhana para suprir nosso negcio de roupas.

Quando Ali terminou de contar sua histria, Kamila garantiu a ele que ela e suas irms teriam muito prazer em ajudar Mahmood a preencher seus estoques quando ele precisasse.

Bem, ento deixe-me ver que tipo de trabalho vocs esto fazendo, ele disse.

Imediatamente, Kamila desembrulhou sua amostra e espalhou-a sobre o balco. Ali examinou atentamente o vestido, virando-o de um lado para outro e vistoriando a bainha feita  mo.  um belo trabalho, ele disse. Eu vou querer seis vestidos e, se possvel, quatro ternos.

Mas veja aqui, ele prosseguiu examinando a pea. Voc poderia mudar este detalhe ao redor da cintura do vestido? Kamila concordou prontamente e gravou na memria os detalhes da cintura - ela no queria perder tempo e, alm do mais, desenhar era, nessa poca, uma atividade ilegal. Ali passou ento para o outro lado do balco e dali foi at a janela da frente examinar a rua. Ele apontou para um lindo vestido de noiva branco pendurado.

Roya, voc acha que voc e suas irms conseguem fazer um vestido igual a esse? ele perguntou. Como  um pouco mais complicado, provavelmente levar mais tempo, mas tudo bem.

Kamila no precisou nem pensar; ela respondeu prontamente:  claro que podemos. A impetuosidade de Laila havia se tornado contagiante, ela compreendeu sorrindo. Ali pegou um dos vestidos de noiva de mangas longas, cobertas de contas, de seu mostrurio e entregou-o a Kamila para que servisse de modelo. Vou querer trs desse modelo e depois veremos como fica.

Kamila agradeceu a Ali pelo trabalho.

Isto significa muito para a minha famlia, ela disse. Ns no vamos decepcion-lo.

Obrigado, irm, Ali disse. Que Deus proteja a voc e sua famlia.

Com isso, Kamila e Rahim saram da loja para a rua e de novo pegaram o caminho de casa. A essa altura, eles estavam perigosamente prximos do chamado s preces da hora do almoo, mas Kamila estava empolgadssima com o novo cliente de seu negcio em expanso.  assim que comea, Kamila pensou consigo mesma. Agora, s temos que deixar que ele continue crescendo. E temos que tomar muito cuidado para que no acontea nada de errado.

No caminho de volta para casa, Kamila ia pensando se haveria necessidade de contratar mais costureiras para dar conta das encomendas de Mehrab e Ali. At aquele momento, elas haviam conseguido sobreviver, mas com dificuldades; com as novas encomendas, elas teriam que aperfeioar o processo de produo. Acima de tudo, elas precisariam de mais mos para trabalhar. Ela falaria com suas irms sobre isso  noite. Por enquanto, ela teria que pensar nos vestidos de noiva.

Aps o jantar, as irms se acomodaram na sala de estar para comear o trabalho de costura da noite. Kamila acendeu os lampies para que elas pudessem ver o que estavam fazendo. Por apenas um segundo, ela se entregou ao pensamento de como a luz eltrica facilitaria seu trabalho. Que luxo seria poder simplesmente apertar o interruptor para ter a sala iluminada e as mquinas de costura zunindo!

Eu acho que precisamos fazer algumas mudanas, Kamila disse para as irms. Como temos novas encomendas, vamos precisar de mais ajuda. Vocs tm alguma sugesto?

Saaman, Laila e at mesmo a irm caula, Nasrin, entraram na conversa imediatamente, cada uma tentando falar mais alto do que a outra. Sim, com certeza elas tinham sugestes a fazer!

Muito bem, muito bem, Kamila disse, rindo da cacofonia de vozes que encheu seu espao improvisado de trabalho. Uma de cada vez!

Que tal a gente separar as tarefas de cortar e pregar contas - estabelecer uma espcie de linha de produo, com uma pessoa responsvel por cada etapa, sugeriu Saaman. Aquela que  melhor no corte, por exemplo, assumiria a responsabilidade de faz-lo para todas as demais. Isso tambm contribuiria para que as roupas ganhassem uma aparncia mais profissional.

Nasrin assentiu. Eu estou de acordo. E acho tambm que deveramos desobstruir esta sala e abrir mais espao para os trabalhos de costura. Mame no est mais aqui para ocupar seu lugar costumeiro e papai tampouco para ocupar seu assento diante do rdio. Poderamos fazer desta sala uma verdadeira oficina de costura. Quando eles voltarem, podemos colocar os mveis de volta, nos mesmos lugares. Acho que Malika tambm gostaria de ter um espao maior para trabalhar e Rahim no se importaria. Portanto, no h nada que realmente nos impea de usar este espao da maneira que quisermos.

Nasrin, voc est querendo transformar esta casa numa pequena fbrica! Kamila disse, soltando uma risada. Nossos pais no reconheceriam sua prpria casa!

Laila entrou na conversa para apoiar sua irm caula.

Nasrin est certa.  muito trabalhoso ter de guardar as coisas todas as noites. Seria muito mais fcil se pudssemos deix-las onde esto. Acho que tambm ganharamos tempo com isso!

Um senso de propsito prevaleceu na discusso e Kamila percebeu claramente que aquele negcio havia se tornado o foco central de suas vidas. Juntas, elas haviam encontrado uma maneira de se tornarem produtivas, a despeito do confinamento domiciliar. E com tanto trabalho pela frente, elas quase esqueceram do mundo exterior com seus problemas.

Tem uma outra coisa que eu quero enfatizar, j que estamos falando de negcio, Kamila disse a suas irms. Mehrab e Ali disseram que outras mulheres os procuraram com vestidos para vender. Ns precisamos realmente fazer trabalhos to criativos, bonitos e profissionais quanto possvel. E se assumimos o compromisso de entregar as encomendas, por maiores que sejam, dentro de determinado prazo, teremos que cumpri-lo. Queremos que eles saibam que somos garotas confiveis e que fazemos as roupas que suas clientes desejam comprar. Razia vai dar uma passada aqui mais tarde; vamos perguntar a ela se sabe de outras garotas, daqui de Khair Khana, que possam vir trabalhar conosco. E tambm vamos precisar definitivamente da ajuda de Malika para fazer os vestidos de noiva.

Desde que havia voltado para Khair Khana, o negcio de Malika tambm havia comeado a prosperar - pelo menos para os padres da atual situao econmica, na qual a mera sobrevivncia j podia ser considerada um sucesso. Tudo havia comeado com as visitas das mulheres de seu antigo bairro, Karteh Parwan. As mulheres de Khair Khana comearam a ouvir falar dela por meio de amigas e vizinhas: havia entre elas uma excelente costureira capaz de satisfazer seus desejos mais extravagantes de roupas. A maioria das clientes de Malika era constituda de mulheres um pouco mais velhas que haviam sobrevivido s muitas mudanas pelas quais Cabul havia passado nos ltimos trinta anos, desde a relativa liberdade das dcadas de 1970 e 1980, depois o cdigo de vestimenta mais estrito dos ltimos cinco anos de regime Mujahideen e agora este, de uso obrigatrio do chadri. Elas sabiam que tinham de se submeter aos limites impostos pelo Talib, mas recusavam-se a abrir mo de sua prpria noo de elegncia. Tratava-se de encontrar um ponto de equilbrio muito delicado que Malika havia entendido intuitivamente e passado a dominar.

Agora, ela era procurada a cada semana por algumas novas clientes com pedidos de vestidos e calas elegantes. As criaes de Malika respeitavam o estilo afego que se distinguia por suas mangas e calas de pernas largas, mas tambm refletiam seu gosto pelos cortes de estilo francs que haviam sido extremamente populares na Cabul dos anos setenta e oitenta. Antes da chegada do Talib, Malika visitava ocasionalmente as barracas de roupas usadas, do centro comercial de Karteh Parwan,  procura de vestidos e saias de estilo ocidental que eram vistos na capital durante a era de reforma da famlia real e, mais tarde, no perodo de governo do Dr. Najibullah. Ela levava as peas para casa e as desmontava para ver como eram feitas as costuras e quais os tecidos que serviam melhor para os diferentes estilos que ela estava tentando criar.

As mulheres encarregavam Malika de fazer os vestidos de festa mais sofisticados para cerimnias de casamento e do Eid, a celebrao que marcava o final do ms sagrado do Ramadan. Mas com a continuao da guerra e a situao econmica em franca derrocada, os casamentos, que sempre haviam sido ocasies de muita pompa e circunstncia no Afeganisto, pareciam ocorrer com muito menos frequncia. Para comear, muitos homens estavam lutando nas linhas de frente. E muitos outros haviam deixado o Afeganisto em busca de trabalho em algum outro pas, reduzindo com isso o mercado de maridos em potencial. Como muitas famlias haviam fugido do Afeganisto para o Paquisto ou o Ir, havia menos tios, tias e primos a serem convidados. Os que haviam permanecido em Cabul no tinham condies de promover as celebraes que duravam dias e que nos velhos bons tempos podiam facilmente chegar a custar at dez mil dlares - uma quantia astronmica que deixava muitos noivos endividados pelo resto de suas vidas - e s vezes, muito alm delas. Todo mundo sabia que qualquer tipo de reunio social podia resultar em encrenca. Corriam boatos de que soldados do Talib irrompiam nas salas das casas, acabando com festas de casamento por suspeita de que os convidados estivessem danando ou tocando msica, ou at mesmo o dhol - instrumento de percusso tpico do Afeganisto - e, portanto, transgredindo as novas leis. O pior desses incidentes acabava com os soldados do Talib arrastando os convidados homens - e s vezes at mesmo o noivo - para a priso, onde ficariam por alguns dias at que algum membro da famlia pleiteasse ou at mesmo pagasse por sua soltura.

Tudo isso havia transformado as poucas festas de casamento que chegavam a ocorrer em eventos muito lgubres e rpidos, em que a cerimnia em casa era seguida de um simples jantar feito de frango e pilau, o prato nacional do Afeganisto. Assim, Malika adaptou seu estilo aos novos tempos. Nenhum de seus vestidos era nem justo nem ocidental demais; braos e pescoo eram totalmente encobertos e, como os vestidos eram to compridos que se arrastavam no cho, os sapatos nunca apareciam. As mulheres continuavam,  claro, querendo estar bonitas no dia de seu casamento e, para que suas noivas se sentissem verdadeiras rainhas mesmo permanecendo dentro dos limites da moda ditados pelos decretos do governo, Malika se esmerava nas aplicaes de contas e bordados.

A cada semana, a fila de espera para ter roupas feitas por Malika aumentava. As clientes tinham que agora esperar duas semanas para ser atendidas. Essa crescente demora obrigava a me trabalhadora a estender ainda mais sua jornada de trabalho porque, como Kamila, ela estava determinada a manter sua clientela. Ela se levantava mais cedo pela manh e, depois de se lavar e fazer suas oraes, se apressava a preparar seu filho mais velho, Saeed, para a escola, antes de dar comida e vestir o outro de quatro anos, Hossein. Em seguida, ela transportava o bero de madeira com as gmeas para a sala de estar e o colocava ao lado de seu posto de trabalho. As bebezinhas dormiam quase toda a manh enquanto ela costurava e ela tinha, portanto, que largar o trabalho para dar-lhes ateno apenas quando elas acordavam com fome ou precisavam trocar as fraldas. Todos os dias, Kamila e suas irms tiravam uma pausa de suas prprias costuras para dar ateno s pequenas sobrinhas. Elas andavam com os bebs no colo pela sala entoando cantigas de ninar e antigas baladas afegs at que fossem alimentados e colocados de volta para dormir. Ento, todas retornavam ao trabalho.

A pedido de Kamila, Malika improvisou um curso de costura para as garotas. Ela comeou repassando os procedimentos bsicos envolvidos na confeco de um vestido de noiva e, em seguida, mostrou a elas a diferena entre os vestidos de Mehrab e os de Ali. A aula seguinte foi sobre a confeco de terninhos femininos.

Sejam criativas! Malika instava as meninas. S assim as roupas feitas por vocs se distinguiro das outras expostas nas lojas. No tenham receio de experimentar novas ideias; se no funcionarem, no vendero!

As jovens mulheres aprendiam rapidamente, assimilando novas tcnicas antes do final da tarde. Observando como as garotas aperfeioavam suas habilidades e o entusiasmo com que assimilavam os ensinamentos e conselhos de Malika, Kamila tinha cada vez mais certeza do potencial de seu pequeno empreendimento.

Um dia, ao anoitecer, elas ouviram algum batendo palmas l fora, no porto. Kamila achou que devia ser Razia, mas ela costumava entrar sem esperar que algum lhe abrisse o porto. As garotas no disseram nada, umas s outras, mas o silncio forado delas deixava muito a entrever: surpresas no eram bem-vindas e o medo havia passado a ser a reao normal a qualquer visita inesperada.

Kamila chamou Rahim para abrir o porto. Passado apenas um instante, ela viu com alvio sua tia Huma atravessando o porto s pressas, acompanhada de Farah, sua filha de quinze anos. Uma vez dentro de casa, as duas mulheres tiraram seus chadris e uma verdadeira cascata de tecido azul desceu pelas costas delas at o cho.

Laila foi a primeira a se aproximar para abraar a tia. Huma, por sua vez, beijou todas as meninas. Era o mais prximo de um abrao de me que elas tanto sentiam falta.

Que alegria ver vocs! Ns estvamos sempre pensando em vocs, mas no sabamos se continuavam em Cabul, Kamila disse. Vamos sentar para comer algo.

Depois de perguntar pelos pais das meninas e saber que elas estavam se virando bem, Huma explicou o motivo de sua visita, que no era uma mera formalidade social.

Malika Jan est em casa? ela perguntou.

A irm mais velha havia deixado o trabalho por um momento para ver como estava Saeed e, ao retornar, saudou sua tia com um caloroso abrao.

Ol, titia. Est tudo bem?

Bem,  por isso que estamos aqui, Malika Jan, Huma respondeu. Estamos todos bem de sade, mas a situao aqui est ficando muito perigosa, como voc sabe. No podemos mais continuar em Cabul. Eu decidi levar as meninas para o Paquisto. Partiremos amanh. Ela fez uma pequena pausa. Queremos que voc venha conosco.

Todas as irms Sidiqi se amontoaram em volta de sua tia, todas com a respirao presa. Elas sabiam onde aquela conversa ia dar. Era a mesma discusso que elas haviam tido com seus pais, meses antes, quando o Sr. Sidiqi havia decidido que era mais seguro para as meninas permanecerem em Cabul em vez de arriscarem a viagem at o Paquisto ou o Ir.

 claro que se suas irms tiverem permisso, ns queremos que elas venham conosco, mas sei que seu pai considera mais seguro elas permanecerem juntas aqui, Huma falou.  claro que eu no vou contrariar os desejos dele.

Obrigada, titia. A senhora sabe que ns somos agradecidas por se preocupar conosco e tambm por toda gentileza, Malika disse, sem desviar os olhos das mos de Huma; era bvio para todas que ela no ousava olhar nos olhos da tia, para no desatar ela mesma em lgrimas. Vou falar com Farzan, mas sinceramente no acho que ele v mudar de opinio. Ns planejamos ficar aqui;  difcil e caro demais viajar com tantas crianas pequenas e no consigo nem pensar em deixar as meninas para trs. Ela balanou a cabea na direo de suas irms. Al ir nos proteger; por favor, no se preocupe.

Huma havia vindo preparada para essa discusso e comeou a alistar todos os motivos para que a famlia de Malika e as meninas Sidiqi fossem embora com sua famlia. Em primeiro lugar, no havia mais ningum na cidade e os problemas s se agravariam na capital. No havia emprego para nenhum deles e no havia nenhuma razo para se acreditar que a situao fosse melhorar em breve. Simplesmente no era seguro permanecer ali, ela insistiu. No h futuro para vocs aqui, meninas. Por fim, Huma acrescentou que ela e suas filhas ficariam mais seguras se a famlia de
 Malika viajasse com elas para o Paquisto.  melhor para todos se viajarmos juntos, como uma famlia, e no temos tempo a perder.

Malika prometeu de novo que falaria com seu marido, mas sua voz baixa deixava agora transparecer meses de preocupao e cansao. Todas as garotas se condoeram de sua tia, uma mulher de meia-idade que havia ficado sozinha na cidade com duas filhas adolescentes para tomar conta, mas no tiveram outra escolha seno declinar seu pedido de ajuda.

Sem nada mais a ser dito e com a noite se aproximando, as mulheres voltaram a trocar abraos e beijos, dessa vez com mais tristeza do que alegria. Malika abraou a tia por mais tempo do que de costume.

Eu vou pensar em todas vocs, ela disse, e sei que Deus ir proteger a senhora e suas filhas. Mais tarde, naquela noite, deitada em sua cama e sozinha com seus pensamentos, Kamila repassou todos os acontecimentos do dia. Ns ficaremos sozinhos por um tempo, ela disse para si mesma, e o melhor que temos a fazer e tirar o mximo proveito disso, como sempre fizemos. Ela decidiu continuar focada em seus irmos e em seu empreendimento, em vez de ficar pensando em tudo que no podia mudar, como a separao de sua famlia, os estudos que no podia continuar e o destino de suas primas que embarcariam numa perigosa viagem ao Paquisto.

As semanas passaram numa nica sucesso embaralhada de contas sendo aplicadas a vestidos e terninhos. Os dias comeavam com oraes e desjejum e acabavam quatorze horas depois, com as meninas desabando na cama, exaustas, mas j planejando as costuras da manh seguinte. Enquanto isso, Kamila progredia em suas habilidades para conquistar novos clientes, com a ajuda de seu mahram Rahim. Ele era seu leal escudeiro e auxiliar, alm de parceiro confivel em seu pequeno negcio. Ele podia ser um adolescente, mas nunca reclamava quando suas irms pediam para ir comprar os suprimentos de costura que necessitavam ou ir ao mercado comprar arroz e acar. Ela no sabia o que seria delas sem a energia e a boa vontade de Rahim.

Kamila e Rahim passaram a sair juntos cada vez com mais frequncia. Contrariando os pedidos de suas irms para que se considerassem satisfeitas com as pequenas vitrias de encomendas um pouco maiores, Kamila continuou se esforando para expandir sua clientela bsica e fazer crescer seu empreendimento. Por recomendao de Ali, ela estava agora recebendo encomendas tambm de Mahmood, o irmo de Ali. E com isso, elas passaram a ter trs clientes. Kamila disse a suas irms que ela e Rahim tentariam obter recomendaes sobre outros lojistas de confiana, assim que ela tivesse a certeza de que elas eram capazes de realizar com sucesso todo o trabalho que j tinham.




Um dia, aps o caf da manh, Kamila ouviu um barulho vindo do porto. Ela estava em p desde as seis e meia terminando o trabalho de aplicao de contas a um vestido encomendado por Ali. As meninas se olharam como que querendo saber se alguma delas estava esperando visita antes de pedir a Rahim que fosse ver quem estava l fora. Elas aguardaram, ansiosamente, a entrada do irmo na sala, que estava acompanhado de uma mulher alta com longos cabelos castanhos e um dos semblantes mais tristes, mas tambm mais serenos que Kamila j havia visto. Kamila imaginou que ela tivesse por volta de trinta anos.

Kamila Jan, Rahim disse, esta pessoa est querendo falar com voc.

Kamila estendeu a mo e beijou a estranha  maneira tradicional afeg de demonstrar respeito: trs vezes, em faces alternadas.

Ol, eu sou Kamila, ela se apresentou. Como vai? Em que posso ajud-la?

A mulher estava plida e parecia exausta. Havia crculos escuros em torno de seus olhos.

Meu nome  Sara, ela disse. Vim aqui com a esperana de voc ter algum trabalho para mim. Ela olhava para os prprios ps enquanto suas palavras saam numa sucesso lenta e melanclica. A vizinha de minha prima disse que voc tem aqui uma oficina de costura com suas irms e que voc  uma mulher muito boa. Ela disse que seu negcio est indo muito bem e que talvez voc precise de ajuda.

Laila entrou na sala e ofereceu  visitante uma taa de ch fumegante. Ela colocou  frente da mulher uma travessa de prata com balas puxa-puxa reluzentes.

Sente-se, por favor! Kamila convidou-a, apontando para o cho.

Sara abaixou-se para se sentar sobre uma almofada. Apertando com fora a taa de ch, ela comeou a explicar como tinha vindo parar na sala de estar da casa de Kamila.

Meu marido morreu h dois anos, ela disse, com o olhar fixo na borla que ornava a ponta do tapete. Ele era diretor da escola secundria Liceu Ariana. Ele voltou para casa uma tarde, dizendo que no estava se sentindo bem. Ele foi ao mdico, naquela mesma tarde, para saber qual era o problema e morreu no dia seguinte.

Kamila balanou a cabea, incentivando calorosamente sua visita a prosseguir.

Desde ento, meus trs filhos e eu estamos morando com os irmos de meu falecido marido aqui em Khair Khana. Minha filha tem cinco anos e  deficiente. Os meninos tm sete e nove anos. A famlia de meu marido  muito generosa, mas somos ao todo quinze pessoas para sustentar e agora meus cunhados esto enfrentando seus prprios problemas.

Um deles, ela contou a Kamila, havia trabalhado como mecnico do exrcito. Mas estava desempregado desde que as tropas de Massoud haviam recuado para o norte. Outro tinha sido funcionrio da prefeitura e tambm havia sido despedido. O terceiro cunhado era bacharel em Cincia da Computao, mas no conseguia encontrar trabalho em Cabul e estava pensando em ir para o Paquisto ou o Ir.

Eu tenho que encontrar um meio de sustentar meus filhos, Sara disse a Kamila. No sei o que fazer nem para onde ir. A famlia de meu marido no tem mais como tomar conta de ns e eu no quero ser um fardo para eles. Tenho de encontrar um trabalho.

Depois de fazer uma pausa pelo tempo necessrio de tomar um gole de ch e ter a certeza de que Kamila continuava ouvindo-a, ela prosseguiu:

Eu no tenho nenhuma instruo e nunca trabalhei fora. Mas sei costurar e prometo fazer um bom trabalho para voc.

No incio, Kamila estava tocada demais para dizer qualquer coisa. Todo mundo que havia permanecido em Cabul tinha uma histria semelhante e, ultimamente, ela vinha sentindo aumentar seu senso de responsabilidade por fazer o mximo para ajudar. Seu pai sempre lhe dissera, e de acordo com os ensinamentos de sua religio, ela tinha o dever de ajudar o maior nmero de pessoas possvel. Naquele momento, esse dever lhe impunha ampliar rapidamente o sucesso que havia conquistado em seu pequeno negcio. Esse empreendimento era sua grande esperana - e no momento seu nico meio - de poder ajudar sua comunidade.

Ento, vamos trabalhar, Kamila disse, recuperando sua compostura e encontrando consolo em sua prpria abordagem prtica. O que mais precisamos neste exato momento  de algum que possa supervisionar tudo e me ajudar a garantir que todos os pedidos sejam cumpridos e a costura seja benfeita. Sara, sorrindo pela primeira vez desde que entrara pela porta da casa, seria sua primeira empregada oficialmente contratada.

Ela chegou pontualmente para o seu primeiro dia de trabalho, s oito e meia da manh seguinte. Seus trs filhos ficaram em casa com suas cunhadas. Como Rahim, seus dois meninos passavam parte do dia na escola de Khair Khana. O sogro dela estava ajudando-os nas partes de seus estudos que eram agora transmitidos em lngua rabe - uma nova matria do currculo imposto pelo Talib.

Quando a diviso do trabalho entre as duas mulheres comeou a entrar nos eixos, Kamila percebeu que havia sido uma deciso brilhante - e arrojada - a de contratar Sara. Sua nova supervisora era uma costureira talentosa e capaz de ajudar as garotas com os modelos mais sofisticados, poupando Malika das interrupes que haviam se tornado cada vez mais frequentes. Alm disso, ela era uma tima gerente - na verdade, esse era um talento natural dela. Ela sabia quando devia pressionar as meninas e quando devia incentiv-las e mantinha a equipe toda funcionando no padro mximo: se uma costura saa torta ou se as contas no eram pregadas de acordo com as linhas traadas na matriz dos modelos, ela obrigava a garota a refazer, s vezes at mesmo a desfazer os pontos para ela prpria refaz-los.

E o mais importante foi que a contribuio de Sara liberou Kamila para se dedicar  parte do processo que mais passou a interess-la, apesar de todos os riscos que ela envolvia: o marketing e o planejamento. A cada semana, Kamila se sentia mais segura de si mesma e das habilidades de suas irms para a costura e, tambm, mais  vontade para andar com Rahim pelo Liceu Myriam, cujos sons, cheiros e sombras ela passou a conhecer to intimamente quanto os da sua prpria vizinhana. O grupo havia adquirido experincia e ampliado a equipe de costureiras, e as garotas estavam aprendendo a dar conta de encomendas maiores que os clientes estavam fazendo, agora que elas haviam se mostrado profissionais confiveis. Apenas algumas semanas depois da entrada de Sara para a sua equipe, Kamila ficou extremamente empolgada com a encomenda feita por Ali de vinte vestidos leves, com os quais ele queria montar seu estoque de roupas para a primavera.

Para ter a certeza de que contratariam apenas as candidatas mais comprometidas com uma forte tica de trabalho, Kamila e Razia criaram um novo mtodo de seleo: elas davam  candidata a costureira um pedao de tecido e pediam que fizesse com ele uma amostra de seu trabalho. Sara ento examinava a pea acabada e, se a costura era aprovada, a garota recebia sua primeira incumbncia, que podia realizar em sua prpria casa ou na de Kamila. Todas as encomendas tinham de ser entregues em uma semana.

No demorou para que o nmero de pessoas buscando trabalho excedesse o de encomendas que Kamila estava recebendo de lojistas. Ela passou a receber, quase diariamente, visitas de mulheres jovens que estavam tentando encontrar um meio de ajudar suas famlias. Em sua maioria, elas eram garotas cujos estudos universitrios haviam sido interrompidos pela chegada do Talib, mas algumas delas, como Sara, eram um pouco mais velhas.

Ela no sabia como, mas estava determinada a encontrar uma ocupao para todas elas. Com a economia da cidade encolhendo a cada dia, e sem qualquer outra chance de aquelas mulheres encontrarem trabalho, como ela poderia dar-lhes as costas?

Na manh seguinte, ela iria ao Liceu Myriam com Rahim. Falaria com Ali e Mahmood e pediria a eles que a apresentasse ao outro irmo deles que havia acabado de chegar a Cabul e aberto outra loja de roupas nas redondezas. Ela esperava que esse tambm se tornasse seu cliente regular.

Quando Kamila se aproximava do quarto de Malika para desejar-lhe boa noite, ocorreu-lhe uma ideia. Ns somos, sim, costureiras, mas tambm somos professoras. Ser que no existe uma maneira de usarmos ambos esses talentos para ajudarmos um nmero ainda maior de mulheres? E ento essas mulheres poderiam nos ajudar a expandir o negcio de costura de tal maneira que haveria trabalho para todas.

Ns poderamos abrir uma escola, ela pensou consigo mesma, parada ali no corredor, ou, pelo menos, proporcionar uma aprendizagem mais formal para mulheres jovens, ensinando-as a costurar e bordar. Ns poderamos ensinar a elas habilidades teis que elas podero usar tanto aqui como com outras mulheres e, enquanto estiverem aprendendo, ns formaremos uma equipe profissional que nos ajudar a dar conta, rapidamente, de encomendas maiores - tantas quantas conseguirmos obter.

Ela ficou parada diante da porta do quarto de Malika, perdida em seus pensamentos. O mais importante, ela pensou,  no rejeitarmos nenhuma mulher necessitada de trabalho. Mesmo as jovens sem nenhuma experincia e sem qualificao para o trabalho podero participar de nosso programa de treinamento e receber um salrio para nos ajudar a cumprir as encomendas o mais rpido possvel. Se tivermos nossa prpria escola, ningum que bater  nossa porta ir embora sem trabalho.

Ela havia acabado de descobrir seu plano.

Impaciente demais para bater  porta, ela avanou para dentro do quarto de Malika quase explodindo de tanta excitao. Por enquanto, ela simplesmente ignoraria todos os obstculos que pudessem impedir seu projeto de se tornar realidade. Ela queria o apoio de sua irm e no podia esperar para expor sua ideia a ela. No havia ningum com mais talento e disposio para tal empreitada, e nem ningum em quem ela podia confiar mais. Ela se enroscou sobre uma almofada ao lado de Malika, que estava separando as roupas de seu marido e quatro filhos para lavar. Com a luz do lampio iluminando o espao entre elas, Kamila comeou a expor ansiosamente sua nova ideia.

Malika, ela disse, olhando diretamente para sua irm, eu preciso de sua ajuda...



Uma escola em pleno funcionamento

Vamos, Rahim! Kamila instou seu irmo. Olhando para o relgio da sala, ela viu que eram quase nove horas. Eles tinham que sair imediatamente. Tinham entregas para fazer no Liceu Myriam e, alm disso, Kamila estava ansiosa por falar a ss com seu irmo.

O rapaz deps seu naan e sua taa de ch pela metade, pegou sua jaqueta do cabide ao lado da porta e tratou de alcanar sua irm que j estava no ptio.

Kamila havia passado quase toda a noite em p depois da conversa que tivera com Malika, pensando em seus planos para a escola: nos cursos que ofereceriam e na equipe de talentosas costureiras que criariam. Assim que ela e as meninas tivessem o programa funcionando perfeitamente, teriam condies de aceitar pedidos de novos clientes. Elas precisavam de mais encomendas, isso estava claro; teria que haver trabalho suficiente para todas as jovens que estavam sendo treinadas, como tambm para todas as outras que costuravam em suas prprias casas para as irms Sidiqi.

Kamila queria aproveitar a sada daquela manh para saber o que Rahim achava da ideia de criar uma escola de corte e costura. Como ela confiava muito na capacidade de julgamento dele, queria sondar sua opinio; os dois costumavam discutir planos para o negcio de costura durante suas longas caminhadas at o centro comercial, que ele agora j conhecia quase to bem quanto Kamila. Juntamente com sua irm Roya, ele havia participado de todos os encontros com os lojistas e, com sua atitude despretensiosa e confiabilidade a toda prova, havia conquistado a confiana deles. Quando Kamila ficava em casa para terminar uma encomenda ou tomando as providncias para a fase seguinte de uma confeco, Rahim fazia as entregas em seu lugar, transmitindo-lhe os recados de seus clientes e providenciando o estoque de materiais de costura para as novas encomendas, no caminho de volta para casa.

As negociaes, no entanto, ele deixava estritamente para a sua irm. Os dois irmos haviam acabado de chegar de txi, que era uma perua caindo aos pedaos, no centro comercial Mandawi, o mercado histrico da cidade velha, onde Ali havia sugerido que eles encontrariam suprimentos de costura por preos muito vantajosos. Kamila havia atravessado com confiana os estreitos corredores entre as barracas  procura dos tecidos de sua preferncia e regateando preos com seus donos, os quais Rahim sabia que eram muito mais baixos do que os que costumavam pagar no Liceu Myriam. Rahim, eu acho que fazer compras aqui pode reduzir nossos custos em dez ou talvez at quinze por cento! ela exclamou, nitidamente animada com a nova descoberta. Roya Jan, ele disse, esperando que o vendedor de tecidos entendesse que sua irm jamais arredaria p da oferta de duzentos mil afeganes (quatro dlares) que j havia feito pelas peas de tecidos expostas nas paredes sujas; Eu acho que se depender da sua vontade, essa porcentagem em breve passar para vinte por cento!

Trabalhando com as meninas, Rahim havia se acostumado aos ritmos de sua semana de trabalho e aos ciclos das encomendas recebidas: quais vestidos tinham que ir para onde e quando, e se para atender  encomenda apressada de um lojista eram necessrias algumas horas extras de trabalho ou toda uma noite de costura. Algumas semanas antes, ele havia chegado a pedir para Saaman que lhe desse aulas bsicas de bordado e pregao de contas, pelo menos o suficiente para ele poder ajudar suas irms a confeccionar as sries de vestidos e ternos que elas agora tinham contrato para produzir semanalmente. Ele ficava sentado com elas na sala de estar, agora superlotada durante as noites, sendo o nico homem em meio a um grupo de mulheres intensamente concentradas, disposto a aprender todas as habilidades necessrias para dar a sua contribuio ao negcio.

Rahim, eu tenho uma nova ideia que gostaria de discutir com voc, Kamila disse.

Uma nova ideia? ele retorquiu. Por que isso no  mais surpresa para mim, Kamila Jan?

No, eu estou falando srio, ela disse, permitindo-se apenas uma risadinha de si mesma. Eu quero criar uma escola nossa. Para ensinar corte e costura. Para que possamos aceitar todas as encomendas que chegam, expandir o negcio e tambm oferecer um meio de vida a muitas mulheres da vizinhana.

Ela acelerou o passo. Eu pensei em tudo e acho que devemos organizar o processo da seguinte maneira: vamos dividir as garotas em dois turnos - um pela manh e outro  tarde, com uma pausa para as oraes e o almoo entre um e outro. Saaman e Laila vo ensinar costura, pregao de contas e bordado s meninas; eu vou ajudar no incio,  claro, mas a minha inteno  que elas realmente liderem os cursos - para que eu fique livre para me concentrar em buscar mais clientes para ns. Sara Jan ser a supervisora. Eu conversei com Malika a respeito disso tudo ontem  noite - ela  a nica pessoa, alm de voc, com quem discuti esse projeto - e ela achou uma excelente ideia.

Ela ficou aguardando em silncio s por um instante.

E ento, o que voc acha?

Kamila no conseguia interpretar a reao de Rahim. Quando eles estavam em pblico, ele sempre mantinha aquela expresso inescrutvel que havia comeado a cultivar desde o primeiro dia em que haviam ido ao Liceu Myriam: a de um homem muito mais velho zelando e protegendo as mulheres de sua famlia dos perigos que tinham de enfrentar quando estavam em pblico

Mas ele estava balanando a cabea em sinal de assentimento.

Sim, eu acho uma tima ideia. Para mim, no vai fazer muita diferena, j que eu passo a maior parte do dia na escola. Mas no momento, estamos no limite. Voc e as outras meninas esto trabalhando quase o tempo todo - pelo menos onze ou doze horas por dia e, s vezes, tambm a noite toda, quando temos uma grande encomenda para entregar. Esse  um grande problema, mas eu tenho pensado em como poderamos resolver isso com o tempo. Voc tem razo, ns precisamos, com certeza, de mais gente para ajudar.

Eles caminharam em silncio por um tempo. Kamila sabia que ele tinha mais a dizer.

Tem uma coisa nisso tudo que me preocupa, no entanto, Rahim prosseguiu. Como  que voc vai fazer para que todas essas garotas entrando e saindo l de casa o dia todo no sejam notadas por ningum? Os soldados do Amr bil-Maroof esto em toda parte e voc sabe que eles esto sempre atrs das pessoas que violam as leis. Especialmente as mulheres.

Kamila esperava por isso; Malika havia exposto essa mesma preocupao.

Bem, eu tambm j pensei nisso, ela disse. Em primeiro lugar, muitas mulheres esto atualmente trabalhando em casa, como a Dra. Maryam. O Talib sabe que ela trata apenas de mulheres doentes e tenta ajudar a comunidade, de maneira que nem se do o trabalho de ir at sua clnica. Ns iremos funcionar da mesma maneira: vamos fazer com que todo mundo de Khair Khana saiba que somos apenas mulheres costurando - ns no vamos falar nada sobre nossos bordados  noite! - e que nunca, jamais permitimos que qualquer homem ou pessoa estranha entre em nossa casa. Ns vamos mandar embora todas as garotas da vizinhana antes do anoitecer, para que nenhuma delas seja vista andando pelas ruas fora do horrio permitido. Ou nas horas das preces. E ns vamos trabalhar da maneira mais discreta possvel: em silncio,  claro, e manter o porto sempre trancado. Alm disso, vamos exigir que todas as garotas usem o chadri completo sempre que vierem  nossa casa. Se seguirmos estritamente essas regras e s trabalharmos com garotas decentes, aqui das redondezas, acho que vai dar tudo certo.

 verdade, Rahim concordou. Muitos amigos meus de escola tm me e irms trabalhando em casa. A maioria delas est ensinando o Sagrado Alcoro e dando aulas de matemtica e dari. Na realidade, elas no tm um negcio como o nosso.  bem possvel que uma escola de corte e costura seja realmente justificvel com mais facilidade, uma vez que vocs ensinaro s mulheres formas tradicionais de trabalhos manuais que elas podero fazer em suas prprias casas.

E ento, ele prosseguiu, quando  que vai comear?

Na semana que vem, foi a resposta de Kamila.

 claro! Rahim exclamou, sem conseguir reprimir uma risadinha silenciosa. Assim  Kamila: por que esperar se pode comear agora mesmo?

Kamila respondeu com uma careta para ele por trs de seu chadri.

Voc quer dizer Roya Jan.

Sim,  claro! Se precisar de ajuda para botar as coisas pra funcionar,  s dizer. E pode deixar montes de trabalho para eu fazer quando voltar da escola. Estou ficando muito bom nisso, voc sabe. Uma poro de garotos de minha classe est aprendendo a bordar e costurar tambm, mas tenho certeza de que nenhum deles tem uma professora to capaz quanto Saaman.

Ao se aproximarem do Liceu Myriam, ambos entraram instintivamente em silncio.

Uma vez dentro da loja de Ali, Kamila esvaziou sua sacola e ficou aguardando, em silncio, enquanto o adolescente abria o pacote e contava as peas. Kamila se sentiu aliviada quando percebeu que ele havia ficado satisfeito.

Ali colocou uma parte dos vestidos e terninhos na prateleira de madeira que ficava atrs dele e, depois de dar uma olhada na porta, ele voltou para os irmos.

Eu tenho notcias de meu irmo mais velho, Hamid, Ali disse, e comeou a relatar uma histria que Mahmood havia contado a ele, durante uma visita, na semana anterior. Durante anos ele vendeu perfumes e cosmticos para mulheres, entre outras coisas, em Jabul Saraj, mas quando os combates chegaram mais perto, todo mundo parou de comprar. Por isso, ele comeou a trabalhar com um txi para ajudar sua famlia. Um dia, ele transportou um homem que trabalhava com as foras de Massoud e que advertiu meu irmo que uma outra ofensiva do Talib estava prestes a comear. Hamid foi correndo para casa pegar sua mulher e filhos - ele j havia tentado mand-los para c com outras famlias para fugir da guerra, mas o motorista deles havia se perdido durante a viagem e sua mulher estava assustada demais para viajar de novo sem ele. De qualquer maneira, finalmente, todos eles chegaram sos e salvos em Cabul.

Ali espiou outra vez pela janela e continuou. Mahmood e eu ajudamos Hamid a abrir uma loja de roupa aqui perto; ns achamos que seria mais fcil para todos, j que temos muitos clientes, inclusive entre os prprios talibs que vm comprar roupas para suas famlias. E ns conhecemos costureiras de confiana como voc e suas irms, de maneira que suprir a loja dele no ser problema.

Ele entregou a Kamila um envelope com o dinheiro para pagar as roupas. Hamid acabou de voltar do Paquisto; ele foi l comprar vestidos para vender em sua loja. Mas eu gostaria de apresentar voc a ele; provavelmente, ele vai querer encomendar algumas peas tambm de voc.

Kamila assentiu agradecida, e os trs desceram o quarteiro at uma loja apertada que dava de frente para a rua, que tinha uma janela retangular e uma porta que ficava trs degraus acima da calada. Dentro dela, eles encontraram um homem diante de uma pilha de caixas, dando os retoques finais a uma exposio de vestidos pendurados no teto. Ele era mais alto do que Ali e evidentemente muitos anos mais velho. Recipientes de plstico vermelho em forma de coraes e estojos portteis de maquiagem com pequenas tesouras de metal enchiam o mostrador atrs do balco de vidro. Havia uma grande quantidade de sapatos pretos de salto baixo com graciosos laos, em cima de caixas cor-de-rosa, contra a parede.

Ao se cumprimentarem, os irmos se abraaram rapidamente sem tocar o peito um do outro. Em seguida, Ali se voltou para Kamila e Rahim e explicou o motivo de sua visita inesperada. Hamid, esta aqui  Roya e este  Rahim, o irmo de Roya. Os pais deles so de Parwan e eles criaram com suas irms um negcio de costura aqui em Khair Khana para ajudar a sustentar a famlia. Roya e suas irms esto entre as melhores de nossas costureiras; elas confeccionaram muitos vestidos e ternos e alguns vestidos de noiva extremamente bonitos para a minha loja e a de Mahmood. Se voc tem trabalho para ela, eu garanto que  uma pessoa muito digna e de total confiana.

Hamid estava realmente disposto a fazer uma encomenda; sua viagem ao Paquisto havia sido produtiva, ele disse a eles, mas complicada por causa de todos os postos de controle na fronteira. Acho que no vou voltar l to cedo. Ele encomendou oito vestidos iguais aos que havia visto expostos na loja de seu irmo - bordados com contas - e que tinha achado lindos.

 medida que eu me estabilizar mais e conhecer um pouco melhor os gostos de minhas freguesas, ns poderemos discutir outros modelos, Hamid disse para Kamila. No momento, estou totalmente ocupado em abrir todos os caixotes que trouxe de minha antiga loja em Jabul Saraj. Ele entregou a Rahim uma sacola de plstico com muitos cortes de tecido de cor clara. Para ajudar suas irms a comear a trabalhar nas minhas encomendas.

O tempo estava passando rapidamente e Kamila estava ansiosa por ir embora, mas Hamid se voltou para seu irmo mais novo.

Ali, eu presenciei uma cena terrvel um dia desses, ele sussurrou. Eu estava entregando os vestidos que havia comprado no Paquisto numa loja que fica logo ali, na prxima rua, e estava esperando que o dono me pagasse. Estava l uma mulher acompanhada de sua filha, fazendo compras. Ela era bem velhinha, tinha um corpo bem pequeno e mal conseguia enxergar. Por isso, ela afastou apenas por um instante o chadri para ver os vestidos que estavam expostos no mostrurio. Naquele exato momento, um membro do Amr bil-Maroof entrou correndo na loja e comeou a gritar que as mulheres no deviam se expor em pblico e que isso era proibido. O talib deu uma bofetada em sua cara e derrubou-a no cho. Eu no conseguia acreditar no que estava vendo. Ela perguntou a ele aos berros por que tinha que bater numa velha que poderia muito bem ser sua av. Mas o soldado simplesmente voltou a atac-la. Entre todos os tipos de palavres ofensivos, ele chamou-a de indecente. Foi inacreditvel.

Os cinco ali reunidos ficaram em silncio at que finalmente Ali disse: Roya,  melhor voc ir embora. Ns j estamos conversando por tempo demasiadamente longo...  arriscado. A voz dele foi enfraquecendo antes de terminar a sentena.

Muito obrigada a vocs dois, ela respondeu, enquanto Rahim tratava de pegar as sacolas. Ns voltaremos na semana que vem para entregar seus vestidos, Hamid. Ela e seu irmo deixaram a loja, agradecidos pelo ar frio de primavera que os envolveu.

Por favor, tomem cuidado, ela ouviu a voz de Ali dizer alto para eles quando a porta se fechou. Que Deus os proteja!

Eles foram caminhando em silncio pela prxima meia hora.




Uma semana depois, a escola comeou a tomar forma. A notcia de que algumas jovens estavam fazendo um curso na casa dos Sidiqi correu de boca a boca e, a cada manh, novas alunas acorriam para ali, dispostas a aprender e trabalhar. Embora algumas escolas das redondezas cobrassem uma pequena taxa, Kamila decidiu que era melhor no cobrar nada; as garotas no teriam que pagar enquanto estivessem aprendendo e, em troca, elas no teriam salrio durante todo o perodo de treinamento. Durante a aprendizagem, elas ajudariam a confeccionar as roupas que Kamila levaria para o mercado e, assim, elas contribuiriam para o negcio quase imediatamente. O tempo que cada garota levava para concluir sua aprendizagem dependia tanto de suas habilidades como de sua dedicao ao trabalho. Quanto a isso, apenas Kamila e Sara tinham a ltima palavra, com base nas informaes fornecidas por Saaman e Laila, que eram as professoras.

Neelab, uma garota da vizinhana e filha de um alfaiate era a nova ajudante entusiasmada de Kamila e suas irms. A me de Neelab havia abordado Kamila na mercearia, do outro lado da rua, quando ela Rahim estavam comprando leo e arroz. Ela havia suplicado a Kamila que admitisse sua filha. Meu marido est desempregado e ns no temos como alimentar toda a famlia a mulher disse a Kamila com uma voz desesperada. Eu fiquei sabendo que voc e suas irms esto dirigindo um negcio bem-sucedido. Ser que voc poderia dar trabalho  nossa Neelab? Eu prometo que ela vai se esforar para ajudar no que quer que voc e suas irms necessitarem.

Kamila havia concordado no ato, incapaz de recusar o pedido de uma vizinha. Ela sabia tratar-se de uma boa menina, respeitosa e bem-comportada, e se condoeu de sua me que estava carregando um fardo pesado. Mas havia uma outra vantagem em ter a menina por perto: ela poderia servir de mahram e sair para ver o que estava acontecendo na rua quando Rahim estivesse na escola ou fora de casa. As garotas mais novas no precisavam usar chadri e muitas vezes funcionavam como meninos, podendo andar livremente em pblico sem serem molestadas, desde que se vestissem com discrio e parecessem ter bem menos idade do que a obrigatria para andarem encobertas - idade essa que, no momento, parecia ser entre doze e treze anos, embora ningum soubesse ao certo.

Em pouco tempo, Neelab havia provado ser uma aprendiz capaz e esforada; ela chegava cedo, todas as manhs, com um sorriso irradiante e disposta a ajudar Laila a preparar o caf da manh para a famlia. Depois, ela se encarregava dos trabalhos domsticos e de tudo mais que precisava ser feito, inclusive ir at a loja mais prxima comprar os itens que Rahim, por acaso, tivesse esquecido ou acompanhar Kamila em suas rpidas idas ao Liceu Myriam. Neelab sentia-se grata por estar ali com garotas que gostavam de t-la por perto e valorizavam sua ajuda. Ela j estava chamando Kamila e Malika de tias, tratamento de respeito e estima que era dispensado a mulheres mais velhas que, mesmo sem relao consangunea, eram tidas como familiares.

Por sua parte, as tias de Neelab sabiam muito bem dos riscos que estavam correndo com seu negcio em expanso. Malika e Kamila haviam discutido esses riscos muitas vezes e Kamila vinha mantendo sua promessa de permanecer dentro dos limites impostos pelos decretos do Talib. Antes de admitir qualquer uma das garotas em seu programa, Kamila e suas irms procuravam se assegurar de que elas conhecessem bem o regulamento da escola e, para isso, cada uma delas recebia uma preleo de Sara no dia em que comeava.

O regulamento existe para ser seguido, Sara instrua as garotas com voz firme. No h nenhuma exceo. Se vocs vm aqui para trabalhar, so bem-vindas. Se vm aqui para passar o tempo, comer bem ou simplesmente folgar, este no  o lugar apropriado.

Em seguida, ela passava a enumerar as regras da casa.

Em primeiro lugar, vocs tm que vir vestidas de chadri e mant-lo at estarem em segurana, dentro da casa. Usar um vu comprido no basta. Como ns sabemos que um chadri custa caro, a quem tiver dificuldade para compr-lo, ns podemos ajudar. Quanto ao modo de vestir, por favor, restrinjam-se a roupas simples - calas largas, blusas de mangas compridas e nada de sapatos brancos; essa  a cor da bandeira do Talib e eles a proibiram de ser usada. E nada de unhas pintadas. Como os talibs esto sempre atentos a isso, eles podem ver suas mos at mesmo por baixo do chadri.

Em segundo lugar, nada de falar em voz alta ou rir enquanto estiverem na rua, vindo para c. Nossos vizinhos apoiam o nosso empreendimento porque ns ajudamos a comunidade e no queremos ter nenhum problema, nem para eles nem para ns. Se o Talib vir dar uma batida aqui, ser pssimo para todas as garotas que trabalham conosco e tambm para todas as famlias em volta.

A terceira regra impe que vocs nunca falem com nenhum homem que no seja seu mahram, no caminho para c. Se alguma de vocs vir qualquer outra que trabalha aqui fazendo isso, tem que nos informar, de imediato. Toda aquela que for vista falando com um homem de qualquer idade ser demitida. Imediatamente.

Ns temos de seguir essas regras para manter Kamila e suas irms protegidas, assim como vocs mesmas e todas as outras garotas desta casa. E no faremos exceo.

Terminada a preleo, Sara amainou um pouco o tom. Portanto, por favor, pelo bem de todos, no faam nada que possa por em risco o nosso trabalho. Mas enquanto estiverem aqui, ns desejamos que vocs aprendam e se divirtam.

Trs semanas depois, a escola progredia rapidamente e o nmero de encomendas que vinha do Liceu Myriam aumentava na mesma proporo. Elas haviam comeado na primavera de 1997 com quatro garotas, e no momento haviam chegado a trinta e quatro, nmero que continuava aumentando; nos ltimos dias, mais trs jovens haviam aparecido ali querendo saber sobre a oficina. O negcio ia de vento em popa e Kamila tinha agora que enfrentar o problema que tanto Malika como Rahim haviam colocado desde o incio: como lidar com a quantidade de jovens que entrava e saa da casa, todos os dias. A cada manh, eram at doze garotas vindas de todos os cantos de Khair Khana que chegavam para as aulas e, a cada tarde, outra turma chegava para o segundo turno, exatamente como Kamila havia planejado. Alm disso, havia as mulheres que vinham buscar linha e tecido para os vestidos que costurariam em suas prprias casas e entregariam prontos alguns dias depois. As meninas temiam que sua casa, que estava se tornando o centro de interesse para todas as mulheres das redondezas, pudesse atrair ateno indesejada. Elas queriam mais do que tudo trabalhar de forma invisvel, mas isso estava se tornando cada vez mais difcil.

Ns precisamos organizar isso de alguma forma, Kamila pensou. Do contrrio, chegar o dia em que haver garotas demais aqui, ao mesmo tempo, e s Deus sabe o que poder acontecer.

A experincia de sua prpria irm era um lembrete sombrio do que poderia dar errado. Quando ainda morava em Karteh Parwan, Malika havia dado aulas sobre o Sagrado Alcoro na sala de seu apartamento, todas as manhs. Aquelas aulas complementavam a educao das meninas: para aquelas que j sabiam ler e escrever as aulas eram focadas no estudo e recitao do Livro Sagrado do Alcoro; para as meninas que ainda no haviam frequentado a escola por tempo suficiente para se tornarem alfabetizadas, aprender a ler e escrever era o propsito bsico de seus estudos.

Um dia, um pouco antes de se mudar para Khair Khana, Malika teve que se afastar das alunas para atender  visita de uma ex-colega que chegara inesperadamente. Na ausncia de sua professora, as meninas esqueceram da advertncia que ela no se cansava de repetir: para que sassem uma a uma e no todas de uma vez; e precipitaram-se todas juntas, para a rua, e deram de cara com uma patrulha do Talib no final da viela. Na mesquita do bairro, naquela noite, o mullah havia investido contra a ameaa representada pela escola de Malika. Ns sabemos que meninas esto recebendo educao e essa  uma violao de nossa lei que precisa acabar de uma vez, ele havia advertido. O marido de Malika e o primo dele haviam insistido em dizer para os talibs que patrulhavam a mesquita - homens da prpria vizinhana que eram seus conhecidos de muitos anos - que Malika estava simplesmente ensinando o Sagrado Alcoro. Os soldados no podiam, eles disseram, fazer nenhuma objeo a isso, uma vez que educar era o dever de todo muulmano. A resposta que eles deram foi impressionante: no havia nenhum problema com o trabalho de Malika, os soldados insistiram, pois sabiam que ela era uma mulher boa e religiosa. Eles agradeceriam se ela continuasse ensinando e at mesmo mandariam suas prprias filhas para a escola dela, se fosse possvel. Os chefes, no entanto, nunca permitiriam isso. Ela tinha que parar de dar aulas imediatamente, eles advertiram, ou haveria problemas para todos. A mensagem direta deles no deixou nenhum espao para negociao. Malika fechou sua escola no perodo de uma semana.

Kamila lembrava frequentemente dessa histria, uma vez que ela se encontrava na mesma situao em que sua irm estivera. E se aquilo havia acontecido com Malika - conhecida em sua vizinhana como um dos membros mais responsveis e devotados de sua comunidade - com certeza tambm podia acontecer com ela.

Certo dia, ela chamou Sara e as meninas para discutir a questo e encontrar uma soluo, durante o caf da manh, bem antes da chegada das alunas.

Kamila, eu acho que ns precisamos estabelecer um esquema com horrios estritos que devero ser respeitados por todos daqui para frente, Laila foi a primeira a falar. Ns podemos distribuir os kits com os materiais de costura para cada mulher num determinado dia da semana, e assim ns saberemos quem vir e quando. E Saaman e eu podemos organizar as alunas de maneira a no haver mais de quinze ou vinte aqui, de uma s vez.  bastante gente, mas acho que podemos dar conta e teremos pessoas suficientes para cumprir um bocado de pedidos a cada dia.

Kamila teve que dissimular sua surpresa ao ouvir sua irm falar. Ela havia acabado de fazer dezesseis anos e j havia assumido tal nvel de responsabilidade nos ltimos seis meses! Sim, eu concordo;  uma tima ideia, ela disse. Se voc e Saaman estabelecerem juntas esse esquema de horrios para as meninas, ns poderemos coloc-lo ao lado da porta da frente, no incio de cada semana, para que cada uma saiba quando dever estar aqui.

E deixaremos bem claro que ningum poder mudar de dia sem nos consultar e que suas costuras tm de ser entregues rigorosamente no prazo, Sara acrescentou. Isso ajuda a evitar o problema que tivemos na semana passada, quando duas meninas entregaram seus trabalhos depois do prazo e Kamila Jan teve de voltar ao mercado com Neelab, em vez de Rahim.  perigoso demais, neste momento, corrermos tais riscos se podemos evit-los.

Acho que devemos aproveitar a oportunidade para falarmos sobre espao, Saaman disse. Quer dizer, sobre o problema da falta de espao.

A atividade delas j havia se expandido da sala de estar para a sala de jantar e estava ameaando ir alm e ocupar o quarto que restava da famlia. Havia vestidos pendurados em todos os espaos possveis e inimaginveis, de batentes de portas e cantos de mesas at encostos de cadeiras. Os quartos da frente da casa haviam sido transformados numa oficina que funcionava regularmente, quinze horas por dia, em sua capacidade mxima. As cadeiras na sala de estar formavam um U para que as aulas pudessem ser dadas no centro e as meninas conseguissem ver os trabalhos, umas das outras, embora algumas jovens continuassem preferindo ficar sentadas de pernas cruzadas no cho para costurar. Lampies distribudos nos quatro cantos iluminavam a sala retangular, depois que a luz do sol se afastava da rea de trabalho no final da manh. Ao anoitecer, as garotas aproximavam os lampies, cujas chamas exguas formavam esferas de luz que tremulavam em volta dos pequenos postos de costura. Duas mquinas para costura em ziguezague, o primeiro grande investimento de Kamila no negcio, estavam situadas juntas, num canto que dava para a porta da cozinha. Elas podiam ser usadas apenas algumas horas por dia, quando havia disponibilidade de luz eltrica, isso quando o fornecimento no era cortado.

Kamila deu uma olhada em volta e assentiu em concordncia. Eu sei, ela disse. Mas no tenho certeza do que podemos fazer quanto a isso. Eu andei pensando em comprar um gerador no Liceu Myriam. Seria muito dispendioso, mas dispondo de eletricidade, ns poderamos realizar nossos trabalhos com muito mais rapidez. Todo esse trabalho  mo toma demasiado tempo. No momento, trabalhamos sete dias por semana e ainda assim temos dificuldades para entregar as encomendas no prazo. S conseguimos graas s nossas alunas e ao fato de elas se esforarem tanto quanto ns!

Em sua maioria, as alunas eram jovens que moravam perto, ali mesmo em Khair Khana, e eram velhas conhecidas da famlia Sidiqi. Algumas delas haviam participado de um pequeno grupo anos antes, para estudar o Sagrado Alcoro, que Kamila dirigira, ainda no colgio. Fora dessa maneira que muitas famlias da vizinhana haviam conhecido a jovem professora.

Outras alunas, como Nasia, haviam se mudado para Cabul, onde passaram a viver como refugiados, depois de os combates terem destrudo suas casas na cidade de Shomali Plains, ao norte da capital. Assim que soubera da escola, que ficava apenas quatro casas abaixo da de seu tio, onde ela e seus sete irmos estavam morando, Nasia suplicara  sua me que a deixasse frequent-la. Assim como muitas outras alunas de Kamila, Nasia tinha agora dois trabalhos: durante o dia, ela costurava com as meninas na casa que ficava na mesma rua, e  noite, ajudava sua me viva a fazer chadri para os lojistas do Liceu Myriam. Todas as noites, as mulheres esperavam dispor de algumas horas de energia eltrica para passar a ferro e engomar o crculo azul de pregas feitas  mo em forma de um pequeno acordeo de vus.

E havia Mahnaz, uma garota para quem a casa de Kamila significava mais que um meio de vida, mas tambm uma tbua de salvao.

Ela tinha dezessete anos, mas por sua atitude franca e solene, ela causava a impresso de ter muito mais idade. Suas mos grossas, sendo grandes e fortes, impressionavam ainda mais pela delicadeza de seus trabalhos. Mahnaz possua um talento muito prprio para a arte de pregar contas, embora, como a maioria das meninas que trabalhava na casa Sidiqi, ser costureira no fosse seu sonho de vida. Ela sonhava em ser professora desde os sete anos de idade.

Depois da chegada do Talib, ela havia ficado em casa por quase meio ano, revendo os antigos manuais escolares e lendo romances policiais iranianos, colocando ocasionalmente os livros de lado para se juntar aos irmos e assistir aos filmes pirateados de Jean-Claude Van Damme na pequena televiso da famlia. Ela havia tentado se inscrever num curso de ingls que estava sendo dado perto de sua casa, mas sua famlia achou que era demasiadamente arriscado e proibiu-a.

Quando Mahnaz soube, atravs de uma amiga de sua prima, que Kamila e outras meninas de sua idade estavam costurando a apenas um quarteiro de distncia de sua casa, ela havia corrido para no perder a oportunidade de se juntar a elas. Duas de suas irms, uma das quais estava decidida a se tornar mdica quando estudar voltasse a ser permitido, decidiram prontamente se juntar a ela quando souberam o quanto Mahnaz estava adorando seu novo trabalho. Parece que a gente nem est na cidade de Cabul, ela disse para suas irms depois de seu primeiro dia na casa de Kamila.  como estar num lugar onde o Talib absolutamente no existe e no h nem sinal de guerra. Apenas todas aquelas mulheres trabalhando juntas, enquanto conversam e contam histrias.  maravilhoso!


Com tantas garotas aprendendo a costurar, os erros eram inevitveis. Sara ficava em p quase o dia todo, correndo de um lugar a outro da sala, supervisionando cada vestido antes de ele sair pela porta para ser entregue. Isto aqui no est bom, comece de novo! ela repreendia, severamente, a garota quando o vestido no correspondia a seus padres de qualidade.

Voc me faz lembrar de meu pai, Sara! Kamila costumava brincar. Eu acho que voc se daria muito bem no exrcito! Mas no era apenas no trabalho que Sara via sua funo crescer em importncia: com seu pequeno salrio ela estava agora dando uma contribuio para a cozinha de seu cunhado, alm de pagar os livros e lpis que seus filhos usavam na escola. Uma tarde em que almoavam juntas, Sara falou para Kamila sobre o irmo mais velho de seu falecido marido, Munir, o engenheiro de aviao que sustentava toda a famlia de quinze pessoas em casa. Ele sempre foi muito bom conosco, ela disse, pegando um pedao de po naan do grande filo sobre o tapete de vinil no cho diante delas, mas eu sabia que meus filhos e eu ramos um fardo que ele tinha de arcar depois da morte de meu marido; era difcil para ele. Agora, as coisas melhoraram muito. Duas noites atrs, quando minha cunhada e eu nos levantamos para lavar a loua depois do jantar, ele me disse: Sara Jan, eu tenho muito respeito pelo seu trabalho. Sua ajuda significa muito neste momento. Kamila, isso foi um grande choque para mim - quer dizer, Munir nunca foi um homem de falar muito, e muito menos de dizer tais coisas. Eu no tive palavras para responder a ele, fiquei s balanando a cabea e murmurando muito obrigada. Ela certamente no estava murmurando naquele momento, Kamila pensou, sorrindo para sua amiga, cujos olhos castanhos de cora brilharam ao contar sua histria. Kamila teve dificuldade para lembrar como era a figura tmida e assustada que batera  porta de sua casa em busca de trabalho, muitos meses antes. Eu no a reconheceria, ela pensou consigo mesma. E apostou como Sara Jan tampouco se reconheceria.

Como o negcio de confeco de roupas estava se expandindo rapidamente, Kamila passou a depender de Rahim para ir ao Liceu Myriam, quase todos os dias. Quando se tratava de fazer negcios, eles sempre iam juntos, mas se Kamila precisava de apenas alguns suprimentos de costura, Rahim passava l para busc-los na volta da escola.

Por isso, Kamila no achou nada demais quando, num final de tarde, Saaman lhe perguntou se ela sabia onde estava Rahim.

Ele est tremendamente atrasado, ela disse, andando lentamente ao redor da sala de trabalho. Todas as alunas haviam ido embora horas atrs e as irms estavam sozinhas em casa trabalhando como sempre.

Que horas so? Kamila perguntou. O mais provvel  que ele esteja saindo do centro comercial ou talvez tenha encontrado alguns amigos. Tenho certeza de que est tudo bem.

Mais uma hora se passou e, quando deu sete horas, ela j no tinha mais tanta certeza. Ele estava horas atrasado do horrio normal. Seu estmago estava embrulhado e ela no conseguia ficar sentada.

Vocs sabem se ele saiu de bicicleta hoje? Ela perguntou s irms.

Saaman balanou a cabea afirmativamente.

Kamila largou no cho o trabalho que estava fazendo e foi em direo  porta e ali ficou percorrendo, de um lado para outro, o pequeno espao do vestbulo. Saber que no podia sair para procurar seu irmo sem causar mais problemas a fez se sentir ainda mais impotente.

A essa altura, todas as irms haviam se juntado na sala de estar. Ningum dizia nem fazia nada. Kamila sentiu lgrimas brotarem de seus olhos ao imaginar quo terrvel seria para Rahim se seus piores receios se provassem realidade. Ela suplicou a Deus para que, com sua infinita misericrdia, protegesse seu irmo. Ele  tudo que tenho neste momento, Kamila pensou, alm das meninas. Por favor, por favor, no o tire de mim. Ela achava que seria culpa sua se algo de ruim acontecesse com Rahim, porque fora ela quem o mandara ir ao Liceu Myriam.

Finalmente, ouviu-se a batida do porto l fora se fechando.

Kamila correu para seu irmo. Ele estava plido e desgrenhado, mas parecia ileso.

Oh, meu Deus, o que foi que aconteceu? Laila gritou. Voc est bem?

Por favor, por favor, eu estou bem, Rahim repetiu. Ele pendurou seu casaco como fazia normalmente, mas Kamila percebeu que havia nele algo de muito errado. Ela o fez sentar-se  mesa.

Conte-nos o que foi que aconteceu, Kamila disse, de maneira um pouco mais insistente do que pretendia. Ela lembrou de Malika, que conseguia se impor de maneira maternal e nunca perguntava, mas exigia a verdade. Sinto muito, ela sussurrou. Ns estvamos demasiadamente preocupadas.

Laila chegou correndo com uma xcara de vidro com ch verde e as mos de Rahim tremeram um pouco quando ele, agradecido, estendeu-as para segurar sua ala transparente.

Eu esqueci de dizer a vocs que teria uma aula extra no final da tarde, uma aula de preparao para as provas, Rahim comentou, com relutncia. Bem, ento quando eu estava indo para l, ouvi um barulho vindo de trs de mim. Virei-me e vi que eram trs talibs. Eu continuei pedalando minha bicicleta, esperando que eles se dirigissem para outra pessoa. Eu no tinha feito nada de errado. Mas ouvi os passos deles bem atrs de mim e eles comearam a gritar para que eu parasse. Eu tive receio de que eles me alcanassem, de qualquer maneira, se eu no parasse e ento as coisas ficariam muito piores. Por isso, eu pisei nos freios.

Ns mandamos voc parar, eles disseram. Qual  o seu problema? Eu disse a eles que estava indo para uma aula, que sou estudante de Khair Khana e que s queria no chegar atrasado para a aula. Ento eles perguntaram quantos anos eu tinha e de onde eu era. Eles queriam ver minha carteira de identidade. Um deles ficou empunhando seu shaloq [basto de madeira], enquanto eu tentava encontrar minha carteira de identidade, mas no conseguia lembrar onde a havia colocado.

Lgrimas escorriam pelas faces de Kamila, mas ela no disse nada.

Finalmente, eu encontrei a carteira de identidade, mas acho que isso s fez piorar as coisas. Eles queriam saber onde meu pai estava e se estava lutando contra os talibs. Eu fiquei repetindo que papai est aposentado e que minha famlia no tem nada a ver com poltica. Que no queremos saber de encrenca. Mas eles no acreditaram em mim. Eles voltaram a perguntar sobre papai e se eu tinha irmos e onde eles estavam? Em seguida, eles ameaaram me levar preso. No sei se eles estavam falando srio, mas o fato  que eles ficavam empunhando seus bastes para tentar me aterrorizar. Finalmente, apareceu um outro talib dizendo que havia uma famlia assistindo a um vdeo em sua casa e, com isso, eles se distraram e acabaram deixando que eu fosse embora.

As meninas ouviram todo o relato em total silncio.

Por favor, no se preocupem, ele suplicou ao ver a aflio em seus semblantes. Como vocs podem ver, eu estou bem. No aconteceu nada. Est tudo bem.

Mas no estava bem, nada estava bem, Kamila pensou. Da prxima vez poderia ser muito pior.

Apesar de tudo que tinham conquistado - as encomendas crescentes do mercado, a escola de corte e costura, o pequeno negcio em franco progresso que haviam construdo - suas vidas eram to incertas quanto a de todos os outros moradores de Cabul. Eles no passavam de crianas lutando para sobreviver a outro ano de guerra sem pais para tomar conta deles. Tudo que os protegia naquele momento era a f que tinham - e um porto verde de metal que os separava do mundo l fora.

No, nada estava bem. Mas a nica coisa que Kamila podia fazer naquele momento era continuar seguindo em frente. E continuar trabalhando. Pelo bem de toda a famlia.



Uma inesperada cerimnia
 de casamento

Os bebs tinham passado a noite chorando. Exausta, depois de ter passado a noite em claro, e preocupada com a sade de suas gmeas, Malika se sentiu tentada a desabar sobre sua fofa almofada vermelha ao lado do bero de madeira e chorar com eles. Mas ela no tinha tempo para se permitir tal indulgncia. Os bebs estavam febris e com clicas; assim que abrisse, s duas horas da tarde, ela os levaria ao consultrio da Dra. Maryam.

Bachegak, bachegak [bebezinhas da mame] no chorem, a mame promete que tudo vai ficar bem, Malika sussurrava, embalando os bebs no colo enquanto andava pelo quarto, tentando faz-los dormir. As gmeas recm-nascidas eram minsculas por terem nascido prematuras, quase dois meses antes do previsto, e haviam lutado desde ento para ganhar peso e fora. Elas continuavam fraquinhas e doentias e seus corpinhos frgeis lutavam contra a diarreia e o que parecia ser uma sequncia interminvel de infeces. Malika havia tido a sorte de encontrar uma mdica mulher a tempo de assistir a seu parto prematuro; naqueles dias, as mulheres davam  luz em seus quartos, sem contar com a ajuda de uma profissional.  claro que dar  luz num hospital no significava nenhuma garantia de facilitar os trabalhos de parto a uma mulher; a guerra civil havia destrudo a maioria das instalaes hospitalares, que ficaram desprovidas de todos os equipamentos e suprimentos necessrios. Os pacientes tinham que mandar aviar as receitas por conta prpria e at mesmo receber comida de casa.

Com o Talib no poder, os mdicos de Cabul puderam voltar a trabalhar sem receio de serem atacados por bombardeios, mas as mdicas mulheres - aquelas que no haviam fugido do pas quando Cabul foi tomada pelo Talib - passaram a enfrentar uma nova srie de problemas. O Talib havia determinado que nos hospitais, como em todas as outras instituies, houvesse uma segregao por gnero, restringindo que as mdicas mulheres tratassem unicamente pacientes femininas e trabalhassem em alas de atendimento restritas apenas a mulheres. Elas no tinham permisso para trabalhar com - e muito menos consultar - seus colegas masculinos. Como as organizaes internacionais de ajuda continuavam discutindo a questo com respeito a quanto de ajuda dar a um regime como o do Talib, particularmente por sua poltica voltada para as mulheres, estava difcil a ajuda chegar aos hospitais do pas. Em consequncia disso, os mdicos e cirurgies tinham de trabalhar regularmente sem nem mesmo os suprimentos mais bsicos, como gua limpa, materiais para curativos e antisspticos. Anestesia era um luxo. Como a maioria das mulheres de Cabul, Malika no tinha agora outra escolha seno procurar tratamento com uma das poucas mdicas que haviam decidido permanecer na capital. A Dra. Maryam, como muitas de suas colegas, tinha um consultrio particular, alm de trabalhar no hospital, para poder sustentar sua famlia.

Malika chegou ao consultrio dela cedo e com um bom motivo: em trinta minutos uma multido de mulheres encheu sua despojada sala de espera, muitas delas apoiando-se contra as paredes com seus filhos no colo. A procura pelos servios da Dra. Maryam havia aumentado tanto nos ltimos meses, que ela havia tido que contratar uma assistente para distribuir senhas numeradas a todas as mulheres que entravam no consultrio. Malika aguardou, pacientemente, a vez de seu nmero ser chamado. Ela manteve seu olhar fixo nas bolhas que haviam descascado a pintura das paredes da sala, enquanto rezava pela sade das gmeas e se perguntava onde arranjaria dinheiro para pagar se tivesse que comprar algum remdio contra o mal de que estavam sofrendo.

Ao entrar, finalmente, no consultrio, Malika cumprimentou-a com beijos nas faces e afastou-se para que ela pudesse comear a examinar os bebs. A especialidade da Dra. Maryam era pediatria e, em sua presena, a me aflita pde soltar os ombros e o queixo pela primeira vez em horas. A doutora examinou um beb de cada vez, com a confiana natural que adquirira em dcadas de experincia. Desde criana, o sonho da Dra. Maryam era ser mdica, e seus pais, nenhum dos quais tinha qualquer educao formal, trabalharam incansavelmente para ajudar sua filha a realiz-lo. Ela deixou sua aldeia rural para estudar na faculdade no incio da ocupao russa, e os representantes locais do regime Mujahideen procuraram o pai de Maryam para reclamar por sua filha estar frequentando a faculdade de medicina na Universidade de Cabul. Eles sugeriram, empunhando rifles, que uma escola apoiada pelos soviticos no era lugar para uma moa de respeito e que sua famlia devia ter muitos simpatizantes que apoiavam a invaso russa. Em resposta, o pai dela havia feito um trato: ele forneceria a eles a quantidade de trigo que quisessem, de graa, se eles deixassem sua filha continuar seus estudos em paz. Ele acabou tendo que vender grande parte das terras agrcolas da famlia para financiar os estudos universitrios de Maryam, sem jamais reclamar; os Mujahideen tiveram seu trigo e sua filha conseguiu o diploma de mdica.

Depois de concluir seus estudos, a Dra. Maryam trabalhou por mais de uma dcada no Hospital da Mulher em Cabul, chegando a conquistar um cargo importante de supervisora dos mdicos recm-formados. Ao mesmo tempo, ela criou dois filhos com seu marido, que tinha formao cientfica e que agora possua uma farmcia, perto do consultrio dela em Khair Khana.

Com a chegada do Talib ao poder, tudo mudou, evidentemente. O novo regime colocou seus prprios homens dentro do hospital e encarregou-os de supervisionar tudo que acontecesse. Eles costumavam irromper na ala feminina para ver se no havia nenhum homem ali e se as mdicas mulheres continuavam usando vus enquanto tratavam dos doentes que vinham procur-las. De estatura alta e uma postura imponente, quase majestosa, Maryam no se sujeitava facilmente a aceitar ordens quanto ao que podia ou no fazer com seus pacientes e lhe era impossvel guardar o que sentia para si mesma. Ela se encolerizava diante das restries impostas e no deixava de manifestar suas frustraes a seus colegas, um dos quais a denunciou. Os altos dignitrios do Talib no gostavam de ser questionados por ningum, e muito menos por uma mulher, e a Dra. Maryam passou a ser constantemente vigiada pelos soldados do governo - eles acompanhavam todos os passos dela.

Apesar das dificuldades, a Dra. Maryam mantinha uma carga horria que impressionava at mesmo Malika e Kamila. Ela trabalhava todos os dias das oito da manh at a uma da tarde no hospital, antes de ir para seu consultrio em Khair Khana atender suas prprias pacientes, onde ficava at a noite para atender a todas as mulheres que necessitavam de seus cuidados. Como Kamila e suas irms, ela se recusava a dispensar ajuda a qualquer mulher necessitada. A maioria de suas pacientes sofria de desnutrio por no ter condies de comprar comida. Mas a depresso tambm era um mal comum entre as antigas professoras, advogadas e funcionrias, que estavam abatidas, impotentes e desesperadas por no terem o que fazer nem para onde ir. Muitas delas procuravam a Dra. Maryam em busca de conselhos e consolo, alm de uma oportunidade para sarem de casa.

Agora, ali em seu consultrio com uma mo em cada um dos minsculos bebs, a mdica voltou sua ateno para a me deles.

No sei com quem estou mais preocupada, Malika: se com voc ou com suas meninas, ela disse. Voc est conseguindo dormir? Com certeza, no  o que parece. Sei que voc tem toda uma famlia para tomar conta, mas voc precisa descansar um pouco. Foi com um tom de voz calmo, mas firme, que ela se dirigiu a sua terceira paciente. No vai ser bom para ningum se voc ficar doente.

Malika ficou olhando para o carpete, se esforando para conter suas lgrimas. Ela pensava em seu marido, seus meninos e suas gmeas doentes, suas irms e em todas as pessoas que contavam com ela. Naquele instante, ela estava se sentindo totalmente sozinha, sem ningum com quem dividir seu fardo e sem outra escolha que no fosse a de seguir em frente.

Pense em tudo que voc j fez, Maryam continuou. Ela passou os dois bebs para Malika e puxou sua cadeira para mais perto dela. Voc conseguiu manter seu filho mais velho na escola, cuidar dessas duas menininhas doentes, ajudar no negcio de suas irms e sustentar sua famlia. Nenhuma dessas responsabilidades  coisa simples e voc no vai certamente desistir agora. Mas voc tem que cuidar mais de voc mesma. Do contrrio, ser voc a paciente de quem terei de tratar da prxima vez, no os bebs. Voc entende?

Malika moveu levemente a cabea em assentimento. Ela deu um forte abrao na doutora antes de pegar seu chadri do gancho na porta e voltar a acomodar um beb em cada brao.

Irei agora at a farmcia de seu marido aviar as receitas, Malika disse. E voc pode me procurar de novo quando precisar de vestidos, tanto para voc mesma como para suas sobrinhas!

Mais tarde, naquele mesmo dia, Malika confidenciou a Kamila que estava se sentindo melhor s de ter tido um instante de calma e poder conversar sobre seus problemas com algum em que confiava. Com as dezenas de garotas que vinham diariamente  sua casa, ela e suas irms haviam se acostumado muito mais a ouvir os problemas alheios do que a falar de seus prprios, inclusive entre elas mesmas. Kamila vinha h dias preocupada com sua irm e se sentiu aliviada ao saber que a mdica havia insistido para que ela cuidasse mais de si mesma.

Malika, no entanto, no foi a nica a ouvir um sermo da Dra. Maryam. Kamila tambm deu uma escapada para ir a seu consultrio, depois de alguns dias se sentindo meio cansada e tonta. Maryam advertiu Kamila de que sua presso estava demasiadamente baixa e que ela precisava descansar mais. Mas seguir o conselho da mdica estava sendo difcil tambm para ela. Com todas as encomendas por cumprir e a constante afluncia de novas alunas, ela podia se sentir satisfeita se conseguisse dormir mais de cinco horas a cada noite. Mesmo quando ela finalmente ia para o quarto, que dividia com suas irms, ela continuava acordada por horas, preocupada com a possibilidade de no terem trabalho suficiente na semana seguinte e de as garotas no conseguirem entregar todas as encomendas que j tinham.

Kamila havia tambm, por sugesto de Malika, comeado a incentivar as meninas mais talentosas a criarem seus prprios modelos e adotarem seus prprios estilos. Ela estava, no entanto, percebendo que enquanto costurar um modelo de vestido novo era bastante simples, produzir uma dezena deles, todos de uma s vez, requeria muitas idas  loja de tecidos e dias de trabalho de vrias costureiras. Mahnaz havia acabado de criar um novo modelo, no qual uma complicada geometria de contas transparentes com pontinhos dourados no centro cobria um tecido de cor prpura com flores amarelas e brancas, do pescoo at a cintura. Kamila estava entusiasmada com a ousadia e a criatividade de Mahnaz e adorou o modelo, mas ficou se perguntando por que raios ela havia concordado em produzir tantos vestidos adornados para Hamid em apenas sete dias.

Kamila decidiu que, se quisesse realmente expandir seu negcio, teria de investir nele para poder produzir um nmero maior de vestidos com mais rapidez. Precisamos de novas mquinas, ela disse para Rahim, e precisamos delas imediatamente. Acompanhada de seu fiel escudeiro, ela foi ao Liceu Myriam e escolheu muitas mquinas, inclusive uma de bordar importada do Paquisto e que custava uma fortuna, e um pequeno novo gerador que seria instalado no ptio. O irmo de uma de suas alunas, Neelufar, havia prometido ensinar Kamila a usar a mquina de bordar em troca de ela ensinar sua irm a costurar. Vestidos bordados vendiam a rodo e o dinheiro extra com certeza ajudaria. Com todas essas mquinas, ela disse a Rahim, enquanto sua preocupao era como levar tudo aquilo para casa, agora no temos por que no triplicar os pedidos, voc no acha?

Ele assentiu, silenciosamente, para sua irm, pois estava concentrado demais em firmar todo aquele maquinrio, para conseguir falar.




Uma manh, logo aps a chegada dos novos equipamentos, Kamila estava absorta em seu trabalho de pregar contas no ltimo dos vestidos de cor prpura criados por Mahnaz; Malika estava sentada perto dela, lutando com as dobras de um terno que insistiam em no se deixar assentar. Finalmente, ela percebeu que a jovem ajudante Neelab estava parada em silncio a seu lado. Os olhinhos da menina se voltaram para uma pilha de retalhos de tecidos no cho enquanto aguardava que Malika notasse sua presena.

Sim, Neelab, desculpe, o que ? ela perguntou  menina.

Tia Malika, tem uma famlia l na porta - trs damas, e uma delas vai casar. Elas querem saber se a senhora pode fazer os vestidos para o casamento da noiva.

A menina levantou os olhos. Elas precisam dos vestidos para amanh.

Malika achou que no tinha ouvido direito. Para amanh?

Sim, a menina respondeu, foi o que ela disse.

Naqueles dias, os poucos casamentos que se realizavam raramente eram feitos s pressas. Levava muito tempo para economizar ou tomar emprestado o dinheiro para a cerimnia e tambm para juntar todos os convidados dos lugares distantes para onde eles haviam fugido. De todas as maneiras, a maioria dos noivos em potencial estava ou fora do Afeganisto ou lutando nas frentes de combate.

Tudo bem, diga s mulheres que entrem, Malika disse. Vamos ver o que elas esto querendo.

Alguns instantes depois, duas jovens acompanhadas de sua me, evidentemente ansiosa, entraram na sala.

Oh, graas a Deus, disse a mulher mais velha, ao olhar em volta da oficina abarrotada e ver todas as meninas trabalhando - ela deu um sorriso tenso.  exatamente de um lugar como este que estvamos precisando. Meu nome  Nabila e estas so minhas filhas Shafiqa e Mashal. Shafiqa vai se casar depois de amanh e ns precisamos que seus vestidos sejam feitos imediatamente. Ns andamos percorrendo a cidade de carro o dia todo, tentando encontrar uma oficina de confeces femininas que pudesse assumir a tarefa, mas esta aqui  a primeira que encontramos capaz de realizar o que queremos.

Ao terminar de falar, Nabila tirou duas peas de tecido, uma verde e outra branca, de uma sacola de plstico.

Aqui est o material, ela disse, entregando a pilha para Malika antes que a costureira tivesse tempo para dizer no. Ns ficaremos realmente agradecidas por vocs fazerem estes vestidos para ns em to pouco tempo.

Malika continuava um pouco embasbacada, mas assim mesmo sorriu e pegou o tecido.

Nabila fez ento um gesto para a menina mais nova, Mashal, que desapareceu rapidamente da sala.

Bem, sim,  claro, Malika disse. Ns vamos faz-los, apesar de esse tipo de encomenda normalmente exigir pelo menos alguns dias de trabalho. Mas ns j fizemos muitos vestidos de casamento e acho que podemos dar conta desses. Eu providenciarei para que os vestidos de sua filha estejam prontos amanh  noite.

Malika conduziu Shafiqa, a noiva, pelo corredor, at uma tenda improvisada com lenis de algodo claro que servia de provador. Ela era uma linda garota, de talvez dezenove ou vinte anos, magra e um pouco plida, com olhos claros e maxilares proeminentes que dividiam um rosto estreito, como de uma boneca. Depois de tomar as medidas de Shafiqa, Malika voltou para a sala e encontrou Nabila esperando por ela juntamente com a outra filha, Mashal. Pelo visto, ela havia retornado enquanto estavam sendo tomadas as medidas da noiva e agora estava ali, parada, um pouco ofegante, apertando entre os brao uma sacola ainda maior do que a de sua me.

Sinto muito lhe incomodar, comeou a dizer a me, voltando-se de novo para Malika. mas vejo que h muitas garotas costurando aqui e gostaria de saber se voc teria a gentileza de fazer mais quatro vestidos para ns? Sem esperar pela resposta de Malika, ela enfiou a mo dentro da sacola e retirou dela um punhado de tecidos. As irms de Shafiqa e eu tambm precisamos de vestidos para a cerimnia de casamento. Como eu j disse, ns no conseguimos encontrar em nenhum lugar uma costureira feminina que pudesse fazer tantos vestidos de uma s vez. Ns estamos realmente desesperadas, j que faltam apenas dois dias para o casamento. Voc acha que daria conta de fazer todos os seis vestidos para ns?

Ela entregou a sacola para Malika, que estava tentando conter sua estupefao.

Voc quer que eu faa dois vestidos para a noiva e mais quatro vestidos para a cerimnia de casamento em apenas um dia?

A mulher assentiu vigorosamente. Ela parecia estar realmente desesperada.

Malika permaneceu em silncio por um momento. Tal encomenda tomaria normalmente uma semana de trabalho. Para que fosse possvel realizar uma encomenda de tal monta, do que ela no tinha absolutamente nenhuma certeza, ela precisaria da ajuda de todas as suas irms e de todas as alunas da escola. E teriam que todas por mos  obra o mais prontamente possvel, ou seja, imediatamente.

Bem, ela pensou consigo mesma, ns queramos mais trabalho...

Malika conduziu Nabila at o vestbulo, onde pediu que ela aguardasse com as duas meninas, enquanto ela voltou correndo  sala onde Kamila continuava absorta em seu trabalho de pregar contas.

Kamila Jan, tem uma mulher aqui querendo que eu faa seis vestidos em um dia para a cerimnia de casamento de sua filha.  evidente que eu no posso faz-los sozinha; para ser sincera, no sei se todas juntas conseguiremos dar conta de tal empreitada. O que voc acha?

Kamila nem teve que pensar; ela largou o tecido de cor prpura e respondeu prontamente, absolutamente decidida.

Sim,  claro que podemos. As meninas e eu vamos ajud-la. De qualquer maneira, estamos quase terminando esta encomenda de Hamid, ela disse. Ns daremos conta do recado - voc sabe que sempre arranjamos um jeito. Alm disso, quantas vezes voc j nos salvou? Mais vezes do que podemos contar!

Bem, ser uma faanha e tanto, Malika disse, beijando sua irm na face em agradecimento, antes de voltar para suas novas clientes.

Vocs todas tero que voltar aqui ainda hoje, um pouco antes das seis horas da tarde, para que possamos fazer as provas em todas vocs, ela disse s novas clientes.

Normalmente, ns no pediramos para voltarem  noite, por causa dos soldados e do toque de recolher, mas para trabalharmos com toda essa pressa, vamos precisar da colaborao de vocs, ela disse. Mas, por favor, procurem no se atrasar; no queremos que vocs estejam na rua ou em nosso porto na hora das preces.

Sim, sim,  claro, tudo bem, disse a me da noiva, j toda sorridente. Ento nos veremos no final da tarde. E muito obrigada. Muito obrigada mesmo.

Assim que as mulheres foram embora, a sala de costura entrou em efervescncia quando Malika convocou suas tropas e deu orientaes a cada uma.

Muito bem, garotas, ns vamos comear a trabalhar com esta encomenda e precisamos da colaborao de todas vocs, ela comeou, colocando-se diante das alunas na frente da sala de estar. Temos sete horas at as mulheres voltarem aqui. At l, precisamos estar com o modelo bsico de cada vestido pronto para ser provado. Eu vou assumir a responsabilidade pela equipe que far os vestidos de noiva e Kamila pela equipe que far os vestidos da me e das irms da noiva. Saaman far o corte de todos os tecidos e as marcaes para os bordados. Laila e Neelab sero responsveis por providenciar os suprimentos necessrios. Sara Jan estar disponvel para esclarecer quaisquer dvidas que cada uma possa ter quanto ao que lhe cabe fazer. Por favor, no hesitem nem por um segundo se tiverem alguma pergunta a fazer a qualquer uma de ns; ns no temos tempo a perder com erros e estamos dispostas a interromper nossos prprios trabalhos para atend-las, no quer que vocs precisem de ajuda. E se alguma de vocs puder ficar at um pouco mais tarde hoje, ns ficaremos extremamente agradecidas.

Com isso, as equipes se prepararam para entrar em ao. Elas trabalhariam em duas etapas, comeando pelo vestido verde, que Shafiqa usaria durante a cerimnia em que a noiva e o noivo fariam seus votos de matrimnio. Em seguida, ela e as meninas se ocupariam com o vestido branco, que Shafiqa usaria para a recepo dos convidados que ocorreria aps a cerimnia. A noiva havia pedido que ambos os vestidos fossem extremamente longos e simples, com apenas um mnimo de contas em volta do decote e das mangas. Malika havia achado aquilo um pouco estranho, especialmente porque a noiva havia visto os belos bordados que as meninas eram capazes de fazer, nos vestidos pendurados na oficina de costura. Mas melhor assim, ela disse s meninas. O trabalho manual nos retardaria em pelo menos meio dia.

O grupo de costureiras de Kamila comeou desenrolando o rolo de tecido que Nabila havia trazido e organizando cada tecido com a mulher que o usaria. Ela escreveu os nomes em pedacinhos de papel, que fixou com fita adesiva no cho, ao lado de cada pilha de tecido. Depois de Saaman ter cortado o tecido e feito as devidas marcaes para os bordados, as meninas comearam a trabalhar em duplas, dividindo cada corpete e saia em barras longitudinais que podiam ser trabalhados separadamente. Quando chegou a vez de trabalhar com as mangas, as garotas anotaram o comprimento do brao de cada cliente e o estenderam sobre a mesa diante delas, antes de comear a alinhavar pela superfcie superior do tecido,  maneira que Kamila as havia ensinado. Isso facilitaria o trabalho posterior de prender as mangas ao resto do vestido. As meninas seguiram as orientaes para que deixassem tecido extra para a primeira prova. Como suas professoras no se cansavam de repetir,  melhor que uma manga seja comprida demais do que curta demais. Quando comprida demais, era o mantra repetido incansavelmente, sempre se pode encurtar.

Toda aquela atividade fazia o ambiente zunir, mas quase no havia nenhum outro rudo, alm dos zum-zuns e estalidos das mquinas de costura misturados ao ronronar do gerador eltrico e das instrues que Malika e Kamila davam a cada perodo de minutos. Todo mundo estava concentrado no trabalho que tinha diante de si. Depois de mais ou menos uma hora trabalhando nesse ritmo, uma das alunas mais jovens perguntou a Kamila se podia tocar uma fita cassete que havia trazido, prometendo que manteria o volume baixo. Kamila concordou que seria agradvel ouvir um pouco de msica e foi at um armrio pegar o velho toca-fitas chins de seu pai. Logo o ambiente se encheu com a voz melodiosa de Farhad Darya, o lendrio artista popular e ex-professor de msica da Universidade de Cabul; ele havia sido aclamado pela Rdio Afeganisto como o Cantor do Ano em 1990, o mesmo ano em que ele fugiu de Cabul e foi para a Europa, depois de ter se metido em encrencas com o governo afego apoiado pelos soviticos. As garotas sabiam de cor a letra de cada msica e cantavam junto com ele em voz baixa enquanto costuravam.

Quando o corpete do vestido branco de noiva comeou a tomar forma e a saia estava quase pronta, Malika pediu a uma das alunas, cuja altura era quase a mesma da noiva, que ficasse parada no centro da sala. Ento, Malika demonstrou o quanto era experiente, pregando alfinetes nas partes da frente e de trs de cada vestido, em volta da garota, e fazendo uma rpida avaliao de todo trabalho que tinham pela frente.

timo, este  um bom comeo, Malika disse. Nas saias, procurem fazer com que haja uma almofada de tecido na ponta inferior. Lembrem-se que as saias devem ser retas e, como pode no ser fcil conseguir isso com o tecido branco lustroso, procurem ir com calma e empreguem tempo suficiente para isso. Em breve, a noiva voltar aqui.

Quando havia terminado de juntar todos os tecidos e de dispor todos os fechos e grampos de que elas precisariam mais tarde, Laila foi para a cozinha preparar uma bandeja de chai e halwaua-e-aurd-e-sujee, um confeito doce feito de farinha, acar, leo e nozes para o lanche das garotas. A hora do jantar estava se aproximando e era bvio que ela teria que preparar comida para, no mnimo, vinte pessoas em vez de doze, como normalmente fazia. Ela mandou Neelab comprar mais naan e cebola na mercearia do outro lado da rua. Arroz elas compravam em grandes sacas e parecia que, por ora, tinham o suficiente; no havia necessidade de comprar algo enquanto no fizesse falta.

Pontualmente, s seis horas da tarde, a turma casamenteira chegou, fazendo-se ouvir j no porto da rua e de novo junto da porta da casa. Elas saudaram efusivamente Malika e Kamila e as seguiram at o provador. Depois de entrar com muito cuidado em seu vestido de noiva para evitar ser picada pelos alfinetes que prendiam as respectivas partes, umas as outras, Shafiqa ficou imvel enquanto Malika e Kamila andavam  sua volta, trocando ideias uma com a outra e anotando os lugares que precisavam ser diminudos e os que precisavam ser aumentados. Depois dela, foi a vez de Nabila e suas outras filhas provarem seus vestidos. Kamila se encheu de orgulho ao verificar que suas jovens alunas estavam dando conta das tarefas que lhes haviam sido incumbidas. Logo, elas no vo mais precisar de mim, Kamila pensou consigo mesma, maravilhada com o quanto as garotas haviam aprendido e como se mostravam confiantes para lidar com suas clientes.

Antes de as mulheres sarem, Nabila parou diante da porta para arranjar seu chadri. Eu reconheo que este  um grande volume de trabalho para voc e todas as suas alunas, ela disse para Malika. Eu e minha famlia somos muito gratas por isso. Ns no temos tido muitas ocasies felizes nesses ltimos anos e esta  uma que temos o maior prazer em celebrar.

Este  o nosso trabalho e estamos contentes por podermos faz-lo, Malika respondeu, sorrindo. Aguardamos a vinda de voc e suas filhas de novo, amanh, para a ltima prova. Por favor, venham cedo para termos o mximo de tempo possvel.

Malika, Kamila e suas equipes continuaram trabalhando noite adentro. Rahim tambm participou da maratona de confeco dos vestidos depois de voltar da escola; suas irms estavam impacientes para disporem de sua habilidade nos trabalhos de bordado e pregao de contas. Todos teriam realmente que trabalhar dia e noite, como Malika havia previsto. Em algum momento, depois da meia-noite, as jovens finalmente deram o dia por encerrado. As irms levantariam para fazer as oraes ao amanhecer e retomar os trabalhos onde haviam deixado. Todas elas estavam exaustas, mas Kamila ainda tinha energia suficiente para arreliar com sua irm caula.

Eu acho que no faremos isso de novo, ela disse, apagando a luz do ltimo lampio. Quando voc for se casar, Saaman, nos comunique, por favor, com pelo menos dois meses de antecedncia.

Kamila Jan, sua irm retorquiu, quando eu me casar, ns no teremos mais este negcio de costura; voc estar ensinando literatura a uma classe repleta de estudantes e s Deus sabe o que eu estarei fazendo, mas de uma coisa eu tenho certeza: ns no teremos tempo para fazer vestidos; iremos  loja mais sofisticada e os compraremos!

Cedo, na manh seguinte, as garotas estavam de volta a seus postos nas mquinas de costura.

Quando Nabila e suas filhas chegaram, encontraram as costureiras to ocupadas com seus vestidos, que elas mal perceberam a entrada da turma casamenteira. Dessa vez, Shafiqa pde provar seu vestido sem receio, pois Malika j havia removido todos os alfinetes. Ela havia acabado de pregar as partes do vestido uma hora antes.

Ele  lindo, Shafiqa disse, dando um passo  frente e, em seguida, dando uma volta completa. O decote est perfeito e o enfeite de contas  maravilhoso.

Voc est linda, Kamila disse. Esperamos que voc tenha uma cerimnia de casamento maravilhosa.

O vestido verde tambm estava quase pronto. Mahnaz precisava apenas terminar de pregar as contas, o que ela se apressaria a fazer, agora que elas sabiam que Shafiqa havia gostado do modelo do vestido e estava satisfeita com seu feitio.

Eu acho que estamos indo muito bem, Malika disse para Kamila, posteriormente naquela tarde. Devemos estar com tudo pronto quando elas voltarem no final da tarde para buscar todas as peas. Temos apenas que nos concentrar em terminar os vestidos de Nabila e suas filhas, que so muito mais simples.

Mas no tinham tempo a perder. Horas antes de serem esperadas, Nabila e suas filhas j estavam de volta  sua porta.

Dessa vez elas estavam com muita pressa.

Voc tem os vestidos prontos, Malika Jan? Nabila entrou na oficina de costura, perguntando. Suas filhas, inclusive a noiva, se espremendo nervosas atrs dela. Eu sinto muito, mas tivemos uma mudana nos planos e precisamos dos vestidos imediatamente.

Se Malika ficou atordoada, ela no demonstrou. Depois de anos costurando para amigas e vizinhas, ela havia se acostumado com as exigncias mais impossveis e ensinado a si mesma a reagir com calma e pacincia.

A maior parte deles est pronta, ela respondeu, olhando para a sua irm, mas estamos terminando o seu vestido. Kamila ficou impressionada com a atitude calma de sua irm. Vamos termin-lo em mais alguns minutos. Por favor, sente-se e tome uma taa de ch enquanto espera.

Por favor, eu no me importo com o meu vestido, no vamos nos deixar prender por causa dele, Nabila insistiu. O tom de sua voz estava se elevando rapidamente. Ns estamos realmente com muita pressa.

Malika respirou fundo.

Tudo bem, aguarde aqui, ela disse, apontando para as almofadas na oficina de costura. Ns estamos terminando de fazer a bainha de seu vestido e precisamos de apenas cinco minutos para t-lo pronto. Ento, voc poder levar todos.

As palavras dela desencadearam uma correria entre as meninas para pegar os vestidos brancos e verdes do vo da porta onde estavam pendurados. Como no havia eletricidade e elas haviam usado todo combustvel do gerador, Nasia e Neelufar foram para a cozinha e acenderam o forno a gs que usariam para aquecer o ferro a vapor. Malika no permitiria que os vestidos de Shafiqa deixassem sua casa sem estarem devidamente passados a ferro. Nenhuma noiva quer usar um vestido amassado.

Quanto ao vestido de Nabila, Sara estava instruindo as alunas para que se concentrassem em termin-lo, no em sua perfeio. Uma das meninas se concentrou no arranjo cinza do vestido, enquanto trs outras, agachadas no cho, costuravam a bainha.

E ento, finalmente Terminamos! uma das meninas gritou para Sara, ainda com uma agulha presa entre os dentes. O trio havia terminado seu trabalho. A essa altura, os outros cinco vestidos j estavam passados e embalados, somente aguardando que Neelab e o filho de Malika, Hossein, ajudassem suas ansiosas donas a os levarem para fora da casa.

Malika se apressou a dar uma ltima conferida no vestido restante. Parece bom, meninas. Com mais tempo, ns poderamos t-lo deixado ainda melhor, mas d pro gasto.

A essa altura, Nabila j havia se levantado da cadeira para atravessar a oficina de costura. Assim que viu seu vestido sendo colocado dentro da sacola, ela correu a abraar Malika e Kamila, agradecendo-as profusamente por toda a ajuda prestada e, ao mesmo tempo, apressando suas filhas: elas no tinham tempo a perder.

Neelab pegou o pacote com todos os vestidos com muito cuidado e acompanhou as mulheres, atravs do quintal, at a rua. Ali ela teve a maior surpresa do dia.

Neelab viu ali na rua trs carros esperando pelas mulheres. Ela teve que reprimir sua vontade de soltar um grito quando percebeu que dois deles eram caminhonetes Hilux, da Toyota, com versos do Alcoro pintados em um de seus lados. Eram veculos do Talib.

Havia muitos talibs sentados no primeiro veculo e, para surpresa de Neelab, eles se mostraram extremamente amveis. Eles pegaram, gentilmente, o pacote de vestidos de suas mos e deram a ela um pouco mais dos quinhentos mil afeganes que ela havia pedido, pelo acordo feito entre Malika e a me da noiva, Nabila. Na segunda caminhonete estava um jovem talib que Neelab deduziu ser o noivo. Atrs, estava um Corolla, da Toyota, que transportaria Shafiqa, a me e suas irms para o casamento. No havia flores nem serpentinas cobrindo a capota e o para-choque do carro como se costumava fazer antes de o Talib ter posto fim a toda pompa cerimonial. Mas Neelab no teve absolutamente nenhuma dvida de que aquilo ali era, de fato, o comeo de um cortejo nupcial.

Kamila e Malika ficaram totalmente embasbacadas, olhando uma para a cara da outra, quando Neelab terminou de contar-lhes o que havia acabado de presenciar. Em seguida, ambas irromperam numa tremenda risada. Os vestidos aos quais elas haviam dedicado as ltimas trinta horas para que ficassem prontos seriam usados num casamento talib. Oh, Malika, Kamila disse, por isso os vestidos tinham de ser to simples!

Talvez o motivo de toda essa pressa seja o fato de o noivo ter que partir para alguma frente de combate! Laila acrescentou.

Horas depois, Malika continuava repassando em sua memria os acontecimentos dos dois ltimos dias. Simplesmente no d para acreditar, ela disse. Estava sentada no cho, de pernas cruzadas, a primeira vez em todo o dia que havia parado de andar para desfrutar uma xcara de ch e um prato de espaguete.

Kamila abriu um largo sorriso.

Essa  boa, ela disse. Pelo menos sabemos que alguns talibs apreciam o nosso trabalho!

Aquele fato confirmou o que Kamila e Malika vinham h muito tempo suspeitando: os talibs de fora de Khair Khana tinham agora conhecimento das atividades delas, tanto da escola de corte e costura de Kamila quanto da confeco de roupas sob encomenda de Malika. E por enquanto, os soldados do Talib no apenas haviam deixado de proibir suas atividades, como ainda estavam tacitamente apoiando-as.

Kamila j sabia, havia algum tempo, que esse era o caso dos talibs locais que ocupavam os nveis mais baixos do governo, longe do centro de decises em Kandahar. Alguns meses antes, duas irms haviam procurado Kamila com interesse em seus cursos. Kamila conhecia bem a famlia delas: provinha do sul e era da etnia pashtun, mas morava em Khair Khana fazia muitos anos, logo ali atrs de sua casa e perto da mesquita do bairro. O tio das meninas era um grande amigo de Najeeb. Kamila havia tomado conhecimento, um pouco antes, de que Mustaf, o pai das meninas, havia passado a trabalhar para o Talib. Ele patrulhava Khair Khana com um mnimo esforo, fazendo uso de suas relaes com os vizinhos para tentar impedir que aquela rea de Cabul atrasse a ateno de seus chefes. Kamila havia dito para as meninas que teria muito prazer em t-las como alunas. Ela queria muito ajudar as amigas de seu irmo e, ademais, ela pensou, convinha-lhe muito ter o pai das meninas do seu lado. Pouco tempo depois, a mais velha das duas meninas, Masuda, havia pedido para ter uma conversa particular com sua professora, longe das outras alunas.

Meu pai pediu para que eu lhe desse um recado, ela disse, apertando com fora sua caixa de costura. Ele pediu que eu, por favor, dissesse para Kamila Jan que ele sabe que ela tem um negcio, mas tambm sabe que ela  uma mulher honrada cujo trabalho est ajudando muitas famlias de Khair Khana. Que ela, por favor, tome muito cuidado para que nenhum homem jamais entre em sua casa. Que se ela seguir essas regras e s permitir que mulheres trabalhem com ela, no haver nenhum problema. Diga a ela que eu vou tentar inform-la se algum de meus chefes fizer perguntas sobre seu negcio ou estiver planejando vistoriar sua casa.

Pela maneira como Masuda havia recitado as palavras de seu pai, olhando para o alto como se estivesse tentando l-las num caderno invisvel, Kamila pde perceber que ela havia se esforado muito para decorar o recado sem esquecer de uma nica palavra. Apesar de sua pouca idade, ela havia gravado na memria a importncia do que ele havia comunicado.

Por favor, diga a ele que minhas irms e eu somos muito gratas por sua ajuda, Kamila respondeu, segurando as mos de Masuda. Ns vamos fazer tudo que pudermos para seguir seus conselhos.

Com o passar das semanas e a expanso de suas atividades, Kamila tinha certeza de que o Talib devia estar fazendo perguntas na mesquita a respeito de seu negcio, exatamente como no passado havia feito com respeito  escola de Malika. Ela agradecia todos os dias por, at agora, no ter tido nenhuma notcia dos homens do governo.

Ela continuaria fazendo tudo que fosse possvel para mant-los longe dali.



Uma nova oportunidade bate  porta

A noite chegou junto com a luz eltrica, que iluminou toda a rua principal de Khair Khana. As meninas se apressaram a usar as mquinas de costura para fazer o mximo possvel, enquanto a eletricidade perdurasse. Avanando noite adentro, elas s interromperam os zum-zuns e estalidos das mquinas de costura para sintonizar o programa noturno de notcias da BBC. Novos combates no norte eram as notcias principais do dia, mas aquilo no era nenhuma novidade. O Talib podia ter trazido segurana para as ruas de Cabul, mas a paz continuava fora do horizonte visvel.

De repente, as meninas ouviram o barulho caracterstico do porto da frente da casa sendo aberto. Elas se ergueram rapidamente e ficaram alarmadas, olhando uma para a outra, deixando as mquinas continuarem funcionando sozinhas sem mos para gui-las. As batidas do corao de Kamila ressoavam em seus ouvidos. Quem podia ter a chave? Ela se perguntou. E quem poderia estar chegando quela hora da noite? Faltava um pouco para as nove.

Vou ver quem ... Kamila disse.

Ela largou o vestido cuja bainha estava fazendo, pegou um xale escuro que estava pendurado num cabide perto da porta e saiu para o ptio. Ela ouviu a voz de Saaman, logo atrs de si, e a de Laila gritando com Rahim, mais nos fundos da casa.

Uma figura escura, alta e magra, estava vindo em sua direo. Parada no ar frio de outono, ela gritou as palavras que acalmaram suas irms:

 voc, papai!

Feliz e aliviada, ela correu para abra-lo, quase saltando em seus longos braos, como costumava fazer quando pequena. Oh, estamos to felizes por v-lo, ela disse, ajudando-o a entrar pela porta da frente. Voc deve estar com fome - deve ter viajado muitas horas para chegar at aqui.

Sim, ele respondeu, so muitos os postos de controle e quase todas as entradas da cidade esto bloqueadas. Ele parou e olhou-a de uma maneira que ela conhecia bem: indulgente, mas tambm um pouco severa. No est fcil entrar nem sair de Parwan. Ento, com um brilho de suavidade em seu sorriso: Como voc sabe.

Ela assentiu. Apenas um ms antes, ela havia estado em Parwan, desafiando os postos de controle do Talib e da Aliana do Norte, e encarando horas de viagem de nibus e caminhadas a p com seu sobrinho Adel. Com dez anos, ele tinha idade suficiente para servir como seu mahram, mas tambm era novo demais para atrair a ateno dos soldados. Os dois haviam partido antes das cinco horas daquela manh, num nibus caindo aos pedaos que os levara para fora de Cabul atravs de um territrio dominado pelo Talib. Depois de passar pelo primeiro posto de controle, eles prosseguiram at Dornama, um pequeno distrito no sop das montanhas Hindu Kush. Kamila e seu jovem companheiro de viagem fizeram ento a p a travessia das montanhas que levou mais de seis horas, onde finalmente tomaram outro nibus que os conduziu por uma estrada esburacada at Gulbahar.

O que vocs esto fazendo aqui? O Sr. Sidiqi havia perguntado ao abrir a porta e dar de cara com os viajantes maltrapilhos. Sua voz tinha o tom duro de um velho oficial do exrcito que no tolerava a mnima oposio. Vocs no sabem o quanto  arriscado viajar nos dias de hoje?

A irritao dele fez Kamila recuar e mal conseguiu gaguejar uma explicao.

Ns... s viemos ver voc e mame. Minhas irms e eu estvamos muito preocupadas com vocs dois e por isso achamos que Adel e eu podamos vir ver se tudo estava bem. Kamila havia ousado fazer a viagem para levar a seus pais uma parte do dinheiro que elas haviam conseguido ganhar com o negcio de costura em Khair Khana - Para o caso de vocs precisarem de alguma coisa.

Kamila Jan, isto  uma loucura, o Sr. Sidiqi dissera. Uma jovem como voc viajando sozinha e correndo tais riscos? Poderia ter acontecido alguma coisa - voc sabe disso! Agradeo seus cuidados com a famlia, mas voc tem que me ouvir e prometer no fazer isso de novo. No se preocupe com sua me nem comigo. Ns estaremos bem enquanto soubermos que vocs esto seguros em Cabul.

Ele a fez prometer que voltaria para casa, j no dia seguinte, mas enquanto isso, a famlia passaria uma noite feliz reunida. Primos e amigos de toda a vizinhana foram jantar com eles para botar a conversa em dia e saber o que estava acontecendo em Cabul. Por sorte, um dos primos sabia que um grupo de pessoas partiria para a capital na manh seguinte, bem cedo. O Sr. Sidiqi comunicou que Kamila e seu pequeno companheiro de viagem ficariam felizes de ir com eles.

E assim, mais uma vez, eles levantaram com o nascer do sol para a longa viagem de volta para casa. Depois de uma viagem de duas horas de nibus atravs de Parwan, eles seguiram a longa fileira de mulheres e alguns homens idosos, refazendo seus passos pela travessia montanhosa e tendo, s vezes, que dividir a trilha com os burros e cavalos que transportavam viajantes mais afortunados. O chadri de nylon, internamente, prendia o calor mido do dia com impiedosa eficincia, e Kamila observava com inveja como as mulheres mais velhas do grupo afastavam seus vus para enxergarem melhor o terreno acidentado. Por ser uma mulher jovem, Kamila sabia que era o alvo preferido dos combatentes de ambos os lados do conflito, bem como dos bandidos que procuravam tirar proveito apenas para si mesmos. Por isso, ela mantinha sua face encoberta, prendendo com as mos o chadri escorregadio enquanto rios de suor escorriam de sua face.

Mas tudo isso parecia agora ter ocorrido sculos atrs. Desta vez, fora seu pai que havia ousado fazer a viagem cheia de perigos, por todo um dia, do norte at Cabul. Kamila agradeceu a Al por t-lo protegido ao longo de todo aquele percurso, mas pensou com preocupao que se seu pai estava ali, devia ser por algum motivo. Ela sabia que, do contrrio, ele jamais sairia de Parwan.

Apressando-se a acomod-lo numa almofada na sala de estar, as meninas menores lhe ofereceram uma xcara de ch e imediatamente comearam a despejar uma enxurrada de perguntas. Como a mame estava? O que estava acontecendo em Parwan? Qual era a intensidade dos combates? Por quanto tempo ele ficaria em casa? Se ele tinha visto todos os vestidos espalhados pela sala?

Meninas, ele as interrompeu, sorrindo. Estou muito feliz por estar com vocs. E  claro que eu vi, vocs fizeram disso aqui uma verdadeira fbrica de roupas!

Ele silenciou por um momento, olhando para cada uma delas e assumindo um ar de seriedade.

Eu sei que as coisas esto muito difceis, no momento. Vocs sentem muita falta dos estudos e de suas amigas, alm de terem tido que adiar todos os seus planos para o futuro. Mas vocs esto realizando um trabalho muito nobre, tanto para a famlia quanto para a comunidade. Isso me deixa muito orgulhoso. Um dia, se Deus quiser, ns viveremos em paz. As escolas voltaro a ser abertas e todos ns voltaremos a estar juntos. Mas, por enquanto, vocs tero que continuar costurando, obedecendo a suas irms e aprendendo o mximo que puderem. Eu sei que vocs so capazes disso.

Sim, papai,  o que ns faremos, Laila disse; ela foi a nica a falar.

E agora, ele disse, abrindo um amplo sorriso em seu rosto comprido, vamos todos desfrutar um delicioso jantar e depois eu vou ter uma conversa a ss com Kamila Jan.

Depois da refeio composta de arroz, naan e batatas, com um pouco de carne para celebrar a ocasio especial da visita do chefe da famlia, Kamila e seu pai sentaram-se a ss num canto da sala de estar. Ele mal pde reconhecer a sala de sua casa, ocupada com um grande quantidade de tecidos, por todos os lados, e todas aquelas mquinas de costura atravancando o seu espao. Como j era tarde e no havia mais luz eltrica, Kamila acendeu um lampio a gs.

Kamila Jan, ele comeou, eu vou amanh para o Ir ficar com Najeeb. Os combates esto se aproximando muito e simplesmente  perigosa demais a minha permanncia em Parwan. Os talibs esto atrs de todos que eles supem ter apoiado Massoud e comearam a indagar os nossos vizinhos a meu respeito.  melhor, para todos, ns que eu saia do pas.

Sabendo o quanto seu pai amava o Afeganisto, Kamila no conseguia nem imaginar o quanto lhe havia sido difcil decidir, finalmente, deixar o pas. Ele jamais antes havia tido que fugir de seu prprio pas, por pior que fosse a situao. Simplesmente no tenho mais nenhuma funo aqui; no posso trabalhar e a guerra est destruindo tudo l no norte. Como o velho combatente que sempre fora, ele deixou transparecer muito pouco da emoo que Kamila tinha certeza de que estava sentindo. Eu quero que voc saiba que tenho muito orgulho de voc. Nunca, nem por um instante, duvidei de sua capacidade para cuidar de nossa famlia e de realizar qualquer coisa que colocasse em sua cabea. Voc tem que continuar fazendo isso e tentar, com todo o empenho possvel, ajudar os outros. Este  o nosso pas e ns temos que ir at o fim, seja l o que acontecer. Essa  a nossa obrigao e tambm o nosso privilgio. Se precisar de qualquer coisa enquanto eu estiver longe, envie-me uma mensagem e eu farei o que for possvel. Tudo bem?

Kamila prometeu a seu pai que faria o que ele estava pedindo. No tinha o direito de sentir piedade de si mesma, ela pensou. Pelo menos, sua famlia havia conseguido se manter em segurana e o negcio de costura estava rendendo o suficiente para manter todos alimentados e protegidos. Sua funo era continuar com seu trabalho. As palavras de seu pai a lembraram disso. Mas seria muito difcil t-lo to longe. E ela sabia quo arriscada era a viagem que ele tinha pela frente.

Cedo, na manh seguinte, ele partiu para o Ir. Kamila enviou por seu intermdio um envelope contendo uma carta para Najeeb e o mximo de dinheiro que conseguiu juntar para lhe dar.

Apenas algumas semanas depois da partida de seu marido, a Sra. Sidiqi
 chegou. Antes de deixar Khair Khana, o Sr. Sidiqi havia encarregado Rahim de ir a Parwan buscar sua me e traz-la de volta  capital para viver com seus filhos, em vez de permanecer sozinha l no norte.

Kamila ficou impressionada com a aparncia de cansao de sua me. A viagem at Cabul era dura o suficiente para exaurir um adolescente, quanto mais uma mulher de quarenta e tantos anos que sofria de problemas cardacos desde o nascimento de seu dcimo primeiro filho. E ela devia ter passado semanas preocupada com a segurana de seu marido. Suas tranas de cabelos grisalhos estavam ordenadas em fileiras bem esticadas e sua respirao era feita com esforo e a intervalos curtos. Enquanto as meninas menores se apressaram a estender um colcho para ela descansar, Malika e Kamila lhe serviram ch e po quente. Kamila contou a ela que Malika havia chegado muitos meses antes e ajudado a fazer o negcio progredir, ensinando s irms tudo que havia aprendido com sua me, quando ainda frequentava a escola.

Quando Kamila despertou na manh seguinte, encontrou sua me j em p preparando o caf da manh. Como ainda no eram nem sete horas, Kamila no conseguiu imaginar como ela havia conseguido ser a primeira a se levantar. Depois de lavar o rosto e fazer suas oraes matinais, Kamila entrou na cozinha e encontrou gua j fervendo sobre o pequeno fogo a gs e naan torrado sobre o balco. Fazia muito tempo que ela e seus irmos no sabiam o que era ter os pais em casa.

Enquanto tomavam seu ch juntas, as meninas contaram a ela que haviam comparecido ao casamento de sua prima Reyhanna, em Cabul. Qualquer ocasio como aquela, nas circunstncias atuais, era uma oportunidade de divulgar seu negcio, e as meninas haviam criado quatro novos vestidos deslumbrantes especialmente para aquele evento. Diferentemente das roupas tradicionais que elas faziam para as lojas do centro comercial Liceu Myriam ou do Mandawi, os vestidos que elas usaram no banquete daquele casamento eram tanto modernos como elegantes, criados com a mente voltada para as garotas de Cabul - ou seja, levando em conta o que as leis em vigor permitiam. O vestido de Malika era azul-claro, cuja cintura era bordada com contas em dourado e azul-marinho e com mangas at os punhos, enquanto o de Kamila era vermelho, com finos bordados de pequenas florzinhas em volta das mangas e do decote. Depois do casamento, suas primas adolescentes, assim como um punhado de amigas da noiva, haviam acorrido  sua casa para encomendar vestidos semelhantes. Laila contou para sua me que elas estavam planejando fazer uma nova srie de vestidos, como aqueles, para o Eid al-Adha, o dia que celebrava a devoo do profeta Abrao a Al. Embora elas estivessem sozinhas na capital e com poucas pessoas para visitar, as alunas, acompanhadas de seus pais, vieram cumpriment-las no dia santo. As irms Sidiqi, de Khair Khana, haviam se tornado parte de suas prprias famlias quanto qualquer parente que lhes restava em Cabul.

Quando todos haviam terminado de tomar o desjejum e Rahim ter colocado seu turbante na cabea para ir  escola, Kamila e suas irms colocaram a me a par de tudo que ocorria na oficina de costura. Laila mostrou o esquema que ela prpria havia criado, descrevendo como Saaman recortava das longas peas de tecido as partes, deixando-as prontas para serem pregadas, umas as outras, pelas costureiras, e demarcadas as partes que deviam ser posteriormente bordadas com contas. Com especial orgulho, Kamila contou para sua me como Rahim havia se tornado bom em costura e como Laila a ajudava a administrar no apenas o funcionamento do negcio, mas tambm o cardpio para a preparao do almoo dirio das meninas.

Com o avano da manh, as alunas logo comearam a chegar, uma a uma. A Sra. Sidiqi tratou de cumprimentar cada uma delas. Como esperava, ela conhecia as famlias das jovens e perguntou como estavam seus pais e ouviu atentamente os relatos sobre as dificuldades que estavam enfrentando, balanando em silncio a cabea para demonstrar seu interesse e compreenso. Muitas meninas demonstraram sua gratido por terem algum fora de suas prprias famlias em quem podiam confiar e com quem podiam discutir seus problemas. Uma jovem contou que sua me viva recebia os cupons verdes de racionamento do Programa de Distribuio de Alimentos das Naes Unidas para comprar po subsidiado na padaria mais prxima, mas que a ajuda mal dava para alimentar uma famlia de oito pessoas. Era por isso que ela precisava ajudar com o dinheiro que ganhava costurando; e seu irmo pequeno tambm colaborava com o dinheiro que ganhava vendendo balas na rua.

A Sra. Sidiqi ouviu o que cada uma daquelas jovens tinha para contar e tratou de encoraj-las da melhor maneira possvel, lembrando-as de tudo pelo qual j haviam passado e lhes assegurando que tudo mudaria para melhor. No esqueam do que j aprenderam na escola, ela as instigou; vocs no vo querer ficar para trs quando as escolas reabrirem. Enquanto isso, ela encorajou as meninas a considerarem sua casa como se fosse delas prprias e a se ajudarem mutuamente a superar os tempos difceis.

Saaman e Laila deram as aulas de costura do turno da manh enquanto a Sra. Sidiqi ficou sentada, observando, nos fundos da sala. Ela disse depois para Kamila quo profundamente ela havia ficado impressionada com o quanto as meninas haviam amadurecido na ausncia dos pais. Kamila, ela disse, teria que se empenhar junto com Malika para manter a famlia unida, agora que seu pai estava fora do pas. Independentemente do que acontecesse, ela disse, elas tinham de continuar juntas, mantendo a casa. Deus as protegeria se essa era Sua vontade.

Algumas semanas depois ela retornou a Parwan com promessas de logo voltar para casa.




De novo, as meninas estavam sozinhas e os combates em volta delas se intensificavam. Corria o ano de 1998 e o final do vero daquele ano assistiu  queda da cidade de Mazar-e-Sharif, mais uma vez em poder do Talib, dando ao novo regime uma vitria significativa entre alegaes de brutalidade de todos os lados, que superava os banhos de sangue comuns aos tempos de guerra aos quais elas j estavam acostumadas. Em Cabul, os bombardeios ocorriam a intervalos inesperados e o cerco continuava a se apertar em torno das famlias de toda a cidade, especialmente das mulheres. O Talib decretou que as mulheres s podiam ser tratadas em hospitais exclusivos para elas, mas a maioria deles havia fechado ou por falta de suprimentos ou de mdicos. O nico que continuava funcionando enfrentava dificuldades para dispor de leitos para seus pacientes, os quais eram atendidos sem contar com gua limpa, soro intravenoso e equipamentos de raios X. Com a chegada do outono veio um frio gelado que assustou a populao da cidade, j desesperada, temendo morrer de fome, juntamente com uma epidemia de clera. Os programas humanitrios promovidos pelas Naes Unidas e outras organizaes tentavam conseguir trigo, leo e po para os que estavam em piores condies, mas a carncia superava de longe a capacidade de proviso de qualquer agncia humanitria. gua potvel estava em falta e poucas famlias tinham ainda algo para vender.

Kamila e Rahim frequentavam os mercados em volta da cidade, pelo menos duas vezes por semana, voltando regularmente ao bairro de Shar-e-Naw para conhecer novos lojistas, sobre os quais pessoas de confiana haviam falado ou lhes recomendado. Quando os irmos iam de nibus, Kamila notava que a conversa das mulheres na parte de trs do veculo sempre girava em torno de quem estava fazendo algum tipo de trabalho manual em casa, quais lojistas estavam comprando quais mercadorias e quanto eles pagavam por este ou aquele item. Parece que todo mundo virou empreendedor, Kamila observou, surpresa diante de todas as mudanas que haviam ocorrido. Antes da chegada do Talib, as conversas das mulheres nos nibus giravam em torno de trabalho ou escola ou sobre a ltima intriga no mbito governamental. Atualmente, elas pareciam falar apenas sobre como vender coisas.

Ao voltar para casa, aps uma de suas idas com Rahim ao centro comercial Mandawi, numa tarde fria e cinzenta, Kamila ficou surpresa ao encontrar duas mulheres sentadas na sala de estar de sua casa se aquecendo junto ao forno  lenha. As mulheres haviam passado ali, no dia anterior, por sugesto de Rukhsana, uma prima de Kamila, que havia lhes falado sobre o pequeno empreendimento de costura e sugerido que fossem ver pessoalmente o trabalho que ela estava realizando. Elas trabalhavam com Rukhsana no programa Habitat da ONU, mais comumente conhecido como Centro das Naes Unidas para Assentamentos Humanos, e estavam em Cabul recrutando mulheres para um projeto que se achava em franca expanso. A dupla havia passado a tarde do dia anterior na casa de Kamila fazendo perguntas a todas as meninas sobre o empreendimento: quantas mulheres estavam trabalhando com as irms Sidiqi, como elas encontravam mercado para seus produtos e como funcionava seu programa para aprendizes.

Kamila ficou se perguntando por que suas prezadas visitantes haviam decidido voltar to rpido  sua casa. Ela tinha muito respeito pelo trabalho das duas mulheres: Mahbooba, uma mulher robusta de sobrancelhas finas e jeito despachado; e Hafiza, uma mulher muito bonita com cabelos encaracolados caindo sobre os ombros. Hafiza havia mencionado a Kamila que era cientista por formao e isso ficava evidente; ela demonstrava uma seriedade cerebral que chamava a ateno de Kamila. Ao redor das importantes visitas e pendurados em cada gancho disponvel na sala de estar/oficina de costura havia dzias de vestidos que faziam parte de uma grande encomenda que Saaman estava a meio caminho de terminar. Os vestidos deviam ir para Mazar [Mazar-e-Sharif] na manh seguinte com Hassan, outro dos irmos mais velhos de Ali, que os venderia para lojistas daquela cidade do norte, ansiosos por estoques de vestidos de noiva.

Kamila irrompeu na sala e abraou calorosamente as duas visitantes, perguntando sobre seus familiares e dando-lhes as boas-vindas  sua casa. Laila trouxe uma bandeja de doces e biscoitos especiais amanteigados que as meninas desfrutavam apenas em ocasies especiais e, finalmente, Mahbooba disse a que viera. Ela descreveu para sua jovem anfitri o trabalho que realizava no programa Habitat da ONU e explicou ser esse o motivo de ela ter voltado ali  sua casa. Kamila havia ouvido falar pela primeira vez sobre o Habitat durante a guerra civil, quando aquele programa tomara a iniciativa de consertar o sistema de abastecimento de gua de Cabul que fora destrudo. Muitos anos depois, sua prima Rahela, a irm mais velha de Rukhsana, havia entrado para a organizao a convite de sua impetuosa nova lder em Mazar-e-Sharif, Samantha Reynolds.

Samantha, uma inglesa obstinada com menos de trinta anos, havia conseguido pela primeira vez envolver as mulheres no processo de identificao e soluo dos grandes problemas de infraestrutura da cidade. Antes de ela entrar para aquela agncia das Naes Unidas, as mulheres haviam sido sumariamente ignoradas durante as consultas  comunidade, permanecendo em casa enquanto seus maridos, pais e filhos iam  mesquita para encontrar os doadores internacionais e dizer a eles quais projetos de fornecimento de gua, esgoto e remoo de lixo eram mais importantes para a vizinhana.

Samantha recrutou Rahela para ajud-la a mudar essa situao, com o apoio dos muls [clrigos islmicos] da cidade. Juntas, elas ajudaram as comunidades a enfrentar seus prprios problemas locais de falta de saneamento e infraestrutura e instalar escolas e clnicas mdicas para mulheres e meninas. A ltima coisa sobre a qual Kamila havia tomado conhecimento era que Rahela havia convocado Rukhsana para desenvolver o que passara a ser conhecido como Fruns Comunitrios de Mulheres onde as pessoas - mais especificamente, as mulheres - se reuniam para participar de atividades e programas sociais que elas criavam, apoiavam e supervisionavam. A maior parte dos rendimentos que as mulheres ganhavam por seus trabalhos ia para os fruns e financiava outros projetos de infraestrutura. Mahbooba explicou que apenas recentemente havia voltado para Cabul, de Mazar-e-Sharif, onde ela havia encontrado um porto seguro depois de ter deixado seu cargo de professora na Universidade de Cabul durante a guerra civil. Nos ltimos anos, ela havia ajudado Samantha e Rahela a instituir os Fruns de Mulheres no norte e, no momento, elas haviam conseguido fundos para expandir o programa.

Kamila, ela disse, apontando para os vestidos e mquinas de costura ao redor da sala, Rukhsana nos falou sobre seu empreendimento, mas nem ela sabia que ele havia crescido tanto. Ns estivemos aqui ontem dando uma olhada, e tambm hoje antes de voc chegar, e vimos toda a agitao das meninas costurando aqui. Suas irms Saaman e Laila nos falaram um pouco sobre os contratos que vocs tm e como funcionam os cursos.  realmente impressionante como voc conseguiu tudo isso - e sem ter tido problemas com o Talib.

Kamila enrubesceu agradecida e explicou que ela pretendia manter o negcio se expandindo, apesar de estar ficando cada vez mais difcil encontrar lojistas dispostos a fazer encomendas. Estou comeando a perceber que nunca vamos ter trabalho suficiente para todas as mulheres que vm aqui em busca de emprego.

 por isso que ns estamos aqui, Mahbooba respondeu. Acho que voc est sabendo a respeito do trabalho de Rahela Jan e Rukhsana nos Fruns Comunitrios. Bem, ns iniciamos os primeiros fruns aqui em Cabul um ano atrs e estamos agora em vias de iniciar muitos outros por toda a cidade. O do Dcimo Distrito ser inaugurado em breve e gostaramos que voc viesse fazer parte dele. Ns precisamos de jovens como voc, com experincia prtica em negcios.

Kamila continuou sentada, totalmente imvel, com sua xcara de ch ainda quase cheia. Uma torrente de perguntas inundava sua mente.

Posso perguntar uma coisa: Como  que vocs esto conseguindo iniciar fruns aqui, na situao atual? ela comeou. Eu achava que fosse ilegal trabalhar com estrangeiros ou com organizaes internacionais. Como  que as Naes Unidas conseguem continuar contratando mulheres? Eu ouvi dizer que todas as funcionrias mulheres haviam ido ou para o Paquisto ou mandadas de volta para casa.

Foi Hafiza, a cientista, quem respondeu. Anne, a francesa que administra os Fruns Comunitrios aqui em Cabul, tem encontros frequentes com o Ministrio de Assistncia Social e mantm boas relaes com eles e, por isso, ns temos tido permisso para expandir nossos fruns. E Rahela tem mantido negociaes ininterruptas com os ministrios do Talib para manter funcionando os centros de Mazar. Ns temos amplo apoio da comunidade e este  o principal motivo que d sustentao  continuidade de nosso trabalho. Do contrrio, ns teramos sido obrigadas a suspend-lo j h muito tempo. No momento, os fruns aqui de Cabul so mais ou menos permitidos, uma vez que apenas mulheres se encontram neles e eles oferecem programas de gerao de pequenas rendas. E com a ajuda do mul local ns at recebemos a aprovao do Talib para que meninas frequentem cursos em um dos fruns masculinos; portanto, como voc pode ver, certos dirigentes locais podem ser convencidos da importncia do nosso trabalho. Em todo caso, os fruns pertencem oficialmente  Organizao FORA para o Desenvolvimento Comunitrio, que  uma organizao afeg e no estrangeira, e, como tal, as restries no se aplicam exatamente.  claro que, como as regras mudam quase que diariamente, em certas semanas  preciso que se tenha mais habilidade para manter as coisas funcionando. Mas, como voc sabe, quando as necessidades so tantas, sempre se acaba dando um jeito.

Kamila assentiu. De fato, era assim.

Mas o que exatamente vocs podem continuar fazendo aqui em Cabul? ela perguntou s duas mulheres. E onde vocs realizam seus programas? Com certeza, vocs no tm permisso para ter escritrios.

Oh, no, isto  impossvel atualmente, Hafiza confirmou. Os fruns funcionam normalmente nas casas das pessoas ou em casas que as mulheres do bairro alugam especificamente para o programa. Isso faz com que o frum se torne mais facilmente parte da comunidade, alm de possibilitar sua rpida mudana de lugar quando surge algum problema.

Mahbooba deu seguimento ao raciocnio de sua colega: Com respeito aos programas especficos que estamos realizando aqui, eles normalmente entram em uma de trs categorias - mas voc vai se informar melhor sobre isso durante seu treinamento,  claro.

Kamila soltou uma pequena risada. Ela adorava conhecer mulheres to obstinadas como ela mesma.

Para comear, temos um programa educacional. No momento, algumas centenas de estudantes, na maioria meninas, mas tambm meninos, estudam em nossas escolas, onde ensinamos em dois turnos diariamente. Ensinamos o Sagrado Alcoro, o que serve para nos dar alguma proteo caso o Talib venha nos visitar, como tambm damos aulas de dari e matemtica. Para mulheres com mais idade, ns temos cursos de alfabetizao.

Depois, tambm oferecemos alguns servios. Em alguns fruns h clnicas que prestam atendimento mdico bsico para mulheres e ensinam prticas de sade e higiene. Temos tambm um programa de cultivo de hortalias que instrui s mulheres como se cultiva tomates e alface para que possam prover uma melhor nutrio a suas famlias.

Alm disso, temos uma parte dedicada  produo e  nela que achamos que sua experincia ser mais til. Os fruns oferecem os materiais para costura, tapearia e tric e as mulheres recebem dinheiro pelas roupas, cobertores e tapetes que produzem. No  muito, mas j  algo e quase to importante, d s mulheres trabalho para fazer em troca do dinheiro que ns lhes oferecemos. Do contrrio, elas relutam muito em receber nossa ajuda, pois, como voc sabe, elas no querem esmolas. Estamos tambm instalando uma loja na hospedaria das Naes Unidas para vender os trabalhos das mulheres para seus hspedes estrangeiros. E  claro que tambm adoraramos a sua contribuio com novas ideias.

Na mente de Kamila, novas ideias de negcios para os fruns comearam a pulular. Com certeza, ela podia ajudar a comercializar as roupas e artefatos que as mulheres estavam fazendo, mesmo que eles fossem simples demais para as lojas do Liceu Myriam. O trabalho parecia importante - e empolgante. Kamila estava comeando a vislumbrar seu prximo passo, depois da escola de costura e o negcio da confeco de roupas: algo ainda maior que lhe possibilitaria ajudar muitas outras mulheres.

Quando Mahbooba perguntou Voc quer trabalhar conosco? Kamila nem teve que pensar para dar a resposta. Oh, claro que eu quero! Estou extremamente interessada. Mas ela fez uma pausa, por um instante, antes de acrescentar. Tenho que conversar com minhas irms antes. No sei o que Malika Jan vai achar disso, uma vez que j temos tanto trabalho aqui.

Mahbooba percebeu a hesitao na voz de Kamila; ela havia tomado conhecimento atravs da prima de Kamila, Rukhsana, que Malika era atualmente a mais velha da casa e que Kamila teria, portanto, que se submeter  vontade dela. Ela elevou o tom de sua voz.

Kamila Jan,  evidente que existem riscos, mas este programa est realmente fazendo diferena. Ele  quase tudo que resta hoje para as mulheres; voc sabe disso. Quando anunciamos que estamos iniciando um programa de gerao de renda para cem pessoas, voc faz ideia de quantas mulheres esperam na fila por horas, mesmo nos dias mais frios de inverno? Quatrocentas e, s vezes, at quinhentas mulheres. Todos os invernos ns promovemos programas de ajuda emergencial e no conseguimos chegar nem perto de satisfazer a enormidade das carncias. Nenhuma mulher com quem at hoje falamos se recusou a trabalhar conosco. Eu sei por sua prima e posso ver por seu trabalho que voc no recusaria uma oportunidade de servir  comunidade, compartilhando todas as experincias em negcios que voc conquistou.

Kamila assegurou s mulheres que pensaria com muito carinho em tudo que elas haviam dito e que considerava uma honra ser convidada para assumir tal responsabilidade numa organizao to prestigiada. Afinal de contas, ela era apenas uma garota de Khair Khana e agora estava lhe sendo oferecida uma oportunidade de participar de um programa elaborado por profissionais do Japo, da Sua e dos Estados Unidos, num momento em que seu pas estava de relaes totalmente rompidas com o resto do mundo.

Eu prometo que volto a falar com vocs daqui a alguns dias, ela disse para suas visitantes, enquanto as ajudava a vestir seus casacos e chadri e depois acompanh-las at o porto. Muito obrigada por terem vindo.

Assim que elas foram embora, Kamila deixou-se desabar sobre uma almofada para pensar em tudo que as mulheres haviam dito. Ela estava impressionada com o fato de um programa como o Habitat estar conseguindo criar oportunidades num momento em que todas as portas pareciam se fechar para as mulheres. E ela no conseguia se imaginar dizendo no a tal oportunidade, dado o estado de misria que reinava em sua cidade. Alm disso, no era exatamente sobre isso que ela e seu pai haviam conversado, apenas algumas semanas antes - ajudar o maior nmero possvel de pessoas? No tinha ele lhe dado a bno para fazer exatamente aquele tipo de trabalho? Ela sabia que poderia aprender muito com as mulheres que operavam os fruns e com as estrangeiras que dirigiam o Habitat. E, com certeza, ela estabeleceria laos naquele novo trabalho que seriam teis para a sua prpria famlia. Como suas primas j trabalhavam l, Malika e seus pais no teriam muito como colocar objees, ou teriam?

Mais tarde, naquela noite, logo aps o jantar, Kamila foi procurar sua irm mais velha para lhe contar o que havia acontecido  tarde.

Ela encontrou Malika ainda trabalhando, sentada ao lado do bero de madeira de suas gmeas, fazendo a bainha de um vestido cor de vinho que h dias Kamila vinha admirando.

Ele  to lindo, ela disse, que estou pensando em encomendar um para mim mesma!

Obrigada, Malika disse, erguendo os olhos para sua irm e rindo. Como voc est? Andamos to ocupadas que passamos o dia todo sem conversar!

Malika Jan, Kamila comeou, tem uma coisa que quero discutir com voc -  a respeito da visita que tivemos hoje das colegas de Rahela e Rukhsana: Mahbooba e Hafiza. Elas esto trabalhando no programa Habitat das Naes Unidas; o grupo com quem Rahela trabalha l no norte. A questo  que elas esto criando um novo Frum Comunitrio em Cabul que ir oferecer cursos para meninas e programas de trabalho para mulheres.

Kamila fez uma pausa por um momento e respirou fundo, ciente de que sua irm no estava mais sorrindo.

Elas querem que eu trabalhe com elas, ela prosseguiu. Para ajudar nos projetos de empreendimentos domsticos, como costura, tric e tapearia.  parecido com o que fazemos aqui, mas s que em menor escala.

As esperanas de Kamila de que sua irm se empolgaria tanto quanto ela ao ouvir a novidade logo se desvaneceram; o semblante de Malika deixava evidente que no era esse o caso. Malika olhou para a parede alm de Kamila e inspirou fundo, tentando acalmar seus nervos como costumava fazer sempre que se alterava.

Voc no pode estar falando srio, Kamila Jan, ela disse.

Seu tom de voz era baixo e cuidadosamente controlado, demonstrando decepo e contrariedade. Kamila percebeu que sua irm estava tentando reprimir a raiva que estava sentindo, mas receou que Malika estivesse  beira de perder o controle quando comeou a elevar seu tom de voz. Voc sabe qual  o castigo para as meninas que so flagradas trabalhando com estrangeiros? Elas so jogadas na priso ou coisa ainda muito pior. Voc sabia disso? Afinal, o que voc est pensando?

Kamila respondeu num tom comedido e respeitoso, esperando com isso abrandar a ira de sua irm. Ela no queria brigar com sua irm por causa disso, mas tambm no tinha nenhuma inteno de ceder. Era como se sua luta para estudar no [Instituto] Sayed Jamaluddin durante a guerra civil estivesse se repetindo.

Malika Jan, isto  importante, ela disse. Esta  uma oportunidade de dar sustento a muitas mulheres, mulheres que no tm nenhum outro lugar ao qual recorrer. Kamila fez uma pausa de um segundo para organizar os pontos de seu argumento.

E  tambm uma oportunidade para mim e para a nossa famlia. Eu preciso aprender mais e quero trabalhar com profissionais. Tenho que pensar em meu futuro. Eu no fui feita para ser costureira, voc sabe disso. So os negcios e sua administrao que me interessam.  o que eu realmente gosto de fazer.

O breve discurso de Kamila s serviu para deixar Malika ainda mais desgostosa. Ela percebeu ento que sua irm mais nova estava decidida a seguir em frente com aquela ideia maluca e Malika estava disposta a fazer tudo que pudesse para det-la.

Kamila Jan, se  de dinheiro que voc precisa, ns j o temos, Malika |disse. Nossa famlia est indo bem; ns temos trabalho de sobra. Eu garanto que voc vai ter tudo que quer. Mas voc no pode assumir este trabalho. Se algo acontecer, eu sou a responsvel por voc. Nossos pais no esto aqui e a responsabilidade recair sobre mim. Ns no precisamos de seu salrio e definitivamente no precisamos dos problemas que este trabalho com certeza nos trar.

Kamila comeou a responder, mas sua irm ainda no havia terminado. Sua cara estava vermelha de indignao.

O que voc acha que vai acontecer comigo e com suas outras irms se voc for presa? E com meu marido, o pai destas gmeas? Eles punem tambm os homens da famlia, voc sabe disso. Voc est querendo colocar todos ns em risco? Em nome de sua famlia e de tudo que lhe  mais sagrado, ela concluiu, implorando a Kamila com palavras que no davam lugar a nenhuma oposio - no aceite este trabalho!

Por um momento, elas ficaram em silncio, presas numa pesarosa situao de impasse. Kamila odiou ter perturbado algum a quem ela amava tanto, mas a oposio de Malika s havia endurecido a deciso de Kamila por mostrar-lhe os riscos que ela envolvia. Havia mais coisas em sua vida do que sua prpria segurana.

Eu preciso..., Kamila disse, olhando para o piso e, em seguida, para as gmeas, e qualquer coisa que no fosse para sua irm. Ela simplesmente no conseguia acreditar que Malika, que a havia apoiado em todas as situaes difceis que ela havia enfrentado nos ltimos vinte e um anos, se recusava agora a apoi-la. Deus vai me ajudar porque eu estarei ajudando a minha comunidade. Eu coloco a minha vida nas mos de Al e tenho certeza de que Ele ir me proteger porque este trabalho  em benefcio de Seu povo. Eu tenho que fazer isto. Espero que um dia voc possa entender.

A caminho da sada do quarto, ela disse as ltimas palavras da conversa - palavras to exaltadas que ela imediatamente se arrependeu de t-las dito.

Se alguma coisa acontecer comigo, eu prometo que no vou pedir a voc para me tirar da enrascada, ela disse. A responsabilidade ser unicamente minha.




Uma semana depois, Kamila comeou a trabalhar no Frum Comunitrio do Dcimo Distrito. Seu salrio era de dez dlares por ms. Kamila passou a estudar os folhetos do programa Habitat todas as noites e decorou seus princpios fundamentais sobre a importncia da liderana, do consenso e da transparncia. Ela tambm teve suas primeiras aulas formais de contabilidade. O programa Habitat seguia  risca os 9.900 dlares que as Naes Unidas proviam para financiar cada novo frum e uma das tarefas de Kamila era ajudar a detalhar como cada dlar havia sido usado no setor de produo.

Com o tempo, a prpria Kamila comeou a dar um curso sobre o Sagrado Alcoro, alm de dirigir os cursos de costura para mulheres. Todas as manhs, grupos de alunas entravam empolgadas andando nas pontas dos ps no vestbulo, esforando-se para no sucumbir ao entusiasmo e quebrar as regras excedendo-se nas risadas e gritinhos. Foi com estupefao que Kamila soube atravs de boatos por toda a vizinhana de Khair Khana que muitas garotas afegs conhecidas suas, que haviam fugido para o Paquisto, haviam perdido o interesse pelos estudos. Agora que esse direito lhes era negado, as meninas de todas as idades de Cabul sabiam a importncia exata que a educao tinha em suas vidas.

Muitas famlias tinham dificuldade para pagar a pequena taxa que o frum cobrava por seus cursos e algumas no tinham dinheiro nem para comprar um lpis ou algumas folhas de papel. Mas as mulheres no comando do frum encontraram uma maneira de fazer com que os livros doados durassem mais, e de usar e reutilizar as provises que tinham. As meninas compartilhavam tudo.

Para Kamila, desenvolver os projetos de empreendimentos domsticos continuou sendo sua parte preferida do trabalho. Na sede do Frum Comunitrio, ela e suas colegas ensinavam conhecimentos bsicos sobre costura e acolchoamento. Depois, elas passaram a ir ao distrito Taimani, de Cabul, onde distribuam tecidos, linhas e agulhas entre as mulheres e voltavam alguns dias depois para pegar os suteres e acolchoados que elas haviam confeccionado.

Essas sadas proporcionaram a Kamila uma viso in loco de toda a pobreza de Cabul. Ela viu famlias de sete e at de doze pessoas obrigadas a sobreviver por muitos dias apenas com gua fervida e algumas batatas velhas; ela conheceu mulheres que haviam vendido as janelas de suas casas para alimentar seus filhos pequenos. Alguns pais desesperados que ela conheceu haviam mandado suas filhas e filhos de apenas oito ou nove anos trabalhar no Paquisto. Ningum sabia se um dia voltaria a v-los. Isso a fez engajar-se ainda mais nas atividades do Frum Comunitrio. Com toda essa desesperana assolando os moradores de sua cidade, quem ela era para no fazer a sua parte?

Pouco tempo depois, as dirigentes do Habitat pediram a ajuda de Kamila e de sua colega do Dcimo Distrito, Nuria, para participar tambm de muitos outros fruns. Sendo uma professora experiente e exmia contadora que havia concludo seus estudos no Instituto Sayed Jamaluddin, muitos anos antes de Kamila, Nuria sustentava seu pai e dois sobrinhos com o salrio que ganhava no Habitat. Todas as manhs, estivesse frio ou chovendo, ela e Kamila faziam juntas a caminhada de quarenta minutos pelas ruas secundrias at o centro em que trabalhavam em Taimani, discutindo as aulas que dariam durante o dia e ideias para projetos futuros, inclusive a de um centro de mulheres que Mahbooba havia sugerido que elas ajudassem a desenvolver.

As famlias demonstravam sua gratido para com a existncia do frum, protegendo o mximo que podiam as mulheres. Diga a Nuria e Kamila que um novo soldado talib est patrulhando as redondezas: elas devem ficar especialmente atentas esta manh, o pai de uma das alunas sussurrou no ouvido da aluna que foi atend-lo  porta, um dia cedo pela manh. Ele havia se apressado a vir avisar as mulheres, assim que havia tomado conhecimento de que um novo guarda controlava a rea. Kamila, Nuria e trs dzias de meninas pequenas passaram a prxima meia hora amontoadas no cho rstico em total silncio enquanto o guarda talib batia  porta, muitas e muitas vezes, at que finalmente, sem ouvir nenhum sinal de vida, ele desistiu e seguiu em frente. Uma hora depois, quando Kamila j havia conseguido convencer seu corao a parar de saltar em disparada, as aulas foram retomadas.

Parecia que todo mundo havia aprendido a se adaptar. E isso tambm valia para a famlia de Kamila. Com a irm passando a maior parte do tempo no Frum Comunitrio, Saaman e Laila haviam assumido a administrao do negcio no dia a dia, para cuja funo elas haviam sido preparadas. Kamila sabia que suas irms dariam conta da administrao, mas assim mesmo ficou encantada ao ver com que facilidade elas assumiram as classes e o cumprimento dos contratos. Kamila continuou indo ao Liceu Myriam, quase todas as semanas, para fazer o marketing de seus produtos. Ela tambm reservou para si mesma a tarefa de visitar o centro comercial Mandawi, cujos lojistas preferiam no fazer suas encomendas antecipadamente, mas escolher dentre os vestidos que Kamila e Rahim levavam, e comprar os que mais lhes agradavam. A rea de comrcio do centro era demasiadamente distante de Khair Khana para que suas irms menores fizessem as visitas, Kamila decidiu, e se recusou a deix-las correr o risco de serem flagradas sozinhas, longe de casa. Ela e Rahim estavam acostumados a fazer esse trabalho e Kamila determinou que ele deveria continuar em seu encargo.

Quanto  protetora irm mais velha de Kamila, as coisas haviam melhorado um pouco - mas lentamente. As semanas imediatamente aps a briga com Malika haviam sido dolorosas, carregadas de uma tenso silenciosa que Kamila achava difcil suportar. Ela sentia muito a falta de sua irm mais velha, especialmente dos conselhos e estmulos com os quais havia contado ao longo de toda a sua vida. Ela sofria com a sensao estranha de ter perdido uma pessoa querida a quem ela continuava vendo todos os dias.

Finalmente, Malika procurou Kamila depois de t-la ouvido falar para as meninas, uma noite quando elas estavam empacotando seus trabalhos, a respeito de um projeto de bordados do Dcimo Distrito. Pela primeira vez, ela pareceu resignada com a deciso de Kamila, embora ainda mostrasse estar longe de aceit-la.

Prometa-me apenas manter a discrio quanto a seu trabalho: no ande por a com nenhum documento das Naes Unidas ou formulrio do Frum Comunitrio que possa ser encontrado se sua bolsa for revistada, ela a advertiu. Ela havia esperado at que as irms mais novas tivessem se recolhido para dormir e as duas estivessem sozinhas na sala de estar, perto do antigo posto de costura de Kamila. Kamila notou que a voz de sua irm revelava uma ponta de ressentimento, mas que predominava sua preocupao e amor. E se voc tiver que andar pela cidade com dinheiro para pagar as mulheres que trabalham com voc, v com Rahim e, pelo amor de Deus, v de txi. Eu sei que voc sabe o que est fazendo e que toda essa experincia com costura lhe ensinou como andar pela cidade como se fosse quase invisvel, mas lembre-se que basta eles te pegarem uma vez para acabar com tudo. Seu nome, sua famlia, sua vida. Absolutamente tudo. No confie em ningum alm de suas colegas e jamais fale sobre seu trabalho em pblico; mesmo que ache no haver mais ningum na rua. Tome cuidado o tempo todo: no se permita baixar a guarda e ficar  vontade, nem mesmo por um instante, porque basta uma oportunidade para eles te prenderem. Tudo bem?

Kamila queria falar, mas lhe faltaram as palavras. Ela balanou a cabea, muitas e muitas vezes, e deu um abrao apertado em sua irm.

E rezou para que fosse capaz de cumprir sua promessa.



Ameaa na escurido da noite

Vozes altas arrancaram Kamila de seu sono. Atordoada, ela se endireitou e se viu sentada num banco de vinil gasto de um nibus fabricado no Paquisto. Estamos a caminho de Peshawar, ela lembrou, j quase totalmente desperta e constatando que o nibus no estava mais andando. Algo de errado devia estar acontecendo...

Fora quase quatro anos antes que outro nibus levara Kamila, com o diploma que acabara de receber nas mos do Instituto Sayed Jamaluddin, de volta para sua casa em Khair Khana, no dia em que o Talib havia tomado Cabul. Kamila pensava com frequncia naquilo - quantas coisas haviam acontecido desde ento. Ela e suas irms haviam passado por tantas experincias e ela no era mais uma adolescente nervosa se preparando para ser professora. Agora ela era empresria e lder comunitria trabalhando com o programa do Frum Comunitrio de Mulheres e estava indo para um curso em Peshawar dirigido por suas chefes internacionais: Samantha, a dirigente incansvel do programa Habitat das Naes Unidas, que havia lutado tanto com seus prprios superiores como contra o Talib para manter os fruns comunitrios em funcionamento; e Anne, que dirigia os programas do Habitat em Cabul. Estariam l ainda outras estrangeiras, dando cursos de liderana e administrao de negcios a outras participantes do Frum Comunitrio. Era uma oportunidade extraordinria para conhecer e trocar ideias com mulheres talentosas do Habitat que trabalhavam em todo o Afeganisto. Como reunir todo mundo em Cabul seria impossvel sem desrespeitar as leis do Talib, as mulheres estavam viajando para o Paquisto, para onde a ONU havia transferido grande parte de seu pessoal.

Novos gritos interromperam os pensamentos de Kamila.

Pelo pequeno retngulo de seu chadri, Kamila viu como um jovem talib fazia perguntas aos berros para Hafiza, sua companheira de viagem e colega do Habitat. Sentada ao lado de Hafiza estava Seema, outra organizadora do Frum Comunitrio e membro de sua equipe. O soldado talib, Kamila sups, devia ter entrado no nibus no posto de controle alfandegrio na divisa de Jalalabad enquanto ela cochilava.

De onde voc est vindo? o talib berrou, Quem  seu mahram? Onde ele est? Mostre-me quem .

As mulheres no apenas estavam viajando para o Paquisto sem a companhia de um mahram, mas tambm estavam indo para um encontro promovido por estrangeiros que trabalhavam para as Naes Unidas. As relaes entre o Talib e as agncias internacionais que trabalhavam no Afeganisto vinham permanentemente se agravando nos ltimos meses e o Amr bil-Maroof havia voltado a advertir que as mulheres afegs no podiam ser contratadas por organizaes internacionais de ajuda humanitria. Se o soldado irado que estava ali interrogando Seema soubesse o que elas faziam, todas elas estariam seriamente encrencadas.

Kamila continuou sentada em silncio, imaginando todos os cenrios possveis que poderiam ajud-las a sair do apuro em que estavam metidas. Os anos em que havia passado visitando as lojas dos centros comerciais Liceu Myriam e Mandawi com Rahim haviam lhe ensinado que normalmente havia uma sada para situaes como aquela se ela apenas conseguisse encontrar as palavras certas. Algumas semanas antes, um membro do ministrio chamado Vcio & Virtude irrompeu na loja de Ali no momento em que Kamila estava desembrulhando os vestidos que o lojista havia encomendado. Reagindo rapidamente, ela havia explicado ao soldado que estava ali em visita a Ali, que era membro de sua famlia. Muito obrigada por nos vigiar; meus parentes e eu somos muito agradecidos pelo trabalho rduo que voc e seus irmos esto fazendo para manter a segurana de nossa cidade. Ns temos muito respeito pelo Amr bil-Maroof, Kamila havia dito ao soldado. Eu acabei de chegar aqui para ver este meu primo e ver se ele podia vender alguns vestidos para sustentar meus irmos e irms. O soldado havia se mostrado bastante persuadido, mas no totalmente. Voc com certeza tem coisas mais importantes para fazer, como encontrar aqueles que so realmente transgressores e manter a nossa vizinhana livre do perigo e da vergonha para todos ns, no  mesmo? Afinal, ele havia parecido satisfeito e fora embora com a advertncia para que ela tomasse o cuidado de falar apenas com os homens de sua famlia e que voltasse para casa imediatamente, o mais rpido possvel. As mulheres no devem andar nas ruas. Ali havia permanecido em silncio e aterrorizado por todo o tempo em que a conversa durara e depois perguntou a Kamila como ela havia se atrevido a falar daquele jeito com um talib. A resposta dela fora uma demonstrao de tudo que ela havia aprendido durante os anos de visitas ao Liceu Myriam com Rahim. Se eu no me dirigisse a ele como um irmo, Kamila respondera, ele teria a certeza de que ns ramos culpados de ter feito alguma coisa errada, o que no fizemos. Voc  como se fosse da minha famlia e ns estamos tentando trabalhar pelo bem de nossas famlias. Se eu no tivesse me explicado, poderia haver problemas para voc, para mim e para Rahim. Experincias como aquela haviam lhe ensinado que muitos dos homens que estavam agora trabalhando para o governo podiam ser persuadidos pela lgica desde que se usasse de boa educao, firmeza e respeito.

At ali, ela observou, o soldado no nibus continuava falando com elas e esse era um bom sinal. Se fizesse silncio, ento elas estariam realmente em perigo.

Naquele exato momento, Seema estava apontando para um homem de meia-idade sentado algumas fileiras na frente dela.

Ele  o nosso mahram, ela disse, inclinando sua cabea encoberta na direo de um senhor de barba que tinha em sua cara franca uma expresso bondosa, mas que subitamente ficou tensa de medo.

O soldado voltou seus olhos rodeados de plpebras escuras para o homem de meia-idade e aproximou-se de seu assento, colocando-se acima dele.

 verdade? ele perguntou.

Kamila e suas colegas estavam demasiadamente apavoradas para se olharem mutuamente atravs do corredor do nibus. Tanto Rahim como o filho de Seema, que costumavam servir de mahram e ser seus companheiros de viagem, no haviam podido acompanh-las dessa vez porque tinham provas na escola. Impacientes por participar daquele curso, elas haviam decidido ir desacompanhadas, apesar dos riscos. Rahim havia feito tudo que podia para ajudar. Inclusive comprar as passagens para as mulheres em seu prprio nome, embora todos eles soubessem que isso de nada adiantaria se elas fossem flagradas sem a companhia de um homem. As trs colegas haviam combinado de dizer, se fossem paradas e interrogadas, que estavam viajando em famlia para Peshawar, onde visitariam seus parentes. Alguns minutos depois de iniciada a viagem, elas haviam decidido tomar uma medida mais precavida e pediram ao companheiro de viagem, o homem que estava agora apavorado sentado  frente das mulheres, que dissesse ser tio delas se aparecesse algum soldado do Talib. Essa prtica havia se tornado comum em Cabul, uma vez que as mulheres vivas, sem filhos ou outros membros masculinos na famlia, tinham que continuar saindo para fazer suas compras, visitar parentes e levar seus filhos ao mdico. O homem havia lhes garantido com um sorriso. Sem problemas, estou aqui caso precisem, ele havia prometido.

Agora, no entanto, o perigo era real e no meramente terico e o homem no queria ter nada a ver com elas. Olhando para o soldado, ele abandonou-as  sua prpria sorte.

No, no  verdade, o homem disse em voz baixa. Eu no sou o mahram delas. Elas no esto viajando comigo.

O talib se alterou.

Que espcie de mulheres so vocs? ele gritou para Hafiza e Seema. Em seguida, ele se virou para o motorista e gritou Eu vou levar estas mulheres para a priso. Agora. Chame outro nibus para levar seus passageiros at a fronteira.

Kamila percebeu que era sua vez de agir.

Meu irmo, com todo respeito, eu devo lhe dizer que o nosso mahram vai nos encontrar na fronteira, ela comeou. Meu nome  Kamila e meu irmo Rahim  o nosso mahram. Ele estava conosco, mas eu esqueci minha bagagem em casa e ele foi busc-la. Ele vai nos encontrar na fronteira.

O jovem soldado continuou inabalvel

Como voc pode se considerar uma muulmana? Que espcie de famlia  a sua? Isto  uma vergonha! O cano de seu fuzil AK-47 estava a apenas algumas polegadas da testa de Kamila.

Lembrando do bilhete de sua passagem, Kamila tirou-o de sua bolsa com as mos trmulas.

Olhe aqui, voc pode ver, esta  a prova. Ela apontou para o pedao de papel, onde estava escrito o nome de Rahim. Este bilhete est no nome de meu irmo para todas ns. Ele  o nosso mahram. Ele vai nos encontrar na fronteira.

Hafiza e Seema ficaram olhando de seus assentos, totalmente paralisadas.

Ns no queremos violar a lei, Kamila prosseguiu.  difcil para mim e minhas tias; ns jamais decidiramos viajar sem o nosso mahram. Ns conhecemos as leis e as respeitamos. Mas no podemos ir para o Paquisto sem nossas bolsas de viagem e os presentes que esto nelas para as crianas. Como podemos visitar nossos parentes sem levar nada? Meu irmo ir logo ao nosso encontro com a bagagem.

A situao se prolongava. O soldado perguntou qual era o nome de seu pai e onde sua famlia morava. Depois perguntou mais uma vez sobre seu irmo. Vinte minutos se passaram. Kamila se imaginou sendo levada para a priso e o que diria para sua me e Malika se fosse presa. Era exatamente a situao sobre a qual sua irm mais velha a havia advertido quando elas finalmente haviam se reconciliado alguns meses atrs, e a razo de ela ter-lhe implorado para que no aceitasse o convite para trabalhar no Habitat. Kamila lembrou de suas prprias palavras speras alguns meses antes.

Se alguma coisa acontecer comigo, eu prometo que no vou pedir a voc para me tirar da enrascada. A responsabilidade ser unicamente minha.

Agora ela s podia esperar que sua irm a perdoasse se fosse arrastada para a priso, em Jalalabad. Malika estava certa; bastava um momento para que tudo desse terrivelmente errado.

Ignorando seu medo e agarrando-se  sua f e sua experincia, ela continuou falando, calma e respeitosamente. Kamila percebeu que finalmente estava conseguindo vencer a resistncia do soldado e que a situao estava comeando a aborrec-lo. Ele continuava irado, mas ela percebeu nele sinais de impacincia e disposio a passar para transgressores mais submissos.

O talib fixou os olhos na tela retangular de sua burka. As palavras saram dele como um rosnado vindo de suas entranhas.

Se voc no tivesse este bilhete, eu jamais lhe daria permisso para viajar at o Paquisto. Nunca mais tente viajar sem a companhia de seu mahram. Da prxima vez, voc ir para a priso.

Ele se virou e desceu do micro-nibus, retornando ao seu posto de controle. Kamila procurou no olhar em sua direo quando o motorista deu a arrancada e voltou para a estrada. O motorista, ela notou, estava to plido e trmulo quanto ela.

Por toda a prxima hora, as mulheres continuaram sentadas, atordoadas e em total silncio, completamente sem palavras e energia. A adrenalina que havia insuflado a coragem de Kamila havia acabado h muito tempo e ela se recostou  janela, fazendo suas oraes de agradecimento a Al por mant-la protegida. Dentro de algumas horas, elas estariam em Peshawar, onde, no dia seguinte, comeariam o curso.




Quando retornou a Cabul, Kamila no disse nada a seus familiares sobre o que havia acontecido na viagem de ida para o Paquisto. Ela no queria deixar Malika preocupada - ou provar que os receios dela eram justificados. E queria poupar tanto suas irms menores como suas alunas de lembr-las do que elas j sabiam: o mundo do lado de fora de seu porto verde continuava cheio de perigos. A pobreza, a falta de comida e a aridez impiedosa haviam sugado a vida de todos na cidade, at mesmos dos soldados do Talib, que patrulhavam a capital estril vestindo apenas suas shalwar kameez para proteg-los do inverno glacial. Eles estavam lutando quase tanto para sobreviver quanto os cidados que eles dominavam. Parecia que ningum tinha mais energia para continuar lutando. At mesmo o leo solitrio, Marjan, do zoolgico de Cabul, que havia sido um presente dos alemes em tempos bem melhores, parecia exaurido.

Kamila continuou a guardar segredo sobre o que havia acontecido, at muitos meses depois, quando soube que Wazhma, uma amiga e colega do Frum Comunitrio, havia sido presa. Parecia que uma vizinha a havia denunciado ao Amr bil-Maroof por estar dando aulas a meninas dos distritos vizinhos; dois talibs a aguardavam cedo, pela manh, e a levaram presa assim que chegara para abrir a escola do Frum Comunitrio. Apesar dos esforos de Samantha e Anne, com ajuda de todo aparato da ONU para tir-la da priso, o Talib ainda no a havia soltado e rumores - no comprovados - de que ela estava sendo torturada, estavam se espalhando rapidamente. Muitos dias depois de sua deteno, Wazhma mandou um recado para Kamila, atravs de colaboradoras do Habitat, para que ela suspendesse imediatamente seu trabalho. Por favor, diga a Kamila que ela no deve ir mais ao Frum Comunitrio, ela havia mandado dizer. Diga a ela que  jovem demais e que tem uma longa vida pela frente; ela no deve correr tais riscos. Eu sei que o trabalho do frum  importante, mas sua vida vale mais que tudo. Kamila ouviu a advertncia de sua amiga, mas no se deixou demover. Ela continuou trabalhando, agora ainda mais consciente - como se precisasse de outro lembrete - das ameaas muito concretas que ela estava enfrentando diariamente, Deus vai me proteger, ela dizia para si mesma. Eu confio no poder de minha f.

E ento, subitamente, uma nova epidemia se abateu sobre a cidade. Por sorte, o Talib no tinha nada a ver com ela: era a febre provocada pelo [filme] Titanic.

O romance pico de Hollywood havia chegado ao Afeganisto e, como seus iguais do mundo inteiro, os jovens de toda Cabul tambm ficaram obcecados pela histria. Cpias pirateadas de fitas VHS do filme eram passadas clandestinamente de amigos para amigos e entre primos e vizinhos. Uma conhecida de Kamila havia escondido sua cpia no fundo de uma sopeira com a qual ela atravessou a fronteira com o Paquisto; um colega de classe de Rahim escondeu a sua entre tnicas enroladas no fundo das malas que trouxera do Ir. O filme podia, naquele momento, ser encontrado em lojas clandestinas de vdeo que existiam por toda a capital e, embora as fitas pirateadas houvessem sido reproduzidas tantas vezes que passagens inteiras haviam ficado corrompidas e tivessem que ser saltadas, a maioria das pessoas no se importava com isso: elas simplesmente queriam ouvir de novo alguns versos de My Heart Will Go On e acompanhar mais uma vez a luta desesperada dos jovens amantes perseguidos pelo destino cuja felicidade era impossvel.

O arsenal comum de armas do Talib se mostrou intil no combate ao Titanic. Eles tentaram impedir a propagao das influncias nocivas do filme, a comear pelo corte de cabelo Titanic, que passou a ser proibido por lei. Eles arrastavam os meninos que encontravam com o cabelo cado na testa at uma barbearia para ter a cabea totalmente raspada. Quando essa estratgia se mostrou totalmente ineficiente, os soldados do Talib passaram a perseguir os prprios barbeiros, chegando a prender quase duas dezenas deles por darem aos imitadores de Jack Dawson o look de Leo. Bolos de casamento em forma do famoso transatlntico se tornaram populares e foram tambm proibidos: o Talib o classificou como uma violao a cultura nacional e islmica do Afeganisto.

Mas mesmo assim aquela febre continuou se espalhando. Empresrios se apressaram a tirar proveito da onda de popularidade do filme e apelidaram o mercado do leito seco do Rio de Cabul, que havia ficado marrom e queimado pela seca, de mercado Titanic. Negociantes passaram a usar o nome e a imagem do Titanic em tudo que encontravam - fachadas de lojas, txis, sapatos, cremes para mos e at mesmo verduras e batons. Kamila tambm havia assistido ao filme com um grupo de amigas na casa de uma garota cujo pai tinha uma ligao prxima com o chefe local do Talib. Posteriormente, ela comentou com Rahim que parecia no haver nada em Cabul que restara intocado pela saga de Rose e Jack. Agora, ela disse, isso virou comrcio.

 parte do interldio Titanic, a vida continuou como sempre fora, ocasionalmente interrompida pela excitao provocada por uma carta do Sr. Sidiqi, que escreveu do Ir para agradecer a Kamila e as meninas pelo envio de dinheiro para ele e Najeeb atravs de amigos e parentes. A Sra. Sidiqi ficava agora com as meninas a maior parte do tempo e elas viam com tristeza o quanto ela lutava contra a piora de seu problema cardaco. Elas viviam preocupadas com sua sade, mas a Sra. Sidiqi no queria ouvir falar nisso e recusava-se a deixar de se ocupar com os servios domsticos, como a limpeza e a cozinha. Sua maior alegria parecia advir do convvio com suas filhas e pela vinda diria das jovens  sua casa para trabalhar. Se as leis do Talib e sua prpria constituio frgil conspiravam para impedi-la de participar do mundo, pelo menos ela podia saber o que estava acontecendo em sua comunidade pelas notcias trazidas por essas jovens.

Enquanto isso, as encomendas de costura continuaram chegando e a sala de estar/oficina de costura prosseguiu em pleno funcionamento.

Era uma tarde de outono e Saaman e Laila estavam se esforando arduamente para dar conta de uma grande encomenda de vestidos de noiva, alm de uma encomenda sob medida de uma jovem que se casaria com um vizinho dos Sidiqi. O noivo era uma das poucas pessoas que as garotas sabiam ter relaes com a comunidade internacional: ele trabalhava como guarda de uma agncia internacional encarregada de remover os milhes de minas deixadas pelos soviticos. As irms Sidiqi haviam ouvido dizer que seu cargo - e salrio - haviam sido inestimveis quando seu irmo fora detido por uma semana no vizinho distrito de Taimani pela ofensa de ter ensinado desenho aos alunos da escola de artes de um amigo. Ele estava apenas substituindo o professor regular, mas o Talib o prendera em plena aula e o levara para a priso no momento em que encontrou revistas de arte escondidas na gaveta de uma escrivaninha.

Enquanto costuravam os vestidos verdes e brancos, as meninas ouviam pelo toca-fitas as melodias de Ahmad Zahir cantadas em voz baixa e lgubre, que continuava sendo um dos mais famosos cantores do Afeganisto, apesar de ter morrido quase vinte anos atrs. O ex-professor e reprter do Cabul Times havia sido assassinado em 1979, com trinta e trs anos, supostamente por ordem de um oficial comunista enfurecido com a orientao poltica daquele cantor popular.

A voz de Zahir enchia o espao de trabalho:


Por um lado, eu quero ir embora, ir embora

Por outro lado, eu no quero ir embora

Eu no tenho foras

O que posso fazer sem voc


Um pouco depois das cinco horas da tarde, Kamila entrou correndo pelo porto e pela porta da frente. Ela estivera distribuindo roupas e alimentos para moradores necessitados de Cabul para uma outra agncia da ONU, a Organizao de Migrao Internacional, e no era esperada em casa. Suas faces estavam vermelhas e ela estava sem flego.

Vocs ouviram a notcia? ela perguntou para suas irms. Eles mataram Massoud.

Laila ligou imediatamente o rdio e alguns minutos de extrema tenso depois a esttica das ondas mdias deu lugar  voz clara do locutor do noticirio persa da BBC, que estava transmitindo ao vivo de Londres. O rosto da Sra. Sidiqi ficou ainda mais plido ao ouvir a voz estranha que estava entrando em sua sala de estar vinda de uma distncia de milhares de quilmetros. As meninas se amontoaram em volta do rdio.

Houve um ataque contra Ahmad Shah Massoud em seu quartel-general na provncia de Takhar no Afeganisto, disse Daud Qarizadah [reprter] da BBC, citando uma fonte prxima do lder da Aliana do Norte. Massoud foi morto juntamente com muitos outros aliados. Aparentemente, os homens que conduziram o ataque vinham se fazendo passar por jornalistas; eles carregavam uma bomba escondida na cmera e tambm morreram na exploso. A Sra. Sidiqi e suas filhas sabiam que as foras de Massoud representavam o ltimo foco de resistncia ao Talib; nos ltimos anos, elas foram as nicas foras que impediram o Talib de assumir o controle total de todo o pas. Se Massoud estava morto, o Talib estaria livre de seu maior inimigo, mas era improvvel que a guerra terminasse.

As garotas ficaram perplexas e caladas. Kamila viu como o choque, o medo e o desespero se espalharam pelas faces de sua me. Ela se recusava a acreditar que Massoud estivesse morto; com certeza, ele, o Leo de Panjshir, era capaz de sobreviver a um atentado, mesmo que a bomba fosse explodida a muito pouca distncia. Afinal, ele era um veterano de muitas guerras. Ele vinha lutando, havia muitas dcadas, primeiro contra os russos, depois contra os adversrios Mujahideen como ministro da defesa e agora contra o Talib. Com certeza, ele no podia ter acabado assim, ou ser que podia?

As notcias no dia seguinte, s trouxeram mais confuso e novas indagaes. Burhanuddin Rabbani insistiu em afirmar que seu ex-ministro da defesa continuava vivo e o mesmo fez o porta-voz de Massoud, mas jornalistas e oficiais contradisseram essa afirmao. Ningum sabia em quem acreditar, embora todos esperassem pelo pior.

Sara chegou ao local de trabalho em seu horrio rotineiro e entregou-se a suas tarefas, ansiosa por se distrair das notcias. Se essas notcias so verdadeiras e ele est morto, ela disse, ento podemos esperar que as coisas piorem mais uma vez. A guerra pode se tornar ainda mais violenta do que foi a guerra civil. Vocs, meninas, talvez tenham que deixar este pas. Espero estar errada, mas  possvel que as coisas cheguem a um nvel que jamais testemunhamos.

Kamila pensou por um momento em seu pai e no quanto ela sentia falta de suas palavras sbias e confortadoras. Mas recusou-se a abandonar suas esperanas.

Nas prximas vinte e quatro horas, pouco trabalho foi feito na casa dos Sidiqi e, em seguida, as notcias que chegaram foram ainda mais apavorantes: dois avies de passageiros tinham sido arremetidos contra o World Trade Center, na cidade de Nova York, e acreditava-se que o nmero de mortos chegasse a milhares, embora o trabalho de resgate estivesse apenas comeando. Um outro avio havia sido arremetido contra o Pentgono, perto de Washington, D. C., a capital dos Estados Unidos, e um quarto no havia conseguido atingir seu alvo, que para muitos seria a Casa Branca. O mundo estava fora de seu eixo.

Para alvio de sua me, Rahim voltou mais cedo da escola, dizendo que ningum estava prestando ateno nas aulas; todo mundo s falava nas notcias dos dois ltimos dias e se perguntando o que aconteceria a seguir. Quase todos os moradores da capital haviam imediatamente suposto que Osama bin Laden, o milionrio saudita que estava vivendo no pas como convidado do Talib, estivesse por trs dos ataques contra os Estados Unidos. Alguns anos antes, os Estados Unidos haviam bombardeado supostos campos de treinamento de bin Laden no leste do Afeganisto em retaliao aos ataques a duas embaixadas americanas na frica. Washington havia exigido que o Talib entregasse bin Laden s autoridades americanas, mas o regime recusara-se a retirar sua hospitalidade. Seu hspede devia ser julgado no Afeganisto por quaisquer que fossem as ofensas que ele tivesse cometido contra os Estados Unidos. As hostilidades entre os Estados Unidos e o Talib haviam piorado desde ento. Agora os americanos declaravam ter provas de que bin Laden estava por trs do plano sanguinrio de 11 de setembro e voltaram a insistir em sua entrega pelo Talib. E, novamente, os lderes do Talib recusaram-se a entreg-lo.

Os Sidiqi, como a maioria dos afegos, tinham apenas uma sensao vaga de quem eram os rabes para o Talib. Os homens eram amplamente vistos como sendo combatentes da Arbia Saudita, Egito, Chechnia, Imen, Somlia e de outros pases que haviam se juntado para apoiar a causa do Talib e o comando de bin Laden. Quando o movimento do Talib surgiu pela primeira vez, seus lderes se apresentaram no como inimigos do Ocidente, mas como humildes purificadores de seu pas, comprometidos com a restaurao de uma paz desesperadamente necessitada. Mas com o passar dos anos e a busca por reconhecimento internacional estar cada vez mais distante, suas lideranas passaram a adotar uma retrica cada vez mais irada contra os Estados Unidos e a se aproximar cada vez mais de bin Laden e sua organizao, chamada Al-Qaeda, que quer dizer a base em rabe. Essa relao s se aprofundou depois que as Naes Unidas impuseram sanes militares e econmicas ao Talib, deixando o regime ainda mais isolado do que j era, com apenas trs pases, de todo o mundo, reconhecendo sua legitimidade.

Atribuiu-se aos militantes da Al-Qaeda a responsabilidade pelo ataque a Massoud, de acordo com as notcias que finalmente confirmaram de forma irrefutvel a morte do lder da Aliana do Norte. E agora havia rumores de que eles estavam por trs dos ataques aos Estados Unidos.

A Sra. Sidiqi e suas filhas sabiam apenas o que haviam ouvido pela BBC, e os comentrios de seus colegas que Rahim havia trazido da escola. Mas isso era suficiente para deixar claro que o Afeganisto estava no centro dos horrores da ltima semana e certamente seria o alvo de qualquer retaliao que viria a seguir. O governo dos Estados Unidos j estava ameaando contra-atacar se o Talib no entregasse bin Laden. E ningum em Cabul tinha motivos para pensar que ele fosse entreg-lo. Por anos, o Afeganisto vinha vivendo como uma nao pria, totalmente esquecida pelo resto do mundo. Agora, no se falava mais no rdio de qualquer outro lugar.

E assim comeou o jogo da espera. O resto de atividade econmica que havia conseguido sobreviver na capital sofreu uma sbita paralisia enquanto o coletivo dos cidados de Cabul prendia sua respirao. Todo mundo sabia que o destino de seu pas estava agora nas mos dos homens de Kandahar, Washington, Londres e outras capitais distantes e desconhecidas. Os boatos se espalharam como rastilho de plvora e, como sempre ocorria em Cabul, foram passados adiante por famlias, vizinhos e comerciantes. Os observadores mais experientes da cidade acreditavam na iminncia - e inevitabilidade - de um ataque militar dos Estados Unidos contra o governo do Talib. As meninas ouviram a notcia de que a ONU estava evacuando seus funcionrios como medida preventiva de antecipao a guerra; elas ficaram se perguntando o que os estrangeiros sabiam e eles desconheciam.

Aguentar firme.

No sair de casa.

E rezar.

Era tudo que restava fazer  maioria dos cidados de Cabul.

Aqueles que podiam, no entanto, estavam decididos a ir embora. As poucas famlias que continuavam morando na mesma rua de Kamila estavam encaixotando os poucos pertences que lhes restavam e deixando a cidade. Seu destino era o Paquisto, se conseguissem ir to longe, ou, se fosse possvel, o interior do prprio Afeganisto - e estavam tentando convencer a Sra. Sidiqi a fazer o mesmo. Aquele no era um lugar apropriado para ela e seus filhos; com certeza, as bombas lanadas pelos Estados Unidos logo cairiam sobre todos.  melhor vocs irem embora daqui o mais rpido possvel, seus vizinhos aconselhavam. Khair Khana  um lugar repleto de alvos: o aeroporto, o depsito de combustveis, as unidades de artilharia do Talib. Todos eles localizados a poucos quilmetros da casa de Kamila. At mesmo Sara implorou  Sra. Sidiqi e suas filhas para que fossem embora dali; ela prpria estava levando seus filhos para outra parte de Khair Khana, a alguns quilmetros de distncia do aeroporto. O risco de no arredar p era demasiadamente alto, ela argumentou. O que poder acontecer se os americanos errarem o alvo?

Com o definhamento da economia nas semanas que se seguiram aos ataques de 11 de setembro, os preos das passagens para fora da capital subiram muito e rapidamente. Caminhes, nibus e txis andavam abarrotados de famlias em busca de lugares mais seguros e as passagens chegavam a custar at quinhentos dlares. As pessoas corriam s casas de cmbio, s margens do Rio Cabul, para trocar suas economias em moedas do Paquisto e do Ir por afeganes para comprar comida e outros meios de subsistncia. Mas a velocidade dos preos agia contra elas, dia aps dia. Os cambistas espertalhes apostavam na entrada de dlares americanos no pas, logo aps a queda do regime Talib, depois da guerra.

A Sra. Sidiqi ouvia as histrias e assistia aos preparativos de seus vizinhos. Mas continuava convencida de que o melhor para sua famlia era permanecer exatamente onde estava. Eles no empreenderiam nenhuma fuga. Uma coisa seria se acontecesse algo com ela ou suas filhas em seu prprio pas, e ela entregaria tudo  vontade de Deus. Mas ela no permitiria que suas preciosas filhas se tornassem alvos vulnerveis de sequestradores, assassinos e bandidos que as aguardavam, uma vez que tivessem abandonado a segurana de seu prprio quintal. Sua famlia ficaria melhor ali, unida, longe das ruas e de seus tumultos.




Quatro semanas aps a morte de Massoud e os ataques de 11 de setembro, teve incio o bombardeio. As garotas haviam acabado de jantar quando ouviram os zunidos dos msseis atravessando a escurido da noite e, em seguida, o estrondo das exploses foi ouvido por toda Cabul. Sentada em seu quarto, Kamila sentiu as janelas tilintarem e os assoalhos tremerem enquanto Nasrin e Laila corriam  procura de sua me e suas irms mais velhas, gritando apavoradas atravs do longo corredor que ia da sala de estar para os quartos de dormir da famlia. As casas ficaram imediatamente s escuras, porque o Talib cortou o fornecimento de energia com a esperana de frustrar os planos do inimigo que rugia sobre suas cabeas. Elas ouviram a intensa fuzilaria dos pesados fuzis antiareos do Talib  caa dos jatos estrangeiros, disparando de seus caminhes pretos que percorriam a cidade, tentando em vo atingir a evasiva aeronave americana que continuava intrpida sobrevoando a cidade.

E, finalmente, o silncio.

Kamila continuou sentada com Nasrin, sua irm de quatorze anos, aninhada em seu colo, por mais uma hora. Acabou, ela sussurrou em seu ouvido. Todos esto bem. Est vendo? Estamos todos aqui, sos e salvos. Ela deu palmadinhas nas costas de sua irmzinha e esperou que a menina no notasse o quanto suas prprias mos estavam tremendo.

Com o alvorecer, um novo dia comeou como se fosse qualquer outro. As lojas e os escritrios abriram e o sol claro de outono brilhou intensamente. Mas o terror e a incerteza haviam se instalado na capital. Famlias em pnico clamavam por deixar a capital, buscando encontrar um meio de ir embora antes de voltar a anoitecer, quando provavelmente recomeariam a lanar bombas sobre a cidade. Rahim, de volta do mercado, contou que as ruas de Khair Khana pareciam um cemitrio. Encontrar comida no fora problema, ele disse; ele tivera as lojas s para si, uma vez que todo mundo estava ocupado em planejar sua fuga.

Os bombardeios prosseguiram por uma semana, depois mais outra e mais outra, com uma pausa ocasional na sexta-feira, o dia santo dos muulmanos. A famlia se acostumou a jantar cedo e passar as prximas horas tensas, iluminadas  luz de velas no quarto sem janela,  espera que o ar da noite se enchesse com o zunido dos avies e o estrondo das exploses. Como a maioria dos habitantes de Cabul, Rahim e suas irms aprenderam a distinguir os rudos produzidos por cada tipo de avio de guerra. Eles ficaram peritos em distinguir as diferenas entre os B-52, B-2, F-14 e AC-130. E tambm entre as bombas de fragmentao e as bombas inteligentes. E j estavam pesarosamente acostumados com o mau cheiro das nuvens de fumaa cida que subiam da terra depois dos ataques areos de cada noite.

Khair Khana tremia sob a ao implacvel dos ataques areos americanos que, s vezes, comeavam bem ante do cair da noite. Sara Jan estava certa, Kamila pensou. Ningum est seguro aqui. As bombas lanadas de cima caiam to perto que Kamila ficava perplexa ao abrir os olhos e constatar que sua casa continuava em p. Agora ela tinha certeza de que no sobreviveria. Os alvos dos avies americanos tinham como objetivo as fortalezas do Talib nos arredores, deixando atrs de si, noite aps noite, exploses ensurdecedoras e crateras nas ruas. Numa tarde, depois de uma semana do incio dos ataques areos, uma bomba demoliu duas casas em outra parte de Khair Khana e matou sete pessoas que estavam dentro delas. Parecia que o alvo pretendido era uma guarnio militar a alguns quilmetros de distncia. A notcia sobre as mortes se espalhou rapidamente entre as famlias que continuavam vivendo em Khair Khana e com ela ainda mais medo.

Fiquem em suas casas! Eram as ordens dos soldados do Talib, ouvidas  noite, enquanto eles percorriam as ruas de Khair Khana. O governo havia bloqueado todas as ruas principais de Cabul e determinado que o toque de recolher comeasse ainda mais cedo, depois do incio dos ataques americanos. Eles no precisavam se preocupar, Kamila pensou, ao ouvir as ordens dos soldados quebrando o silncio que reinava na rua do lado de fora do porto de sua casa. A cidade inteira estava debaixo de fogo. Para onde poderamos ir?

Todas as noites, Kamila e Saaman sintonizavam na BBC o rdio movido  pilha para saber as ltimas notcias daquela guerra. Os apresentadores do noticirio em Londres aventavam constantemente a possibilidade de o regime do Talib ser deposto; os homens de Kandahar, eles diziam, seriam finalmente obrigados a recuar antes dos ataques esmagadores das foras americanas que estavam usando a tecnologia mais poderosa do sculo vinte e um contra seus carros, caminhes, casamatas, casernas, estaes de rdio, aeroportos, depsitos de armas e trincheiras. Nenhuma das irms ousava dizer em voz alta o que aconteceria se, ou quando, o governo do Talib fosse deposto, embora as vozes transmitidas em ondas mdias sugerissem que Zahir Shah, o antigo rei, possivelmente voltaria a governar o pas. Kamila e suas irms no tinham como saber por quanto tempo a guerra ainda continuaria. Nem se sobreviveriam a ela.

Kamila se agarrava a sua f para suportar a ofensiva aterrorizante e continuar sendo um esteio para suas irms menores. Ela rezava por seu pas que, por toda a sua vida, no conhecera outra coisa seno guerra e banhos de sangue. Apesar da guerra, que agora j engolfava sua casa e sua cidade, ela queria acreditar que, independente do que viesse acontecer, o futuro seria mais promissor.

Paz e uma chance de perseguir nossos sonhos, Kamila pensou consigo mesma, uma noite em que as exploses que faziam tremer o cho em que pisava, pareciam no ter fim. Isso  tudo que podemos ousar esperar.

Por enquanto, ela pensou, isso teria de ser o bastante.



Kabul Jan, Kaweyan e a f
 de Kamila na boa sorte

No dia 13 de novembro de 2001, o Talib abandonou Cabul.

A Rdio Sharia voltou a ser a Rdio Afeganisto. E a voz de Farhad Darya voltou ao ar cantando sua cano Kabul Jan (Querida Cabul), dessa vez livremente, para todos ouvirem, sem nenhuma patrulha do Amr bil-Maroof a ser temida:


Quero poder cantar o hino da nao afeg

Quero poder subir a [montanha] Hindukush e recitar o Sagrado Alcoro

Quero poder cantar meu povo errante sem lar

Por todo o caminho do Ir at o Paquisto


Os soldados da Aliana do Norte em seus enrugados uniformes de camuflagem se espalharam por toda a capital, percorrendo as ruas, gritando que o Talib havia ido embora. Na rua principal de Khair Khana, canes indianas tocadas em lojas e tendas ressoavam em alto volume pelas ruas. Carros andavam com suas buzinas disparadas. Homens se barbeavam em plena rua. Crianas brincavam com suas bolas de futebol. A cidade relaxava e saa s ruas para comemorar em pblico, pela primeira vez depois de cinco anos.

Para a maioria das mulheres de Cabul, no entanto, a comemorao nas ruas era definitivamente prematura. A Sra. Sidiqi estava to preocupada com o caos que reinava nas ruas e a mudana sbita de governo que empurrou todas as suas cinco filhas para dentro de um cubculo espremido, debaixo das escadas que iam dar no consultrio da Dra. Maryam, e mandou que ficassem ali at quando ela julgasse necessrio. Quem sabe o que vai acontecer? ela disse, empurrando as meninas para dentro daquela pequena despensa desprovida de janela. Quem sabe se saqueadores no queiram invadir a nossa casa agora que o Talib foi embora? Esperem aqui at amanh; at l, eu vou saber melhor o que fazer. As meninas passaram a noite em seu esconderijo ouvindo o rudo abafado das comemoraes na rua.

Dias depois, as mulheres continuavam chegando ao porto verde usando chadri. Kamila concordou com suas amigas que era mais sensato esperar um pouco para tirar o vu com o qual elas haviam se acostumado nos ltimos cinco anos. No havia por que se apressar. Se as coisas tivessem realmente mudado, haveria tempo de sobra para se adaptar  nova ordem e viver as liberdades to arduamente conquistadas.




Quando eu conheci Kamila, em dezembro de 2005, o primeiro estgio da guerra havia h muito terminado, como tambm a euforia que havia saudado a invaso americana e a retirada do Talib. Muitos afegos que eu entrevistei se perguntavam por que as coisas no estavam melhorando. Eles ridicularizavam os hbitos de gastana dos estrangeiros esbanjadores: os carros enormes que congestionavam as ruas esburacadas; os prdios de luxo fortificados, os bem-intencionados projetos imobilirios - e seus empregados bem pagos - que eram abandonados assim que concludos. Quanto mais tempo eu passava em Cabul, mais via o que eles viam e entendia melhor suas frustraes. Eu tambm me perguntava se essa ltima investida internacional na construo da nao afeg acabaria bem para todos.

Talvez tenha sido por isso que a primeira coisa que observei em Kamila - alm de seu entusiasmo juvenil - foi seu otimismo. Sua f foi capaz de derrubar a ascenso de minha prpria desesperana. Ela falava sobre o futuro promissor de seu pas com total convico e esperana. Sem nenhum sinal de ceticismo ou cinismo. Quando a comunidade internacional retornou ao Afeganisto em 2001, ela me disse, foi como se eles de repente tivessem se lembrado que o nosso pas existia, to rapidamente quanto o haviam esquecido, depois de ter nos abandonado assim que os soviticos foram embora. E Kamila saudou a volta do mundo de braos abertos. Essa  uma oportunidade de ouro para o Afeganisto, ela disse. Uma oportunidade para ajudar os cidados afegos a reconstruir o que a guerra destruiu: as estradas, a economia, o sistema educacional do pas - toda a infraestrutura vital que foi destruda - e dar  sua gerao e  prxima a chance de, pela primeira vez, viver em paz. Nos ltimos quatro anos, Kamila vinha fazendo a sua parte, trabalhando com os estrangeiros pelo bem de seus conterrneos, primeiro com as Naes Unidas e depois com a agncia internacional de ajuda humanitria Mercy Corps. Mulheres como ela, que tinham experincia em trabalhar com a comunidade internacional, eram muito raras e, portanto, muito requeridas.

O trabalho de Kamila depois da invaso americana e da queda do Talib passou a centrar-se nas mulheres e em seu empreendimento. Logo depois que as tropas do Talib se retiraram de Cabul, ela deixou a Organizao Internacional de Migrao para fundar e aparelhar o centro de mulheres do Mercy Corps em Cabul, que passou a oferecer cursos de alfabetizao e profissionalizao. Ela deu cursos de microfinanas s mulheres, ensinando como usar pequenos emprstimos para cultivar hortalias ou fazer sabo e velas e como vender seus produtos quando eles estivessem prontos para entrar no mercado. A chave era ajudar as mulheres a se ajudarem para que pudessem continuar sustentando suas famlias depois de cessada a ajuda internacional.

 medida que ela foi ganhando mais experincia, Kamila comeou a treinar outras professoras de negcios e ela prpria passou a viajar por todo o pas dando cursos de empreendedorismo. Ela sabia como estabelecer contato com afegs incultas e analfabetas muito melhor do que as consultoras estrangeiras que recebiam altos salrios, e tambm tinha muita facilidade para estabelecer uma ponte entre suas superiores internacionais e as pessoas, que constituam o motivo principal para elas estarem no Afeganisto. Suas colegas do Mercy Corps, inclusive Anita, que a havia recrutado para a organizao, e Shireen, uma ex-jornalista que havia trabalhado para a AT&T, ajudaram Kamila a cobrir suas possveis carncias de conhecimentos.

Mas por mais que gostasse de trabalhar para grandes organizaes internacionais, o bicho-carpinteiro do empreendedorismo nunca deixou Kamila sossegar. Enquanto ainda trabalhava no Mercy Corps, ela iniciou uma empresa de construo civil. A empresa progrediu por um tempo, mas estava difcil encontrar o capital necessrio para mant-la funcionando e a competio era ferrenha. De maneira que ela fechou-a e comeou a procurar outras oportunidades.

As colegas de Kamila passaram a fazer tanto parte de sua famlia como as pessoas que trabalharam com ela em seu negcio de costura. Com a diferena de que agora eram membros da comunidade internacional que atravessavam o porto verde - no jovens determinadas em busca de trabalho. Era comum a presena de colegas da Frana ou do Canad no jantar da famlia Sidiqi, e uma amiga estrangeira chegou mesmo a morar com ela para desenvolver seus conhecimentos da lngua dari. Ruxandra, uma consultora da Organizao Internacional do Trabalho, que fazia pesquisas focadas em mulheres e negcios, era uma visitante assdua. Os pais de Kamila ficaram impressionados com os salrios pagos pelos estrangeiros. Jovens como Kamila, que haviam trabalhado para a ONU e ONGs nos tempos do Talib, ganhavam agora quase tanto em uma semana do que antes ganhavam em um ano. O dinheiro que Kamila levava para casa financiava os estudos universitrios de seus irmos e irms, assim como a manuteno da casa de Khair Khana, onde a maioria de seus irmos voltou a morar.

Como sempre, Malika procurava ajudar sua irm mais jovem, dando-lhe conselhos quando solicitada, mas, do contrrio, deixando seu caminho livre. Ela ficou impressionada com a rapidez com que sua irm se adaptou ao fim do regime Talib e  chegada dos estrangeiros e observava com orgulho Kamila expandir as ambies e talentos que havia desenvolvido naquela poca, agora que o Afeganisto havia voltado a se unir ao resto do mundo.

Em janeiro de 2005, a Thunderbird School of Global Management, sediada no Arizona nos Estados Unidos, admitiu Kamila para um curso de duas semanas em MBA para empresrias afegs; ela j havia sido convidada para participar da Bpeace, uma organizao sem fins lucrativos de Nova York, que oferecia um programa de assistncia a empreendedoras de alto potencial. E ento, em certo dia de outubro, o telefone tocou e Kamila foi informada que Condoleezza Rice, a secretria de estado do governo dos Estados Unidos, havia convidado a ela - a costureira de Cabul que havia iniciado uma empresa de construo civil - para ir a Washington, D.C. Apenas alguns dias depois, ela se viu falando por meio de um microfone reluzente a uma imensido de mesas cobertas com toalhas de linho e cristais reluzentes ocupadas por Very Important People - ou seja, por membros do Congresso, empresrios, diplomatas e a prpria secretria de estado - que estavam ali para ouvir sua histria:

Eu sou Kamila Sidiqi, ela comeou. Sou dona de um negcio no Afeganisto... Ela prosseguiu contando como havia comeado seu primeiro empreendimento a partir da sala de estar de sua casa em Khair Khana e como agora - com a ajuda da Thunderbird, do Mercy Corps e com o financiamento do governo dos Estados Unidos - ela havia treinado mais de novecentas pessoas, homens e mulheres de seu pas, para que elas tambm tivessem preparo para iniciar e desenvolver seus prprios negcios. Ela falou sobre como o empreendedorismo e a educao haviam transformado as vidas das mulheres e que essa transformao havia levado a outro desenvolvimento extraordinrio: as mulheres do Afeganisto passaram a participar do processo poltico. Essa parceria entre os Estados Unidos e o meu pas constitui um bom e proveitoso comeo. Juntos, eu acredito que podemos e vamos avanar ainda mais na construo de um Afeganisto mais estvel e prspero.




Eu marquei um encontro com Kamila para tomarmos um ch, um ms depois de seu discurso em Washington, no escritrio do Mercy Corps em Cabul. Era uma tarde bastante melanclica de inverno e ela se encontrava numa encruzilhada. Depois de frequentar um curso de desenvolvimento empresarial na Itlia, promovido pelo Mercy Corps, ela decidiu abandonar seu trabalho para as agncias internacionais e - outra vez - iniciar seu prprio negcio. Ela estava decidida a abandonar um bom emprego que lhe proporcionava estabilidade e certo nvel de segurana e no tinha nenhuma dvida sobre sua deciso.

Trabalhando para uma agncia internacional, eu recebo um salrio extremamente alto, mas isso traz benefcios apenas para mim e minha famlia, ela me disse. No gera empregos para outras pessoas, como conseguimos fazer durante o regime Talib. Por outro lado, se eu criar minha prpria empresa, poderei treinar muitas pessoas e elas iro iniciar seus prprios negcios. E ento, talvez elas inspirem um nmero ainda maior de pessoas a fazer a mesma coisa, e assim, sucessivamente. Eu sei que este negcio pode fazer uma grande diferena para este pas.

Foi seu querido irmo Najeeb quem teve a ideia do nome a ser dado  nova empresa de Kamila. A oficina de costura o havia sustentado durante os anos de domnio Talib e a palavra que ele encontrou capaz de demonstrar a energia e a aspirao de sua irm foi Kaweyan, que era o nome de uma dinastia do leste do Ir conhecida por sua glria e boa sorte. Najeeb previa, com muita confiana, que sua irm teria o mesmo sucesso duradouro.

Naquele momento, Kamila era, no entanto, a nica empregada da Kaweyan, e os nicos bens que formavam seu capital eram um laptop Dell - cortesia do Mercy Corps - e a viso clara e apaixonada de sua jovem fundadora.

Uma vez iniciado esse negcio, ela disse, eu vou comear a treinar pessoas - tanto homens como mulheres - e criar equipes mveis que possam viajar para as diferentes provncias de todo o Afeganisto e talvez at mesmo para o Paquisto e a ndia. A Kaweyan vai ensinar as pessoas a desenvolver suas ideias e a formular planos empresariais, a fazer oramentos e anlises de lucros e perdas. Posteriormente, poderemos trabalhar com empresas privadas no desenvolvimento de marketing e ideias para negcios, porque o Afeganisto vai precisar de empresas para continuar crescendo quando os estrangeiros forem embora. E eu quero trabalhar com estudantes tambm, exatamente como fizemos com o negcio de costura: a Kaweyan poderia oferecer jornadas de meio perodo a estudantes universitrios, que poderiam formular planos empresariais a diferentes tipos de empresas por todo o pas. Ns no temos empregos suficientes para todos os desempregados do Afeganisto, mas dessa maneira, poderamos criar oportunidades tanto para os jovens como para os empreendedores.

As mulheres,  claro, constituiro um alvo especial de interesse da Kaweyan. Depois de tantos anos de guerra, o empreendedorismo das mulheres abrange muito mais do que meros negcios.

Dinheiro  poder para as mulheres, Kamila disse. Se as mulheres tiverem seu prprio salrio para contribuir com o sustento da famlia, elas passaro a participar das tomadas de decises. Seus irmos, maridos e todos de suas famlias tero respeito por elas. Eu j vi isso se repetir por muitas e muitas vezes. Isso  to importante no Afeganisto porque as mulheres sempre tiveram de pedir dinheiro aos homens. Se conseguirmos trein-las, e com isso torn-las capazes de ganhar um bom salrio, poderemos ento transformar suas vidas e ajudar suas famlias.

Ela parou de falar por um momento, para ter certeza de que eu estava entendendo e, em seguida, prosseguiu: Eu tive sorte. Meu pai era um homem muito evoludo e fez tudo que pde para que todas as suas nove filhas estudassem. Mas existem famlias em todas as partes que tm seis ou sete filhos e podem pagar apenas para que os meninos frequentem a escola; elas no tm condies de pagar para que as meninas tambm estudem. De maneira que, se pudermos preparar uma mulher que nunca teve a chance de estudar e, com isso, ela puder iniciar seu prprio negcio, ser bom para toda a famlia, como tambm para a comunidade. Sua atividade gerar empregos para outras pessoas e dar condies para que seus filhos, tanto meninos quanto meninas, frequentem a escola. Pelo futuro do Afeganisto, ns temos de prover uma boa educao a nossos filhos - a prxima gerao.  essa a importncia que uma empresa tem. E foi para isso que eu fundei a Kaweyan.

Em todos os anos que passei fazendo visitas a Kamila, ns duas mantivemos o hbito de brincar dizendo que ambas precisvamos casar logo, se no por outro motivo, pelo menos para fazer com que nossas famlias parassem de nos perguntar quando  que amos casar. Eu achava engraado que, apesar de sermos de mundos totalmente diferentes, as presses que soframos por parte de nossos familiares eram muito parecidas; embora sentissem orgulho de ns pelo que fazamos, eles no paravam de querer nos ver casadas com bons maridos e finalmente sossegadas.

E no final do ano de 2008, ns duas havamos conseguido - felizmente! O noivo de Kamila era um primo que havia estudado engenharia em Moscou e estava morando em Londres. Apesar de estar certa de que queria casar com ele, ela fez questo de insistir durante todos os meses de namoro, por telefone e e-mail, que ele entendesse e aceitasse o compromisso que ela tinha com sua empresa e com o Afeganisto. Com a alegria de noiva recente, ela me mostrou uma fotografia 3 x 4 dele que carregava com ela em sua carteira. Ele tem um sorriso de estrela do cinema, ela disse, e um corao generoso acompanhado de um vigoroso intelecto.

O casamento deles, em 2007, foi uma gloriosa celebrao tipicamente afeg com dois dias de durao, 650 convidados, ao som de muita msica e muita comilana. Kamila brilhou em seu vestido branco de mangas longas e sofisticados bordados de contas. (A antiga profecia de Saaman revelou-se verdadeira: Kamila agora no tinha mais tempo para costurar o que quer que fosse e acabou comprando seus dois vestidos de casamento numa loja de roupas no centro da cidade.) To deslumbrante quanto uma estrela de cinema, ela posou para uma grande sucesso de fotos ao lado de seu esplendoroso marido. O Sr. Sidiqi, sempre notvel por sua postura militar impecvel, sorri radiante nas fotos, orgulhoso de seu papel de patriarca.

Um ano depois, Kamila deu  luz um menino, Naweyan. Ela o leva consigo para o escritrio, no segundo andar, quase todas as manhs - s vezes tambm para os cursos que ministra fora da cidade - e costuma dizer, brincando, que ele  o mais jovem empregado da firma. Ele dorme pela maior parte do tempo em que ela trabalha, despertando apenas ocasionalmente para interromper as falas de sua me com um berreiro de fome. Quando ele se torna muito irritvel, uma das irms de Kamila o leva para passar a tarde em sua casa. Eu confesso que, vendo o beb de Kamila passar de mo em mo entre suas irms, muitas vezes me pareceu mais fcil ser me trabalhadora em Cabul do que em Washington.


Em minha ltima viagem a trabalho para Cabul, em outubro de 2009, conheci o irmo mais velho de Kamila, Najeeb. Ele havia passado a maioria dos anos de domnio Talib no Ir, vivendo de biscates, antes de retomar seus estudos universitrios e assumir um importante cargo pblico em Cabul. Havamos combinado de nos encontrar no Kabul Inn, um hotel tranquilo com um modesto salo para refeies com vista para um jardim repleto de arbustos floridos, que balanavam ao vento de inverno. Do aparelho de televiso, num canto prximo de um balco de comida, vinha uma msica indiana tocada em alto volume. Ele j estava com uma hora de atraso, de acordo com o horrio que havamos combinado e eu comecei a ficar preocupada. Talvez ele tivesse decidido no vir; talvez ele tivesse concludo que contar a histria de sua irm - e de sua famlia - no fosse sensato na atual conjuntura poltica. Mas, finalmente, ele entrou correndo pela porta e pediu desculpas por seu atraso. Todas as ruas do centro de
 Cabul haviam sido bloqueadas com o propsito de impedir ataques suicidas contra a iminente realizao de eleies para presidente; havia demorado noventa minutos para ele percorrer apenas alguns quilmetros.

Eu aguardei ansiosamente que ele comeasse a falar.

Gayle Jan, ele finalmente comeou, eu quis vir a esse encontro com voc para lhe agradecer. Eu sempre desejei que algum viesse de um pas estrangeiro para contar a histria de minha irm. Ela foi muito corajosa em tempos to difceis e fez tanto por todos ns - no apenas por nossa prpria famlia, mas tambm por tantas outras pessoas de Khair Khana e de toda Cabul. E foi graas a ela que todos ns pudemos estudar. Quero que voc saiba o quanto estou feliz por sua histria ser finalmente contada. E agradecer a voc por ter vindo aqui.

Pela primeira vez, desde que havia chegado ao Afeganisto com os olhos lacrimejantes naquela manh ensolarada de dezembro - minha primeira viagem a trabalho, devo admitir - brotaram lgrimas de meus olhos. E percebi que o irmo de Kamila sabia melhor do que eu naquele momento porque era to importante contar a histria de sua irm. Mulheres jovens e corajosas realizam todos os dias atos heroicos sem ningum para testemunh-los. Aquela era a oportunidade de fazer justia, contando uma pequena histria que fez a diferena entre passar fome e sobreviver para as famlias cuja sorte ela mudou. Eu queria mostrar aos leitores o que h por trs de um lugar que os estrangeiros conhecem mais por seus ataques areos e bombas que explodem  beira de suas estradas do que por seus silenciosos atos de coragem. E apresentar-lhes mulheres jovens como
 Kamila Sidiqi que seguiro em frente, no importa o que acontea.



Situao atual das personagens deste livro

Sara continua trabalhando para melhorar as condies de sua famlia. Seus dois filhos esto matriculados na universidade, o que  motivo de muito orgulho para ela; com seu trabalho, ela teve condies de dar um lar para sua famlia e no ser mais um fardo para a famlia de seu falecido marido. Hoje, ela e seus filhos moram em sua casa prpria na capital. Sara continua a trabalhar como costureira, ao mesmo tempo em que cozinha e administra a casa de sua famlia.

Mahnaz continuou lutando para realizar seu sonho de se tornar professora. Apesar das dificuldades para retomar seus estudos depois de cinco anos e meio de afastamento obrigatrio, ela perseverou, fazendo o vestibular e acabando por obter um cargo de professora numa das principais instituies de ensino superior de Cabul. Durante dois anos, aps o fim do domnio Talib, ela continuou a usar o chadri, por dificuldade de se adaptar  mudana de poder andar nas ruas com a cabea encoberta apenas por um leno. Sua irm, que tambm havia trabalhado com as irms Sidiqi, retomou seus estudos juntamente com Mahnaz e seguiu estudando para se formar mdica, como sempre havia sonhado.

Em 1998, depois de quase dois anos de domnio Talib, a Dra. Maryam decidiu se mudar com sua famlia para a provncia de Helmand, ao sul do Afeganisto, bem ao lado da sede do Talib. Poucas mdicas se dispunham a trabalhar naquela regio, naqueles tempos, e ela passou a ser tanto adorada como respeitada pela comunidade pelos servios que prestava. Os oficiais do Talib tambm lhe eram gratos por seu trabalho e por sua disposio de deixar Cabul e no interferiam, de forma alguma, no tratamento que ela dispensava a seus pacientes. Na verdade, muitos desses talibs chegavam a levar suas mulheres e filhas para serem tratadas por ela. Muitas mulheres de Helmand que a Dra. Maryam contratou e treinou durante os anos de domnio Talib se tornaram enfermeiras e parteiras, passando para outras de suas comunidades a importncia de proteger a sade das mulheres. A Dra. Maryam continua trabalhando como pediatra e estimula suas jovens filhas talentosas, que so as melhores alunas de suas classes, para que considerem a possibilidade de fazerem carreira em medicina.

Rahela, a prima admirvel de Kamila que contribuiu com as iniciativas do programa Habitat das Naes Unidas durante os anos de domnio Talib,  hoje uma alta funcionria do governo. Atualmente, ela lidera a iniciativa de melhorar os servios pblicos do pas, ao mesmo tempo em que se esfora para administrar uma carreira que exige muito dela e uma famlia de filhos pequenos; ela tambm ajuda a organizar o programa de concesso de microcrdito s mulheres necessitadas em duas provncias do Afeganisto. Ela espera, nos prximos anos, expandir o programa, que  financiado por doaes de lderes comunitrias locais.

Muitas das mulheres envolvidas nos programas de Fruns Comunitrios Femininos passaram a assumir funes de liderana em suas respectivas reas. Muitas delas trabalham para o governo, muitas so professoras e algumas dirigem suas prprias organizaes comunitrias e outras se tornaram empresrias de sucesso. O programa do Frum Comunitrio lhes oferece crdito para ajud-las a descobrir seus prprios potenciais de liderana e provar a si mesmas que tm realmente capacidade para fazer a diferena.

Quanto ao programa Habitat do Frum Comunitrio das Naes Unidas, ele acabou se tornando um modelo para o plano de desenvolvimento rural do novo governo do Afeganisto. O Programa Nacional de Solidariedade foi criado a partir do modelo de desenvolvimento democrtico do Frum Comunitrio, usando os novos Conselhos Comunitrios de Desenvolvimento para dar aos cidados o poder de decidir, por eles mesmos, quais prioridades devem ser desenvolvidas em cada local.

Ali e seus irmos continuam em Cabul. Embora no tenham mais suas prprias lojas, eles continuam a sustentar suas famlias, se apoiando mutuamente. E eles se recusam a aceitar o crdito pelos bons servios que prestaram durante os anos difceis de colapso da economia de Cabul. Apenas um de seus irmos viu Roya, sua ex-costureira, depois do fim do regime do Talib e da mudana de governo. Foi um encontro acidental que ocorreu em 2004, quando Kamila reconheceu o motorista do txi em que estava. Como ele, no entanto, no a reconheceu, porque nunca havia visto seu rosto descoberto, Kamila/Roya se apresentou a Hamid. Ele se mostrou muito feliz por encontrar sua antiga fornecedora de roupas e enviou saudaes a todos de sua famlia. Kamila retribuiu as gentilezas dele e acrescentou que ela e sua famlia haviam ficado extremamente gratas por todo o apoio que ele e seus irmos haviam lhes dado durante os anos difceis do governo Talib.

Quanto s irms de Kamila, elas tambm abriram, cada uma, seu prprio caminho, se apoiando mutuamente. Saaman, que jamais esqueceu o prazer e a beleza que os romances e poesias lhe haviam proporcionado, elevando seu astral naqueles tempos difceis, retomou seus estudos universitrios e formou-se em literatura, deixando sua famlia muito orgulhosa. Laila tambm concluiu com sucesso seus estudos universitrios. Malika  hoje uma das mulheres mais atarefadas de Cabul, conseguindo, ao mesmo tempo, ajudar seu marido, criar quatro filhos saudveis, trabalhar com Kamila na Kaweyan e, finalmente, fazer o curso universitrio que vinha adiando h muito tempo. Depois de selecionar minuciosamente entre as lembranas que guardava daqueles anos, ela escolheu me falar sobre as mulheres com quem havia trabalhado e para as quais havia costurado durante os anos de regime Talib, e da satisfao que o trabalho de costura lhe proporcionava ao ponto de inspir-la a retom-lo. Atualmente, ela voltou a fazer ternos, vestidos e casacos para clientes particulares, com a ajuda e o apoio de Saaman.

Quanto ao Sr. e  Sra. Sidiqi, eles continuam vivendo no norte, desfrutando a beleza de Parwan e curtindo as visitas de seus onze filhos e dzias de netos. O Sr. Sidiqi continua sendo um dos mais ardorosos defensores do direito a estudar das mulheres que j conheci. Como ele costuma dizer  muito melhor ganhar a vida com uma caneta do que com o uso da fora. O fato de suas nove filhas terem estudado constitui para ele uma fonte inesgotvel de orgulho. A caula das nove filhas est atualmente terminando seus estudos em cincia da computao.

Os irmos de Kamila tambm tiveram sucesso em seus estudos. Ambos concluram seus cursos universitrios financiados pelo trabalho de sua irm e so extremamente agradecidos pelo incentivo e apoio que ela lhes deu - tanto emocional como financeiro - pelos ltimos quinze anos. Como Najeeb me disse: Alm de ser minha irm, Kamila  minha amiga e lder em nossa famlia.

O futuro do Afeganisto estava, em grande parte, na dependncia de mentes como a de Kamila e de sua famlia, quando seus membros comearam em nossas conversas a olhar para o futuro depois de ter passado muitos meses olhando para o passado. A crena deles no potencial de seu pas  extremamente forte, inabalvel e, muitas vezes, em minha opinio, positivamente contagiante. Kamila continua a sonhar alto, trabalhando para fazer da Kaweyan uma das empresas mais importantes de seu pas. A cada dia, ela desafia os inmeros obstculos que se apresentam a ela e a todos os outros que esto tentando fazer a diferena no Afeganisto: escalada de violncia, crescente corrupo e uma comunidade internacional cada vez mais ansiosa cujo trabalho  hoje frequentemente abortado por medidas de segurana e intensificao das ameaas  sua prpria continuidade.

As mulheres que eu conheci no querem nada alm de paz. Mas elas tm receio de que o mundo esteja ficando impaciente por alcanar uma negociao que inclua seus direitos como parte do preo da segurana. E elas temem que os problemas de seu pas venham a ser colocados outra vez sobre suas costas. Nem elas e nem os homens que eu entrevistei, nos dois ltimos anos, acreditam que um Afeganisto abandonado continue por muito tempo a ser um problema isolado.

Com graa e dignidade as pessoas que fazem parte deste livro seguem em frente, dia aps dia. Elas acreditam, como sempre acreditaram, que algo melhor  possvel.

Eu, de minha parte, espero que elas estejam certas.



Depois de anos trabalhando com mulheres afegs, como empresria e lder comunitria, Kamila foi convidada a ir a Washington, D. C., para discursar na festa de comemorao do 10 aniversrio da U.S. Global Leadership Campaign.



Agradecimentos

Este livro surgiu de uma reportagem que eu comecei a fazer em 2005 durante meu primeiro e segundo anos do curso de MBA, o qual envolveu quase dez anos de acompanhamento das notcias dirias. Eu j acreditava, e acredito ainda mais hoje, que as histrias de mulheres empreendedoras, particularmente em pases lutando para se reerguer dos destroos da guerra, merecem ser contadas. Essas mulheres corajosas trabalham diariamente no apenas para sustentar suas famlias e melhorar suas economias, mas elas esto tambm servindo de novos modelos para a prxima gerao de jovens, homens e mulheres, que podem ver com os prprios olhos o poder das mulheres empreendedoras que fazem a diferena.

Eu quero agradecer a todas as pessoas que entrevistei e que tornaram este livro possvel. A comear por Kamila e sua grande e acolhedora famlia, cujos membros arranjaram tempo entre uma tarefa e outra de seus dias totalmente ocupados com trabalho e filhos para se deixarem entrevistar. Elas abriram as portas de suas casas e contaram suas histrias, e sou profundamente grata por sua imensa generosidade e sua inquestionvel hospitalidade, mesmo nas circunstncias mais desafiadoras. Durante os anos de pesquisa e escrita sobre a histria de Kamila e suas irms, eu descobri exatamente como muitas jovens mulheres saam para trabalhar diariamente pelo bem de suas famlias durante os anos do regime Talib, apesar de terem sido banidas das salas de aulas e escritrios. Os esforos dessas heronas inesperadas, participando de ONGs, criando empresas em casa e dando aulas em hospitais e lares de toda a cidade, fizeram toda a diferena entre sobreviver e morrer de fome para inmeras famlias. Poder contar suas histrias de perseverana e persistncia frente a obstculos sempre mais desafiadores  para mim um privilgio.

Quero expressar meus humildes agradecimentos s jovens mulheres que trabalharam com Kamila. Para muitas delas, eu fui a primeira estrangeira que conheceram, e a entrevista que cada uma me deu foi a primeira de sua vida. Apesar de seu nervosismo inicial, elas me contaram suas experincias e me falaram de suas impresses daqueles anos sombrios cujas lembranas as perseguem mais de uma dcada depois. Para elas, a casa de Kamila era tanto um refgio e um porto seguro onde podiam escapar de seus problemas, quanto seu local de trabalho. Eu me esforcei para me manter fiel aos fatos, como ao esprito dos relatos dessas jovens mulheres: elas foram trabalhadoras incansveis que lutaram para ganhar o po de cada dia num tempo em que as famlias no tinham para onde mais se voltar.

Aos lojistas que trabalharam com Kamila, eu devo minha gratido no apenas por seus relatos, mas tambm por sua hospitalidade. Eles concederam, generosamente, horas de entrevistas em seus escritrios, e tambm nas salas de estar de suas casas, no por acharem suas prprias histrias interessantes ou para chamarem a ateno, mas por terem prazer em ajudar a visitante estrangeira que tinha tantas perguntas a lhes fazer sobre o trabalho que haviam realizado tantos anos atrs. Em suas vidas eles h muito deixaram aquele perodo para trs, mas sua humildade, carter e coragem no se perderam com o tempo.

s mulheres envolvidas nos programas do Frum Comunitrio, eu quero agradecer por terem me contado em tantos detalhes como e por que aqueles programas se revelaram to eficientes. Ao ouvir um grupo enorme de participantes do frum discutir seu trabalho, que constitua uma fonte de esperana numa poca to difcil, percebi o quanto esse esforo hercleo para manter as mulheres trabalhando durante os anos do regime Talib significou para tantas pessoas. O registro preciso de uma organizao de base comunitria, de sua mobilizao e liderana, est entre as histrias mais importantes de sucesso que presenciei durante anos de pesquisas sobre o que funciona - e o que no funciona - quando se trata de projetos de desenvolvimento.

Meus sinceros agradecimentos s dezenas de voluntrios internacionais que trabalharam no Afeganisto durante os anos de regime Mujahideen e de regime Talib, e que pacientemente me falaram de suas impresses do perodo em longas conversas pelo Skype, tarde da noite, com conexes cheias de interrupes provocadas pela distncia que nos separava. Entre elas, Samantha Reynolds, lder de viso e convico, que lutou incansavelmente para dar emprego s mulheres, mesmo quando muitas outras agncias internacionais haviam amplamente abandonado essa ideia. As pessoas que trabalharam com ela continuam tendo-a como uma das melhores e mais louvveis lderes que j tiveram. O chefe de Reynolds na poca, Jolyon Leslie, tambm compartilhou comigo uma srie considervel de discernimentos perspicazes, e eu sou grata tanto pelo tempo que ele me concedeu quanto por sua perspectiva. Tambm agradeo de corao a Anne Lancelot e Teresa Poppelwell, colegas de Samantha no programa Habitat das Naes Unidas. O livro de Lancelot, Burqas, foulards et minijupes: Paroles dAfghanes,  leitura obrigatria para quem quiser entender melhor a vida das mulheres durante o regime Talib. Meu muito obrigada tambm a Anders Fnge, Charles MacFadden, Barbara Rodey, Pippa Bradford, Patricia McPhillips, Henning Scharpff, Norah Niland e Anita Anastacio, por terem dedicado horas de seus dias atarefados para me contarem suas experincias administrando programas de ajuda e socorro sob o governo do Talib.

Muitos excelentes jornalistas e pesquisadores tambm compartilharam generosamente comigo suas ideias, vdeos e fotografias: quero expressar aqui minha gratido a todos, entre eles Daud Qarizadah, Gretchen Peters, Niazai Sangar e Amir Shah.

Nancy Dupree e sua extraordinria equipe do Centro Afeganisto da Universidade de Cabul me concederam quantidades incrveis de ajuda quando eu estava pesquisando documentos fundamentais dos anos de domnio Mujahideen e Talib. Aquele Centro dispe de documentos que no so encontrados em qualquer outro lugar e de pessoas capazes e diligentes cuja assistncia  inestimvel. Os dias que passei revirando os materiais de arquivo no computador situado no segundo andar da biblioteca foram incrivelmente produtivos. O vigor e a dedicao incansveis de Nancy a dar o melhor de si  um exemplo do que um dia eu espero ser merecedora.

As informaes sobre Cabul so resultados de um trabalho de equipe. Eu quero agradecer a meu colega Mohamad por sua dedicao jornalstica e seu compromisso com a excelncia. Este trabalho teria sido impossvel sem sua ajuda com tradues, sua capacidade para enfrentar qualquer desafio logstico e sua pronta disposio para colocar em prtica suas habilidades afiadas para a soluo de problemas. Agradeo tambm  sua maravilhosa famlia por sua hospitalidade e amizade. E a Saibrullah, motorista com muito senso de humor e incrvel capacidade de lembrar qualquer endereo, mesmo depois de passados muitos anos.

O editor de Empreendedorismo Internacional do Financial Times, James Pickford foi a primeira pessoa a adquirir estas reportagens, primeiramente sobre Ruanda e depois sobre o Afeganisto, e por este comeo eu lhe sou extremamente agradecida. Minha gratido tambm para com Anne Bagamery do International Herald Tribune e Amelia Newcomb do Christian Science Monitor. Essas duas excelentes editoras me ajudaram a trazer at seus leitores as histrias do Afeganisto que eram ainda mais fortes e instigantes por seus contedos. E a Tina Brown, Jane Spencer e Dana Goldstein do Daily Beast, meus sinceros agradecimentos por terem dado voz a histrias vigorosas que, do contrrio, poderiam nunca ter sido contadas.

Obrigado tambm ao professor Geoffrey Jones e Regina Abrami da Harvard Business School. Eles, juntamente com Janet Hanson, da rede global 85 Broads, e Alex Shkolnikov, do CIPE [Center for International Private Enterprise], acreditaram no potencial e na fora dessas histrias quando quase ningum mais acreditava. Pela f que tiveram eu sou extremamente agradecida.

E a Mohamed El-Erian e meus generosos chefes e colegas da PIMCO [Pacific Investment Management Company], muito obrigada por terem me dado apoio e tempo para concluir este trabalho.

Um grande nmero de mulheres extraordinrias apoiou esta pesquisa sobre empreendedorismo feminino com seu estmulo constante e seus prprios exemplos de excelncia arduamente conquistada. Entre elas, Amanda Ellis do Banco Mundial, com sua colaborao ocasional e sua inspirao constante, e Dina Powell, da iniciativa 10,000 Women, defensora incansvel na promoo do potencial das mulheres e tambm modelo exemplar a ser seguido por quem deseja ver o quanto  possvel quando ideias so transformadas em aes. Agradeo tambm a Alyse Nelson, da ONG Vital Voices, cuja liderana, compromisso e apoio so sinceramente apreciados. E a Isobel Coleman, do Council on Foreign Relations, cujos escritos e pesquisas ajudaram a mostrar o caminho.

Desde que comecei a escrever sobre este assunto, cinco anos atrs, muitos leitores vm me perguntando como podem ajudar. Para responder a esta pergunta, eu criei uma lista de apenas algumas das muitas organizaes que apoiam as mulheres afegs nas pginas a seguir. Voc pode saber mais a respeito delas e conectar-se com suas pginas na internet atravs de meu site: www.gaylelemmon.com.

Elyse Cheney e Nicole Steen perceberam o potencial desse projeto desde o princpio e ofereceram seu apoio inestimvel e orientao por toda a jornada que resultou neste livro. Eu no consigo imaginar que qualquer escritor pudesse sonhar em ter uma melhor promotora para seus projetos do que Elyse, a quem eu sou agradecida por sua energia e ajuda editorial. Lisa Sharkey, da [editora] HarperCollins acreditou na ideia e apresentou-me a minha editora, parceira de reflexes e amiga Julia Cheiffetz, tambm da Harper. Ela e Katie Salisbury guiaram todo o processo de idas e vindas da finalizao de um livro e eu sou extremamente grata por seu empenho e dedicao. Meu muito obrigada tambm a Jonathan Burnham da Harper por seu envolvimento com o projeto. E a Yuli Masinovsky, o meu muito obrigada por ter ajudado para que tudo isso comeasse tanto tempo atrs. Meus sinceros agradecimentos tambm a Annik LaFarge, a quem eu admiro profundamente por sua capacidade de julgamento crtico, amizade generosa e opinio preciosa.

E, finalmente, agradeo a meu marido. Sem seu apoio firme e confiana inabalvel neste projeto, nada teria sido o mesmo e muito menos teria sido possvel.



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Referncias

Relaciono abaixo algumas organizaes sobre as quais voc talvez queira saber mais:


Organizaes locais:

Centro Afeganisto da Universidade de Cabul

http://www.dupreefoundation.org/


Centro de Desenvolvimento e Capacitao das Mulheres Afegs

http://www.awsdc.net/


Centro de Educao das Mulheres Afegs

http://www.awec.info/


HAWCA [Assistncia Humanitria para as Mulheres e Crianas do Afeganisto]

http://www.hawca.org/main/index.php


Instituto Afego de Estudos

http://www.afghaninstituteoflearning.org/


PARSA [Apoio em Fisioterapia e Reabilitao para o Afeganisto]

http://www.afghanistan-parsa.org/


Rede de Mulheres Afegs

http://www.afghanwomensnetwork.org/


Voice of Women Organization

http://www.vwo.org.af/


Women for Afghan Women

http://www.womenforafghanwomen.org/


Organizaes Internacionais:

Bpeace

http://www.bpeace.org


CARE

http://www.care.org/


Institute for Economic Empowerment of Women

(Atividade empresarial como meio de conquistar a paz)

http://www.ieew.org/


Mercy Corps

http://www.mercycorps.org/


Vital Voices

http://www.vitalvoices.org


Women for Women International

http://www.womenforwomen.org/



Conhea outros ttulos da editora em:

www.editoraseoman.com.br

